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O salvador

Data: 07 janeiro 2013 - Hora: 17:59 - Por: Rubens Lemos Filho

O inocente da fotografia merece uma benção papal. É Alex Bolívia, numa expressão ungida de tão mascarada que salvou o fim de semana morno de começo de ano nos campos. Alex Bolívia tem 19 anos e joga no Rondonópolis, que representa a segunda maior cidade de Mato Grosso na Copa São Paulo júnior e empatou com o Flamengo em 0×0, uma senhora façanha.

O paciente leitor primeiro deve querer saber em que estágio andava meu juízo para assistir Flamengo x Rondonópolis, uma premonitória porcaria(nem foi tanto). No mesmo lugar de ortodoxo por futebol e lutando contra uma obtusa bronquite que me ataca desde o primeiro dia de 2013. Tossir é o meu latir.

E Rondonópolis, que não conheço, me é próxima por ser morada de familiares queridos, meus primos Juca, Wagner e Dorian, filhos do saudoso tio Wilson, advogado, poeta e jornalista, irmão de papai, que, cigano e alquimista, também andou por lá nos anos 1980.

O jogo vi deitado e aos pigarros mais chatos que um e-mail com dicas para adotar a yoga (lindo eu vestido de branco meditando). Olhando a partida, aspecto palerma que o calor da noite de sábado impunha.

Primeiro, claro, voltei a me irritar com a profusão de batismos compostos no futebol, jogador pronunciado  com nome e sobrenome, sem apelido, tipo Breno Glaidlson ou Braulino Ramos.

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O futebol vai perdendo a graça sem os reis de morro: Manés, melés, memés, didis, lelés, os frutificantes: Tangerinas, sapotis, maracujás, mangabas, os répteis: Cobra, jacaré, dando vaga aos pernas de pau com  nomes de professores de datilografia.  Ou de  antigos estafetas de repartição pública do tempo dos memorandos e ofícios copiados em papel carbono.

O jogo foi em São José do Rio Preto(SP), terra onde já existiu um América muito forte. Timaço mesmo, nos anos em que eu tinha menos de 10 anos, batia nos quatro grandes de São Paulo com Marinho na ponta-direita.

Marinho aquele que surgiu no Atlético(MG) e brilhou no Bangu(RJ) para fracassar  consumido pela tragédia da morte de um filho afogado na piscina da sua casa.

O campo, bem diferente da época em que Marinho arrancava aos gingados e dava um toque de calcanhar por dentro das pernas do lateral-esquerdo, podia ser Pedrinho, craque do Palmeiras e da seleção brasileira, o bom Vladimir, do Corinthians, Gilberto Sorriso, do Santos, ou o tosco Antenor, do São Paulo.

Aquilo não era campo, parecia açude do Oeste potiguar, só lama e terra batida, horrível. A diferença é que no sertão o povo está morrendo de sede e em São José do Rio Preto, os meninos tinham água para tomar.

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Com campo ruim e tudo, o tal do Alex Bolívia caiu na minha graça. Primeiro pelo nome. Alex Bolívia. Nada de Alexandre Madrigal ou Tande Austregésilo,  exageradamente próprios dos tempos atuais. Alex Bolívia, bem doidão, bem rebolado,  bem pai-véio, alcunha dos antigos boçais da meia-cancha.

Alex Bolívia, canhoto, joga com a 10, sabe driblar curto, tocar para os lados, lançar de três-dedos, fazer firulas(o improdutivo é indispensável no futebol), botar as mãos nas cadeiras enquanto os companheiros se matam correndo atrás dos adversários e reclamar do árbitro.

Alex Bolívia é o astro do Rondonópolis. O Bolívia, é certo, vem da proximidade de Mato Grosso com o país que já foi saco de pancadas da seleção brasileira e hoje engrossa e pelo aspecto indígena do rapaz, que tem cabelos estilosos e espetados curtos.

O Flamengo perdeu a pose. Seu atacante Douglas Baggio, apelido que representa  profanação de gênio italiano, lamentou o ponto perdido na estreia e disse que um “artilheiro igual a ele não vive sem gols”, embora não se saiba, no noticiário universal, quem o tipificou como matador de goleiros.

O Rondonópolis se impôs, sempre com Alex Bolívia tocando a bola em meio à buraqueira, poupando o fôlego para ódio dos colegas, chupando-lhes o sangue como Drácula enrolão.  O Rondonópolis ainda teve um pênalti não marcado.

Quando o Flamengo ensaiava a pressão ao final, no último lance, Alex Bolívia  levou a mão à coxa, gritou, acenou para o juiz, simulou como um Rolando Lero do Pantanal. Deu certo. Um 0×0 maravilhoso para quem rodou 900 quilômetros de ônibus.

Alex Bolívia ressuscitou o migué, a burla peladeira que os narradores, comentaristas e repórteres moderninhos jamais comentam porque nunca enxergam. Eles olham a peleja como se fosse um empolgante jogo de squash.  Alex Bolívia, o herói, o salvador. O malandro.

 

Derrotas
O América tomou 4×1 do Desportivo Brasil, pertencente à Traffic, nome mais apropriado nem em novela, do ex-jornalista e multimilionário J. Hawilla. É uma potência que seduz jovens de todo o país para depois revendê-los ao exterior em contratos nababescos. Hawilla, de repórter, passou a vender placa em estádios e hoje é a celebridade das penumbras do futebol.

Monte Azul
Romarinho foi destaque do ABC que também perdeu de virada para o Monte Azul(SP) e fica em situação difícil.  Terá de derrotar o Vitória(BA) conhecido pela força de sua base. Mas na Copinha o importante nem é competir ou vencer: É vender.

Frase
“A segurança pública aqui não é muito boa, é realidade”. A frase do atacante Wallyson, exibida no Canal Sportv, em tempos de alta estação, é uma pancada na imagem do Estado. Wallyson foi assaltado com a família em casa, no distrito de Mangabeira, em Macaíba. Tomou uma coronhada na cabeça.

Sorte torta
Wallyson, de cabeça suturada, apressou sem querer para amanhã  seu acerto com o São Paulo. O atacante Negueba, contratado ao Flamengo, sofreu contusão no joelho, será operado e ficará três meses sem jogar. Ainda inteiro, Negueba não amarra a chuteira de Wallyson.

Alecrim
A direção do Alecrim informa, em material enviado pela competente assessoria de imprensa de Gabriel Peres, que seus três reforços, “foram três jogadores escolhidos a dedo”. O zagueiro Júnior Carvalho, o meia Danilo Reis e o atacante Ismael Gaúcho.

Pesquisa
Como no velho comercial de TV da terrinha, o Chagas pesquisou, pesquisou, e comprovou: Só a dedo se acha certos reforços. O atacante Ismael Gaúcho, por exemplo, disputou, no ano passado, 11 partidas e marcou 3 gols. Pelo famoso União Frederiquense, da Divisão de Acesso do Rio Grande do Sul. União Frederiquense impressionou o Chagas.

Messi
Pra quê Bola de Ouro?

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