O Triângulo das Bermudas – José Narcelio Marques Sousa, engenheiro civil (narcelio@supercabo.com.br)
Sem irmãos, Laíra, filha de pais ricos teve uma infância repleta de mimos. Levou para a vida adulta as distorções de caráter decorrentes do excesso de regalos e as aliou a radicalismo insuportável, principalmente, quando discorria sobre ocorrências sobrenaturais. Era leitora voraz de assuntos que tratassem de fatos considerados além da imaginação. De ufologia a mediunidade, de alienígenas a parapsicologia, de abduções a fenômenos sensoriais. Sobre tais assuntos se inteirava a fundo com o objetivo de discutir causas e efeitos defendendo, apaixonadamente, suas próprias conclusões. Se fosse hoje, certamente pertenceria a Cientologia, a seita de astros de Hollywood como Tom Cruise e John Travolta, cujo fundamento basilar gira em torno da crença de que todas as pessoas são seres imortais.
Não foi à toa que ao casar, Laíra optou por desfrutar sua lua de mel em cruzeiro pelo chamado Triângulo das Bermudas. Nesse espaço do Oceano Atlântico delimitado entre as Ilhas Bermudas, Porto Rico e Fort Lauderdale, na Flórida, passando pelas Bahamas, ocorrem desaparecimentos de embarcações e aviões sem explicações plausíveis, desde o século XIX. Laíra embarcou com o marido em Fort Lauderdale, fez turismo por dois dias em Nassau, nas Bahamas, e enveredou em direção à razão de sua viagem. Qual? Atravessar 1.464 quilômetros do Atlântico até alcançar Hamilton, capital do arquipélago das Bermudas, percorrendo o foco das ocorrências tidas como acima do entendimento humano.
A recém-casada se revelou pessoa cativante e logo dominou a atenção de passageiros e tripulantes. Compartilhou com espectadores abismados seus conhecimentos sobre as mais remotas tragédias registradas no triângulo fatídico. Relatou como encontraram embarcações intatas sem nenhum passageiro a bordo e descreveu o sumiço de aeronaves ao sobrevoarem a área do Triângulo. Sem perceber criou certo clima de apreensão entre integrantes do cruzeiro.
No jantar de confraternização da viagem foi convidada para compor a mesa do comandante. Compareceu trajando bermudas como complemento do figurino escolhido para a noitada. Para justificar a escolha, explicou ser vestimenta unissex típica das ilhas Bermudas, de onde recebeu o nome que a popularizou. Naquela noite desabou sobre a embarcação tempestade de proporções avantajadas. O navio balançava bastante, e para espantar o pavor instalado no ambiente o consumo de bebidas ultrapassou o limite do razoável. Laíra casara com um abstêmio, mas nunca prometera ao amado se tornar um deles. Tomou todas e mais algumas. A certa altura, ante o pavor geral, Laíra desapareceu de cena. A tempestade se prolongou até às primeiras horas do dia seguinte, com a nubente ainda desaparecida. O marido mobilizou toda a tripulação em busca da esposa. Por volta das 9h da manhã encontraram Laíra dormindo no tombadilho do navio e, para espanto do esposo, trajando a farda do comandante. Já desperta e sem justificativa plausível para a vestimenta, alegou ter sido abduzida por alienígenas surgidos das profundezas do oceano. O marido crente e amoroso levou-a para a cabine a fim de superar o trauma.
Ela estava adormecendo quando a campainha tocou. O companheiro fiel acorreu à porta e recebeu do camareiro um pacote com peça de roupa e nele anexado um bilhete de apelo: “Precisamos desfazer a troca, pois logo mais chegaremos ao nosso destino e estou sem a minha farda. Hás de convir não ser recomendável para um comandante atracar o seu navio vestindo bermudas!”. Esclarecido o fenômeno, Laíra retornou da lua de mel descasada, mas fiel à sua crença.


