O rei, o terror e a poesia – Alex Medeiros

O futebol de Pelé foi a mais completa tradução do ludismo como arte feita com o corpo. Quem viu, leu,…

O futebol de Pelé foi a mais completa tradução do ludismo como arte feita com o corpo. Quem viu, leu, pesquisou e memorizou os feitos do rei do futebol, verá uma verdade que não se alterará: o reino da bola tem e terá muitos vices-rei que não herdarão o cetro.

As histórias e casos envolvendo Pelé são incontáveis e impossíveis de caberem nos muitos livros que já publicaram sobre ele. Seu brilho iluminou todos os continentes, onde sua magia se resumiu aos olhares locais num tempo sem comunicação globalizada.

Admirado por chefes de Estado, paparicado por ditadores, reverenciados por monarcas e cultuado por líderes religiosos, Pelé impôs um armistício entre exércitos em guerra, na Nigéria, e provocou a substituição de um juiz que o expulsara de campo, na Colômbia.

Tinha também a capacidade de atrair a admiração das torcidas adversárias, que reconheciam sua majestade. O Maracanã sempre aumentava o borderô quando o Santos ia lá enfrentar o Botafogo, o Flamengo, o Fluminense e o Vasco, ou mesmo o Bangu.

Só não foi uma unanimidade no planeta por causa dos argentinos, que sempre cultuaram os seus respectivos rivais de distintas décadas, Di Stéfano, Sívori e Maradona. E também pelos zagueiros que usavam até artes marciais para tentar evitar seus dribles.

Na Copa de 1962, no Chile, os golpes da zaga mexicana no primeiro jogo fizeram-no abandonar o segundo encontro, com os tchecos, e não voltar mais para o torneio. Quatro anos depois, na Inglaterra, foram os defensores portugueses que lhes tiraram de campo.

Não foi fácil superar o terror das contusões naqueles anos que antecederam sua última copa, em 1970. Não estava em boa forma nas eliminatórias de 1969, quando Tostão salvou a pátria e só não fez chover para o Brasil garantir a classificação ao mundial.

E o terror literal também atentou contra o rei. Durante os jogos de agosto de 1969, em Bogotá e Caracas, grupos extremistas de esquerda ameaçaram seqüestrá-lo, como já havia ocorrido com Di Stéfano em 1963, durante um torneio na capital da Venezuela.

Real Madrid (time de Stéfano), Porto e São Paulo participavam do “Mundialito” quando dois guerrilheiros da “Frente de Libertação Nacional”, vestidos de policiais, entraram no Hotel Potomac e levaram o craque, num seqüestro que durou terríveis 56 horas.

Pelé ficou quatro dias isolados no hotel da seleção em Caracas, cercado por agentes militares do governo venezuelano, depois que uma ameaça de seqüestro foi feita quando o Brasil jogou na Colômbia e goleou a seleção local por 6 x 2, com um gol dele.

Enfrentou também o terror da chantagem, ao ser fotografado dançando com umas garotas, numa festa em Bogotá, e o dono da máquina fotográfica exigiu US$ 25 mil para não entregar cópia ao diário El Tiempo. Na verdade, já havia vendido por US$ 3 mil.

O isolamento no quarto do hotel serviu não apenas para fugir dos guerrilheiros marxistas, mas para compor a canção “Rosemary”, um poema de amor para driblar o ciúme da esposa Rosemeire Cholbi por causa do flagrante com as colombianas.

A jogada musical parece ter contido a marcação conjugal. Ao enviar a canção numa fita para a mulher distante, anexou um bilhetinho esfarrapadamente apaixonado: “ouça essa música. Só assim você ficará sabendo quanta saudade estou sentindo de você”.

A edição da revista O Cruzeiro, de 21 de agosto de 1969, três dias antes da nova goleada do Brasil, 6 x 0, na Venezuela (três de Tostão, dois de Pelé), publicou a resposta: “Foto não tem importância. Não se preocupe. Continuo apaixonada. Rose.”

Evidente que não há como comparar o enamorado instinto poético do rei com a nobre arte do seu futebol. O começo da canção é num padrão perna-de-pau: “Amanheci tão triste / com vontade de chorar / pensando em meu bem / que está a me esperar”.

De qualquer forma, Pelé foi tão fantástico como jogador, que antecipou em quase meio século o estilo musical medíocre que assola o país nas vozes de Luan Santana, Gusttavo Lima, Claudia Leite, Vanessa Camargo, Naldo, Victor & Leo, Anitta, Michel Teló.

“A gente sofre e reclama / a falta de alguém / a vida é assim / é melhor se conformar / existe muita gente / que não tem por quem chorar”, desfechou o rei na velha canção de amor lacrimado. Proto-retrato da cena cultural de hoje. (AM)

Mesmice

Um comercial do PT está circulando na TV com o deputado Fernando Mineiro propondo o fim da “mesmice” na política local. Obviamente, não é votando nas figuras carimbadas do PT que estaremos fazendo mudanças. Estão aí há mais de 30 anos.

Familiares

O jornalista Fernando Rodrigues, da Folha, publicou um quadro com os políticos de âmbito federal com mais parentes na política regional. Se há problema nisso, a culpa é do povo, que vota e concede cargos eletivos. O jogo do voto é ou não democrático?

Caos

Hoje de manhã o trânsito na Zona Sul de Natal deve ter atingido seu pior momento, por causa das alterações de percurso provocadas pelas obras de mobilidade. Será que a prefeitura conseguirá arrumar o estrago antes dos turistas chegarem para os jogos?

Esquemão

A FIFA faz de conta que não viu a reportagem do The New York Times denunciando um esquema de manipulação de jogos na Copa, engendrado por uma máfia de apostas de Cingapura. Derrotas premeditadas poderão gerar lucros de mais de US$ 1 bilhão.

Esquemão II

Poucos dias após o jornal inglês Sunday Times revelar que a escolha do Qatar para sede da Copa em 2022 foi comprada, o NYT mostrou dados sobre manipulação dos amistosos entre seleções, poucos dias antes da Copa 2010, na África do Sul.

Ranking

A uma semana da abertura da Copa 2014, a FIFA atualizou hoje o ranking de seleções, que só deverá sofrer nova alteração em agosto, após os resultados no Brasil. A Espanha segue líder, seguida por Alemanha, Brasil, Portugal, Argentina, Suíça e Uruguai.

Neymar

“Nós não somos do governo!”, disparou o jogador Neymar em resposta às críticas contra a Copa e até contra a seleção, feitas por manifestantes nos locais de treinos e jogos. A matilha militante nas redes sociais já está rosnando como fez com Ronaldo.

Bruxa solta

A seleção da Holanda segue atuando bem e tendo em Robben uma máquina de fazer gols e entortar zagueiros. Ontem, venceu o País de Gales por 2 x 0 mas tomou um grande susto. O craque Van Persie saiu de campo antes do final, sentindo a perna.

Retorno

O Chile venceu a Irlanda do Norte por 2 x 0, mas o momento de maior vibração não foi com os gols e sim quando o sistema de som do estádio Elias Figueroa, em Valparaíso, anunciou a entrada de Arturo Vidal. O craque retorna de contusão muito séria.

Garçom sem gorjeta

Lionel Messi comandou as jogadas de ataque da Argentina como um meia de criação e deixou vários colegas na cara do gol de Trinidad e Tobago. O garçom da seleção alviceleste só não teve a gorjeta do gol, perdendo boas chances na cara do goleiro.

 

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