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O Velho e o Mar

Data: 19 março 2013 - Hora: 15:13 - Por: Conrado Carlos

Em seu quarto livro, Daniel Galera pode dizer que, finalmente, aprendeu a jogar bola e virou titular. “Barba Ensopada de Sangue” tem lances de efeito e gols que garantem a vitória folgada. Apesar de quase ceder o empate nos minutos finais, com o cansaço da parte final (são 420 páginas!), o primeiro tempo arrasador e a boa metade do segundo garantem os três pontos. Aos 33 anos, o paulista romanceou as duas temporadas em que viveu em Garopaba, praia do litoral catarinense outrora habitat de hippies, surfistas e gaúchos, e agora um destino que depende da alta estação para funcionar.

A história parte de uma conversa que Galera teve com seu pai. O progenitor falava de um crime indecifrável cometido no balneário barriga-verde durante um baile dominical, nos anos 1960. Com a pista de dança cheia, as luzes se apagaram, para, em seguida, acenderem com a revelação do corpo de um homem estirado no chão. Ninguém se espanta, grita, lamenta ou ajuda na remoção do cadáver. O sujeito era odiado e teve o fim que mereceu, diziam. Isso foi adaptado para o romance como motivo maior para um personagem trocar Porto Alegre pelo litoral em busca de respostas (não só para o assassinato).

Desde “Até o dia em que o cão morreu” (2003), Galera vinha ensaiando jogadas e treinando a técnica com empenho, o que lhe valeu elogios e a escalação no time da revista inglesa Granta como um dos 20 escritores brasileiros que merecem nossa atenção. Agora, em “Barba Ensopada de Sangue”, um professor de natação com seus trinta e poucos anos, que viu a namorada trocá-lo pelo irmão mais velho, com quem deixou de falar, e o pai cometer suicídio após avisá-lo, chegou em Garopaba com o plano de também descobrir os meandros da morte do avô, esfaqueado enquanto dançava com uma qualquer.

A narrativa ganha o complemento de uma cachorra, chamada Beta, deixada pelo pai antes de estourar os miolos. O inominado personagem principal fará de tudo para cuidar do animal, como um esforço para manter a honra e a memória do falecido. Não sem antes se envolver com mulheres e fazer amizades com outros esquisitos. Tudo isso com uma prosopagnosia (rápido esquecimento das feições alheias) constrangedora. Cenas e diálogos sutis constroem, aos poucos, um conjunto de impressões que demoram dias para sair de nossa cabeça, sempre atenta ao porvir.

À medida que as pessoas recusam falar sobre o crime do passado, o presente ganha contornos angustiantes (o atropelamento de Beta, a visita inesperada da mãe, o caso com a mulata Jasmim, a desconfiança de todos). Até que o forasteiro viaja a Pato Branco/PR para entrevistar o delegado responsável pelo estranho caso do retalho do velho com fama de valente e violento. Daí surge o contato com uma ex-namorada do avô Gaudério que ficou em casa na noite do crime. A trama ganha novos contornos e prende o leitor curioso, feito uma boa defesa cercando um atacante solitário.

A literatura brasileira tem uma safra de jovens escritores que justificam um olhar especial. Daniel Galera, talvez, seja o principal deles. Carismático, bem articulado e dedicado à profissão que abraçou, ele mostra em “Barba Ensopada de Sangue” que o talento com as palavras tem sido talhado com esmero (do bom e depressivo “Até o dia em que o cão…” até este lançamento, a facilidade em criar situações e personagens obedece um rigor escasso no painel das letras nacionais). Se o ‘vô Gaudério’ foi enterrado por populares ou levantou, para espanto geral, com dezenas de perfurações e entrou no mar, ninguém diz. Só nos minutos finais a partida será decidida. Não sem antes animar a torcida com viradas de placar, bolas na trave e expulsões determinantes no resultado.

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