O que morrer

François Silvestre – 1999   Morrer não quero, mas não evito. Por isso decido o que morrer em mim. E…

François Silvestre – 1999

 

Morrer não quero,
mas não evito.
Por isso decido o que morrer em mim.
E me decido a só morrer completo.

A próstata, traidora e vulnerável,
que se comporte e sobreviva,
não tenho tempo a perder
com sua resistência inferior.

A vista, que de cansada,
já pus cangalha.
Não posso viver sem letras.

Procurar tumores,
observar caroços,
examinar defeitos, não vou.
Medir pressão,
taxa de açúcar,
colesterol,
também não vou.

O fígado, usina velha de limpar fracassos,
que se aguente, não terá sossego.
O rim, que se vire.
O coração, meu velho biltre,
que se navegue em desencanto e solidão.

Ponte alguma, safena ou mamária,
fará riacho de afeto.
E assim terá de morrer como nasceu:
Batendo no peito de poeta e não de arquiteto.

 

Deu-me saudade, daquela intempestiva que surge no espasmo corporal e não na fração emocional da mente, quando Jacqueline me entregou duas pastas abarrotadas de papeis amarelados pelo tempo e esquecimento. Pastas com rabiscos poéticos de anteontem.

Coisas que atirei em folhas de papel jornal pelas teclas da velha Remington 100 ainda guardada num canto do escritório. Há tímidos sonetos de 1978, martelos agalopados de 1980, hai-kais de 1982, quebra-línguas de 1984, muitas quadrinhas com as Diretas Já.

Na segunda pasta a parte mais saudosa do achado, rascunhos de colunas do Diário de Natal, versos quebrados meus e de François Silvestre produzidos numa sala da extinta FASP, e um texto datilografado por Luís Carlos Guimarães para o livro da Copa 70.

Um bom reencontro com as fotografias recortadas dos jornais durante as passeatas do Dia da Poesia no princípio dos anos 80, quando os poemas do Grupo Aluá de Poesia tomavam a Cidade Alta e provocavam o poder público com versos de alto calibre.

Na foto maior, eu e Venâncio Pinheiro puxando a passeata com a faixa dizendo “Nossa Ociocidade Natal”, blague para o slogan publicitário criado por Ricardo Rosado para o prefeito Marcos Formiga. E o melhor de tudo, já perto do século XXI, o poema abaixo, do mano François:

 

Flor da barriga
Bem me ler, mal me ler; Bem me ler, mal me ler; Bem me ler, mal me ler; Bem me ler, mal me ler; Bem me ler, mal me ler; Bem me ler, mal me ler; Bem me ler, mal me ler. Eis a cantilena para a imprensa política que todo dia arruma e desarruma chapas.

Convite
Para um bom observador, não há constrangimentos atrapalhando a escolha do candidato a governador do PMDB. O fato real é que o partido, através dos primos Garibaldi Filho e Henrique Alves, convidou Fernando Bezerra. Ele só tem que dizer sim ou não. Só.

Senadora
Wilma de Faria (PSB) continua sendo a figura que vive o melhor momento da conjuntura pré-eleitoral. Tem seu nome disparado na frente para o Governo e o Senado, mas sabe mais que ninguém que a segunda opção é a melhor, a mais confortável.

Economia
“A economia brasileira vive um momento de grande frustração, grave perigo e de condução esquizofrênica”. Aspas do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, durante um seminário sobre os 20 anos do Plano Real, na cidade de São Paulo.

Só oba-oba
Março já vai na metade, estamos a 70 dias das convenções partidárias e nenhum pré-candidato, nenhuma legenda, elaborou sequer uma minuta com propostas para o Rio Grande do Norte. Não se vê um só debate sobre as questões prementes do estado.

Propina
Na sessão de ontem do Superior Tribunal Federal, ficou estabelecido que o corrupto (já condenado) João Paulo Cunha (PT) não praticou lavagem de dinheiro. O que o petista fez foi mandar sua mulher sacar no caixa do Banco Rural uma propina de R$ 50 mil.

Propinoduto
Já que o Congresso convocou Graça Foster para explicar denúncias de propina na Petrobras, pela empresa holandesa SBM Offshore, deveria também chamar o ex-presidente Sergio Gabrielli. Na sua gestão, teriam entrado US$ 139 milhões da SBM.

Na Paraíba
A ministra Carmen Lúcia, do STF, aceitou a tese da atribuição do Ministério Público do estado vizinho para investigar o governador Ricardo Coutinho (PSB) por suposto ato de improbidade administrativa durante o tempo em que foi prefeito de João Pessoa.

Pernambuco
O governador Eduardo Campos (PSB) aumentou em 42,9% a verba publicitária do seu governo, que desde 2008 não renovava a licitação. O volume da verba subiu de R$ 55 milhões para R$ 100 milhões. Até então, apenas duas agências tocavam a conta.

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