O que pensa uma jovem de olhos azuis durante compras em shopping no feriado

Lembrei-me de quando Marcelo Adnet tinha graça e gravava pequenos quadros humorísticos na MTV

loirrrraConrado Carlos
Editor de Cultura

Ontem eu fui almoçar com a família no Midway Mall. Chegamos cedo para um feriado, coisa de 12h30, em cumprimento ao horário acordado com pai, sempre pontual em seus compromissos. Vagas no estacionamento de sobra, sem fila antes das cancelas com a voz robótica que nos deseja boas compras, o lugar estava uma beleza. Essa é uma das maravilhas do veraneio: deixar Natal livre, leve e solta, com a feição do tempo em que meio mundo era apaixonado por ela. Parei o carro no piso G3 e nos direcionamos à porta automática da praça da alimentação, o local mais sociável do templo consumista que parte da classe média e alta abandonou em nome do exclusivismo dos restaurantes mais chiques do andar superior.

Próximo à última faixa de pedestre, antes da entrada, duas mulheres vêm em nosso encontro. Pelos traços físicos, deduzi que eram mãe e filha. Ambas loiras dos olhos azuis, trajando bermudas e sandálias baixas. Pelo pacote nas mãos da mais velha, tinham vindo comprar o almoço. Foi quando, quase ao nosso lado, sinceramente não sei para quem aquilo fora endereçado, a filhote de Vera Loyola com Chiquinho Scarpa soltou uma ignomínia que temos escutado com frequência, desde que Lula, Dilma e o PT resolveram encher a massa de quitutes e eletrônicos sem prover alicerce intelectual com uma educação razoável. “Shopping de liso!”. Eu e Carol nos olhamos, analisamos nosso aspecto e especulamos que a ariana falava de outro alguém.

Mas aquilo ficou atrás da orelha. Estávamos mais apresentáveis do que a sujeita, pude perceber, só que os traços fidalgos, aristocráticos, heráldicos (adoro essa ruma de palavra chula) a deixaram em posição de ataque contra algo que incomodou seus afazeres – pelo menos é o que acredito que tenha passado naquela cabecinha de pedra, em que os valores são contrários àqueles do antigo comercial da Ribeira, onde o velho e o novo se misturavam. Lembrei-me de quando Marcelo Adnet tinha graça e gravava pequenos quadros humorísticos na MTV, como um que ironizou eleitores elitistas, em 2010. Em certo momento, ele, vestido com um roupão de seda, tomando vinho, ‘refugiado’ em sua mansão em Miami, solta a pérola com forte pronuncia estrangeira:

“Como o Brazil melhorou? Agora eu quero viajar, o meu jatinho atrasa para sair. Agora pobre voa [...] Negócio de voar popularizou. Qualquer mil reaiszinho, está voando. ‘Ah, mas eu tenho parente em Fortaleza’. Vá de ônibus! O Brazil sempre foi assim. Ora, e as tradições dessa república? [...] essa coisa popular, essa coisa odorenta, isso é uma coisa terrível”. O nome do personagem é Marco Graco, um senador picareta com amigos no Opus Dei e na Loja Maçônica, revoltado com funcionários de sua fazenda em Mato Grosso que querem reduzir a jornada de trabalho para ‘apenas’ 16 horas diárias. Para ele o Nordeste “é uma passagem para Miami”. Tem uma proposta para o voto seguir a renda, “Ora, eu sou alfabetizado em três línguas”.

Entre 2000 e 2010, a desigualdade de renda caiu em 80% dos municípios brasileiros. Ainda que a paternidade seja omitida, pois Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e a dupla China-Índia fizeram do mais que qualquer Bolsa-Pidão, o dado merece comemoração – sem fogos, nem cerveja, claro. Até por que no período, o ganho real foi de 63% acima da inflação, contra semelhantes 51% dos dez anos anteriores (1990-2000). Mas como disse Vicente Serejo aqui n’O Jornal de Hoje, um dia desses, houve crescimento sem desenvolvimento. Um grande exemplo é o senso estético dos abonados. Faça um teste. Peça para ouvir as músicas que seu amigo rico ouve no carro. O trambolho automotivo de duzentos mil reais estronda a mesma milacria com que o noiado do loteamento miserável sacoleja em casa.

E livros? Pergunte quantos ele leu no ano passado. Ganha uma biografia de Justin Bieber quem responder mais de dois ou três – sendo bem generoso na suposição. Segundo o Instituto Pró-Livro, em parceria com o Ibope, apenas 50% da população leu um livro nos últimos três meses – incluídas crianças e adolescentes, cujas tarefas escolares a obrigam a tal prática. Se a pesquisa fosse feita com adultos do Rio Grande do Norte, o lanterninha educacional na Federação, seria um desastre. Entre sorridente e pensativo, fui comer no Sabor Brasil, provavelmente onde jamais a nobre pisaria – “O nome tem que ser americanizado, italianado ou nipônico, meu filho, para soar fino”, diria a inconsequente, como desfecho para o feriado em um triste trópico manipulado com publicidade nacionalista.

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