O trem

Passei a infância, Senhor Redator, na magia que me foi dado viver, esperando um trem. Não era muito, afinal ele…

Passei a infância, Senhor Redator, na magia que me foi dado viver, esperando um trem. Não era muito, afinal ele andava veloz e alegre no chão da casa de outros meninos parecidos comigo. Um trem que tivesse uma locomotiva com sua chaminé no alto, alguns vagões, e que corresse sobre os trilhos. Principalmente que tivesse uma estação e uma ponte, ainda que precisasse fazê-lo passar sobre o brilho falso de um rio de caco de espelho, que um menino não precisa da realidade para inventar seu mundo.

Um trem que fosse verde ou vermelho, não importa, mas verdadeiro. E com uma locomotiva puxando aqueles vagões todos de carga e passageiros, subindo e descendo serras. Um trem que mesmo girando sempre num pequeno círculo, fizesse viagens. Partisse, como os trens de verdade. E fosse por caminhos, e levasse os sonhos do menino de um dia ir conhecer outras terras. Um trem de lata, como se fosse feito de ferro, com a dignidade das coisas eternas, mas sem perder o grande encanto mágico.

Passaram-se os anos. O trem nunca veio para as viagens reais ou irreais no chão da infância. Mas, na tarde de um dia que passou faz muito tempo, entrei na bela Estação Termini, de Roma. Era a primeira viagem, a da descoberta do mundo, que Rejane já conhecia e por isso sabia ensinar os seus caminhos. Chegamos cedo e fiquei ali, num banco, olhando o trem de verdade que dentro de mais uns minutos nos levaria de volta a Paris. Vagões de janelas enfileiradas e guardas de uniforme e quepe.

O embarque foi calmo. Sentamos numa cabine ao lado de uma senhora francesa, simpática para nossa surpresa. Fumava e tomava pequenos goles de café que levava na garrafa térmica, o que faria de vez em quando ao longo da viagem. Fiquei na janela do lado estação. Era um trem noturno, mas aquele início de noite, na Itália, era tão claro que caía nos olhos como uma tarde. De repente, o trinado forte do sino nas mãos do guarda e o grito anunciando numa pronúncia bem francesa: ‘A Parrí!’ ‘A Parrí!’.

Era minha primeira viagem de trem e voltava a Paris depois de alguns dias em Lisboa, aonde chegamos de avião. O trem começou a andar. No atrito veloz dos vagões sobre os trilhos parecia soltar notas musicais. Foi como se acordasse uma velha canção adormecida, agora a encher os ouvidos. Era o meu trem, aquele da infância que nunca chegou. E, quando chegasse a Paris, ainda ganharia mais um dia de presente um último dia em Paris. De lá, e tão tristemente feliz, o vôo da Air France para Recife.

Naquela hora, Senhor Redator, enquanto o trem corria e cantava vencendo a noite nos campos frios da Itália, todas as lembranças flutuaram no mar da alma, primevo e talássico. O menino, sem trair a felicidade do adulto, de repente fugiu e num vôo mágico foi visitar o sótão do seu pequeno sobrado azul para guardar o trem no tesouro perdido da infância, ao lado do velocípede que ficou dormindo. Um trem cheio de saudade que chegava, depois de anos e anos, carregado de um tempo imenso de vida…

 

MISSA
O arcebispo Dom Jaime Vieira Rocha será o celebrante hoje, às 19h, da Missa de Natal no anfiteatro do Campus. E também da missa de ano novo, no dia 31 de dezembro. É uma tradição da Universidade.

CINISMO
O senador Renan Calheiros usa um jatinho da FAB para ir a Recife fazer implante de cabelo quando o Brasil está careca de saber que ele é um reincidente garantido pelo cinismo da sua própria impunidade.

ATENÇÃO – I
Enólogos desta aldeia de Poty: como os senhores sabem, todos os anos a revista Wine Spectator publica os cem melhores vinhos do ano. Em 2013 apenas um rosé entrou na relação top: Rose Miraval.

O… – II
Que muitos não sabem é o bom Rose Miraval, safra 2012, é produzido pela família Perrin, proprietária do Chatô Beaucastel, a casa de verão de Brad Pit e Angelina Jolie que fica na bela região da Provence.

DETALHE – III
Como os enólogos da família Pit são bem menos vaidosos do que os enólogos natalenses, a caixa com seis garrafas sai do Chatô de Beaucastel por 105 euros. O estoque, é claro, acabou em algumas horas.

AZUIS
Para Cleto Barreto, onde estiver entre goles de velhos conhaques: da fumaça dos bons puros as volutas azuis incensam a vida e sabem afastar o demônio da tristeza que às vezes pulam os muros da alma.

VOTOS
O cronista agradece a todos pelos votos de um Natal feliz e deseja, a cada um, uma noite de paz com a mesma felicidade daqueles anos. De quando a mesa reunia a todos na alegre e doce comunhão cristã.

 

PERGUNTA – I
Como é que o prefeito Carlos Eduardo Alves recebe a dívida de R$ 400 milhões, proporcionalmente mais que os R$ 800 milhões da governadora Rosalba Ciarlini, paga o 13º e ainda antecipa dezembro?

DAS – II
Duas uma: ou governo vive desde o início uma crise absoluta vítima de uma má gestão sem limites, ou é pior: esconde a grana como desconfia o MP só para realizar as várias obras que imagina eleitoreiras.

TANTO – III
É verdade que apesar de toda crise política – ameaça de perda de mandato e inelegibilidade – mantem a licitação no valor de R$ 25 milhões para marketing do governo que acha ainda não ser bem conhecido.

EFEITO – IV
Ninguém pode ser contra que o governo use verba oficial e preste conta do que realizou, desde que não faça da publicidade o culto à personalidade. Esse tempo e esse método passaram. Hoje são repudiados.

ALIÁS – V
Foi nesse sentido que a lei do deputado Kelps Lima acabou bem recebida pelos diversos segmentos da sociedade e aprovada pela Assembléia Legislativa. Governar não é mais ser um artista do populismo.

VINHO
Aníbal Barbalho! Ô Anibal Barbalho! Onde anda você? Quando vem espantar a mesmice dessas tardes de verão para o vinho calmo e a conversa mansa, dessas que chamam a noite sem medo e sem pressa?

AZUIS
Para Cleto Barreto, onde estiver entre goles de velhos conhaques: da fumaça dos bons puros as volutas azuis incensam a vida e afastam o demônio da tristeza que em certos dias tenta pular os muros da alma.

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