“O sequestro foi a minha pior e a melhor experiência”, diz Patrícia Abravanel

Aos 36 anos, a filha mais famosa de Silvio Santos ganha força no SBT e pontos na audiência

Foto: Divulgação
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Patrícia Abravanel sempre foi conhecida como uma das seis filhas do apresentador e megaempresário Silvio Santos – dono de uma fortuna atual de US$ 900 milhões, segundo levantamento da FORBES . Apesar do sobrenome famoso, ela era uma completa estranha aos olhos do Brasil até uma manhã de agosto de 2001, quando, aos 24 anos, foi arrancada de casa por bandidos vestidos de carteiros e viveu, durante sete dias, um dos sequestros mais comentados do país. Dizem que ela só foi libertada após o pagamento de um resgate de R$ 500.000.

Três anos depois, a herdeira do “dono do Baú” voltou à cena na ocasião de seu casamento com Phillipe Carrasco, de 27 anos, filho dos pastores que fundaram a Igreja Vida Nova, na Grande São Paulo. A união durou sete anos. Recentemente, o nome de Patricia retornou ao noticiário por conta de sua gravidez (de um menino), fruto do relacionamento iniciado há sete meses com o deputador federal Fábio Faria, do Rio Grande do Norte. “Quando eu o conheci, tive muito preconceito, por conta do histórico dele com as mulheres [ele já namorou Sabrina Sato, Adriane Galisteu e Priscila Fantin]. No momento em que me chamou para sair, eu pensei ‘ele não é meu perfil, não sou uma beldade’. E eu não estava saindo de casa. Minha irmã falou para eu sair da toca. Fui forçada, mas nem me arrumava. Acabei descobrindo que ele era um cara legal, bem família. Nessas horas Deus sabe o que faz”, conta.

Embora os três acontecimentos tenham marcado para sempre a vida desta mulher de 36 anos, eles são irrelevantes para definir a força que seu nome ganhou na frente das câmeras e também nos bastidores do SBT. Exatos três anos após estrear como apresentadora na segunda emissora de tevê do país em audiência e participação (4,1 pontos de audiência e 12,5% de participação na média nacional em fevereiro), Patricia revelou-se um mulherão do mundo dos negócios. Talvez pela formação em escola americana, que estimula o empreendedorismo, ela desenvolveu uma típica mentalidade de businesswoman. Atributo que, para quem não a conhece, fica muito bem escondido por trás da delicada silhueta de 50 quilos distribuídos por 1,60 me- tro – na verdade, quase 53 quilos por conta da gestação que já atingiu seu terceiro mês.

Nas cerca de cinco horas em que FORBES Brasil a acompanhou na sede do SBT, na Rodovia Anhanguera, em Osasco (SP), a moça simpática e falante demonstrou uma desenvoltura e um preparo surpreendentes para quem sempre foi colocada à sombra do pai. “Quando eu era criança, achava que ser filha do Silvio Santos era um ônus. Hoje, encaro como um superbônus”, admite, sempre com um sorriso no rosto. Essa, aliás, é uma de suas marcas. Inclusive em momentos dolorosos. “Após o término de três anos de relacionamento com aquele que foi meu primeiro namorado [em outubro de 2012], vim para cá gravar. Eu estava murcha, simplesmente não tinha vontade de nada, mas tinha que gravar, mostrar que estava bem. E em tevê é assim. Você respira fundo, se concentra e vai”, revela.

Por diversas vezes durante a entrevista, a apresentadora que foi educada na Graded – The American School of São Paulo e, posteriormente, estudou na Inglaterra, Suíça e Estados Unidos, usou palavras como rentabilidade, retorno de audiência, papel do acionista, aquisição de uma empresa além dos negócios do grupo da família e geração de resultados. “Não permanecerei na frente das câmeras se não for para dar resultado. Isso aqui é um negócio e estou aqui para gerar retorno”, afirmou com a naturalidade típica de quem não se preocupa com a efemeridade da fama.

Única filha no ar, Patricia evita o título de “sucessora de Silvio Santos”, embora o caminho que esteja trilhando no SBT possa levá-la, futuramente, ao lugar ocupado pelo pai de 83 anos. Recentemente, o apresentador afirmou não ter sonhos. “Sei que posso embarcar a qualquer momento”, disse à Veja SP. Patricia garante que o pai está ótimo de saúde, após ter retirado a próstata e ter descoberto um câncer de pele. Ela e as irmãs o querem à frente do SBT. “Até porque ele é único, não tem como estabelecer comparações.”

Desde 2011, no entanto, ela resolveu cuidar mais de perto do patrimônio da família. “Sou como uma leoa. Estou aqui para cuidar do que é meu, ainda mais depois do que aconteceu no Banco Panamericano”, diz, referindo-se à fraude contábil que levou seu pai a vender a instituição ao BTG de André Esteves. Antes da transação, Silvio Santos chegou a cogitar a venda do SBT para pagar uma dívida de cerca de R$ 4 bilhões.

Ao longo da entrevista, Patricia não se omitiu nem nas perguntas mais capciosas. O SBT está ou não à venda? A resposta veio rápida e certeira: “O SBT não está à venda!”. E continuou: “quando vim para cá, há três anos, foi para trabalhar com o que eu gostava [uma vontade que ela define como enrustida há anos].” Mas não só. “Eu vi o que aconteceu no Panamericano e decidi trabalhar para preservar o negócio da família. Eu ficava no banco, eu conhecia o Rafael [Palladino, ex-presidente do Panamericano, multado no final de 2013 pela Comissão de Valores Mobiliários por uso de informação privilegiada ao negociar ações da instituição]. Ele era o meu mentor. Achei um absurdo o que aconteceu. Fiquei em confronto comigo mesma. Eu ia para as reuniões e achava que alguma coisa estava acontecendo. Só que ninguém viu, nem o Banco Central”, lamenta.

Patricia garante que está no SBT, assim como as irmãs (veja na página X o papel de cada uma na estrutura do grupo), para perpetuar o negócio familiar. Quase todas as herdeiras passaram por um curso preparatório para acionistas na Fundação Dom Cabral. “Não posso chegar aqui e dizer que quero fazer o programa x. Isso não existe. Há uma hierarquia a se seguir.” O SBT é unicamente do pai e, na ausência dele, será herdado pelas seis irmãs e pela mãe, a novelista Iris Abravanel.

Sonha em ser, um dia, presidente do SBT? “As coisas aqui são muito grandes, envolvem muito dinheiro. Eu quero ter executivos preparados para cuidar disso. Quero ser mulher e dedicar meu tempo à família. Percebo que mulheres que ocupam cargos muito altos parecem ser solitárias”, observa.

Embora seja muito comunicativa, Patricia tem preparo suficiente para não se envolver em polêmicas. Sua opinião a respeito da âncora do SBT, a jornalista Rachel Sheherazade, que defendeu no ar a ação dos justiceiros do Rio de Janeiro e virou assunto nacional, é comedida. “Eu não concordo com tudo que ela fala, mas acho que ela é corajosa em falar e tem o direito de se expressar usando a liberdade dela. O que ela fala, no entanto, não é a opinião do SBT”, explica.

Um ponto positivo de Patricia é que ela não foge das perguntas. Pelo contrário, fala até quando não é perguntada. Sobre o sequestro sofrido no passado, no entanto, evitou tocar no assunto. Isso até ser questionada. “O sequestro foi a minha pior e a minha melhor experiência, pois um mundo novo se abriu. Deixei de ser menina para virar mulher. Passei a ter contato com gente diferente de mim e vi uma outra realidade do Brasil, um país de jovens com um futuro brilhante se dando mal por besteira”, observa.

Ela considera educação e empreendedorismo os principais motores do desenvolvimento de um país. Sua fala lembra até a de um candidato. Pensa em política? “Não descarto, mas se entrar será para fazer algo. Tem gente que sai da tevê e se queima na política”, diz. O namorado, que é deputado, pode ajudar nisso. “Interesso-me pelo crescimento do Brasil, me preocupo com o país”, diz em tom franco.

Talvez essa vontade tenha nascido após o sequestro. Essa experiência, continua, fê-la ter consciência da existência de Deus e sentir mais vontade de viver. “Sabe aquela frase que diz que todos os homens morrem, mas nem todos vivem? Após essa experiência, resolvi que queria deixar minha marca, viver de verdade”, conta Patricia, que rebate ao ser chamada de evangélica. Diz não gostar de rótulos e pede apenas para defini-la como cristã.

É a fé que a permite andar sem segurança. A apresentadora tem apenas um motorista “que salva a vida e cuida de tudo, desde conversar com o técnico da tevê a cabo até fazer supermercado”. Ele é seu braço direito, a pessoa que a guia, no SUV blindado, no trajeto de sua casa, em Alphaville (SP), até a Anhanguera. Você nunca vem de helicóptero? “Não tenho essas frescuras”, responde.

Toda manhã ela acorda às 8h, vai para a academia, almoça em casa e segue, quase que diariamente, para a emissora fundada pelo pai. O namorado vive com ela, mas passa uma parte da semana em Brasília. Quando não está lá, vive na casa da irmã Daniela, que é vizinha. Falam sobre tudo, pois são as melhores amigas. Trabalho, como não poderia deixar de ser, é um dos temas das conversas noturnas quando saem para caminhar pelo condomínio.

A participação de Patricia na grade da emissora vem aumentado. Hoje ela encontra-se à frente do programa Máquina da Fama, às segundas à noite, ocupou a vice-liderança pela 12ª semana consecutiva até o fechamento desta edição, com 5,4 pontos de audiência (medição de fevereiro de 2014), perdendo apenas para Tela Quente, da TV Globo. Ela também participa do Patricia Tá na Rua (quadro do Programa Silvio Santos); Jogo dos Pontinhos (quadro do Programa Silvio Santos); participa do Roda a Roda; às vezes substitui o pai no sorteio da Tele Sena; e é garota propaganda da Jequiti Cosméticos. No final do ano, inclusive, ela lança um perfume da marca com seu nome e inspirado nas fragrâncias que mais gosta.

Sua estreia na tevê, no entanto, não veio de mão beijada. Ao comentar com o pai que desejava tentar a vida na frente das câmeras, ouviu um sonoro “faça um teste para merchandising”. “Até que eu me surpreendi porque achei que fiquei simpática. Depois passei a interagir com meu pai no Jogo dos Pontinhos, que é improvisação pura”, conta Patricia. O dia 20 de março de 2011 marca a primeira aparição da filha de Silvio na tevê.

Em 36 meses, muita coisa mudou. Para começar, a postura. Hoje ela se sente mais experiente. Silvio é só elogios. Diz que a filha está simpática e graciosa e liga para ela, antes de os programas irem ao ar. As fitas foram enviadas para ele na Flórida, durante suas férias. O único porém é o palpite constante no figurino. O pai gosta de um estilo mais conservador, sem saltos muito altos. A explicação: a identidade não pode ficar na roupa. Patricia concorda. “Estou feliz com o que faço agora. Não ligo para a crítica. Quero ser um produto rentável para o SBT e não um peso”, garante.

Na emissora do pai admite não ter privilégios. Diz que só obedece ordens. Todos os programas que apresenta vieram prontos, sem direito de escolha. Seu sonho? “Se o público me aceitar, planejo envelhecer na tevê e chegar aos 50, 60 anos, fazendo o que faz a americana Barbara Walters.”

No momento, o que a faz feliz é descobrir, por meio de números, que não sofreu rejeição do público. Patricia tem gravado várias propagandas e comerciais no lugar do pai e conquistado bons números. “Herdei o público do meu pai de forma natural. No Roda a Roda, por exemplo, ele dá 8,5, 9 pontos no ibope, eu dou 7. O comercial da Tele Sena que fiz, no final do ano, marcou o maior número de vendas desde 2001”, conta toda orgulhosa. Seu medo inicial era ser vista como “a filhinha de papai”, imagem que parece ter derrubado.

A mais rebelde das filhas de Silvio Santos, que foi convidada a se retirar do colégio por ser indisciplinada, demonstrou visão ao falar sobre o futuro. Parte se deve à Faculdade de Administração que fez na Virgínia (EUA). “Estudei demais, mas amei. Era uma faculdade cristã em uma cidade pequena onde ninguém podia beber. A dedicação foi total.”

Da teoria, Patricia pulou para a prática. Trabalhou muito tempo na área de novos negócios do Banco Panamericano e também participou do projeto do hotel cinco estrelas Jequitimar, no Guarujá (SP), que inaugurou em 2006 e cujas obras demandaram um investimento de R$ 130 milhões. A jovem recebeu a incumbência de cuidar de toda decoração de interiores a partir de uma verba de R$ 25 milhões. “Até hoje, quando eu encontro o pessoal da Trousseau [grife da cama e banho que assina os lençóis, travesseiros, toalhas e roupões do hotel], eles dizem que sou difícil de negociar. Eu baixei o preço lá embaixo”, diz com um orgulhoso sorriso no rosto.

Em 2007, Silvio Santos criou a empresa de cosméticos Jequiti Cosméticos. Lá estava, mais uma vez, Patricia Abravanel. Questionadora, a jovem atuou como gerente regional de vendas para São Paulo da empresa de vendas diretas. Abaixo dela, 18 gerentes comandavam as consultoras. “Foi lá que percebi que gostava de estar no meio das pessoas e descobri que gostava mesmo de tevê, um desejo enrustido.”

Hoje, embora se encontre à frente das câmeras, Patricia não descuida dos negócios da família. Ela participa das reuniões de conselho e revela, em primeira mão para a FORBES Brasil, que a Jequiti deve dar um passo importante nos próximos meses. É que a família quer e há um projeto na mesa para que a marca tenha fábrica própria. Hoje, ela terceiriza integralmente sua produção. “Estamos estudando todo projeto da fábrica e já temos o planejamento, aonde vai ser, como vai ser. É só uma questão se vamos executar ou não.” E essa definição sai este ano? “Acho que sim.”

Patricia afirma, várias vezes durante a entrevista, que nutre uma paixão pelo empreendedorismo. “Gosto do meio empresarial e quero ter meus negócios além do grupo. Estou conversando com uma empresa de saúde e bem-estar. Pretendo, ainda este semestre, virar sócia-investidora majoritária”, revela com exclusividade à FORBES Brasil.

Esperta, quer aproveitar o espaço que tem na tevê para promover o negócio que pretende controlar. Ela observa outros apresentadores famosos que, em paralelo à tevê, administram negócios, a exemplo do Ratinho e da Eliana. “Se você não usa a televisão para outras coisas, ela, por si só, emburrece. Não quero simplesmente chegar aqui, me arrumar e ir para a frente das câmeras. Gosto de fazer isso, mas não quero só isso. Quero estar antenada no Brasil e na economia.”

Em seguida, quando questionada sobre os cuidados com as finanças pessoais, emenda: “Deixar dinheiro no banco é muito fácil. Eu quero é que esse dinheiro vire negócio e gere empregos”, divaga. Na tevê e fora dela, Patricia admite gostar de competição. “Jogar com quem não compete é um saco, fica morno. Quero jogar para ganhar, pode ser que eu perca, tudo bem, mas quero tentar.”

O pai, pelo visto, tem responsabilidade nesse tipo de mentalidade. Silvio Santos criou as filhas para serem independentes e trabalharem sempre. “Ele nunca deu as coisas de mão beijada. No meu primeiro casamento, não ganhei absolutamente nada. Fui morar no apartamento do meu marido, que não tinha posses, recebendo meu salário que era pouco no Panamericano [R$ 2 mil]. Vivíamos debaixo de um orçamento de R$ 5 mil. Só sei que meu quarto na casa dos meus pais era maior que o apartamento do meu marido. No começo foi uma readaptação, mas hoje vejo que foi bom”, conta Patricia.

Com a irmã Daniela Beyruti, a situação foi pior ainda. “Ela ganhava ainda menos que eu”, ri Patricia, que explica a cultura de não se esbanjar dentro de casa. “A gente tinha regalias por morar na casa dos pais e sempre tivemos a melhor educação. Mas ninguém ganhou carro novo aos 18 anos. A gente herdava um carro velho que estava lá. Meu pai sempre nos ensinou a correr atrás.” As seis filhas cresceram ouvindo a seguinte frase do dono do Baú: “Deve-se viver com aquilo que se ganha.”

Fonte:MSN

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