Olheiros

Aproveite  as sobras do veraneio e assista ou reveja Curvas da Vida. É Clint Eastwood em HD cristalino. É o…

Aproveite  as sobras do veraneio e assista ou reveja Curvas da Vida. É Clint Eastwood em HD cristalino. É o ator  campeão, empatado  sem vírgulas  com Al Pacino e Robert de Niro. Clint Eastwood é meu fiel companheiro. Do menino ao velho de 43 anos impaciente, ele sempre esteve por perto.

Brilhante e misterioso,  nos faroestes em que chegava sombrio, cuspindo e matando como o Estranho Sem Nome e o bom da trilogia de Sérgio Leone, empoeirado  espaguete na  sequência: Por um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito, fabulosos na ação e pela trilha sonora magistral de Ennio Morricone.

Furioso no detetive sem regras Harry Calhahan, o Sujo, de uma série de cinco sanguinolentos filmes em que voam tripas, ossos, pedaços de crânio e braços de malfeitores mafiosos, irrecuperáveis e satânicos.

O semblante gelado de Clint Eastwood  brucutu paralisa seus inimigos. “Vamos, alegre meu dia!”, ele ruge antes de abrir fogo com seu revólver Magnum calibre 44 ou o reserva, o não menos destruidor 3.57. Limpa a área e devora um sanduíche, exagerando no ketchup e na mostarda. O Cara.

Pela terceira vez, assisti, fim de noite, madrugada chegando,  Curvas da Vida, que conta a história de um caçador de talentos do beisebol. É um filme, na verdade,  sobre relacionamento humano. De um pai viúvo com a filha que deixou aos cuidados de um irmão e se reaproxima com seu temperamento arredio  ao constatar que está ficando cego.

O personagem é lenda no esporte pela descoberta de vários ídolos ,pela sensibilidade, pela intuição nata dos semeadores, dos ourives de joias brutas. Velho e turrão como nunca, vai sendo aos pouco, substituído pelos executivos, dotados de notebooks que qualificam os jogadores baseados em estatísticas.

Clint Eastwood é ele, espelhado,  interpreta a si mesmo. Turrão, teimoso, grosseiro e genial. Representa o último dos grandes olheiros americanos, destacado para avalizar ou não a contratação de uma jovem e arrogante promessa de campeonato amador. Um rebatedor considerado pelos novos entendidos, fenômeno.

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Com a filha, advogada brilhante e geniosa, brigada com os chefes do escritório, o veterano e sábio contraria todas as opiniões sob a desconfiança dos patrões que planejam demiti-lo ao fim dos três meses restantes de contrato.

Há um alpinista social, especialmente mau caráter, de olho no cargo de Clint Eastwood que consegue fazer o dono do clube trazer o reforço mesmo com a opinião firme do velho olheiro: “Ele não tem swing, não sabe rebater bolas de curva. E eu não preciso ver. Eu sinto, eu ouço o som da bola.”

Graças à filha, grande conhecedora de beisebol, herdeira natural, que encontra um jovem vendedor de amendoim de talento fenomenal nos arremessos, a verdade de Clint Eastwood prevalece. É feito um teste e o  metido a astro é humilhado pelo simplório e demolidor Rigo Sanchez, que faz com as mãos hábeis o que os pés de lançadores como Didi e Gerson eram contumazes no futebol do Brasil.

Posso ter contado o filme. Sem problema. Assista assim mesmo. Nada é igual a ver a história na perspectiva de cada um. É linda, comovente e resgata uma figura que o brasileiro esqueceu nos seus gramados de chuteiras: o olheiro, prestigiado nos anos de craques  sobrando.

Olheiro foi Waldemar de Brito, que descobriu Pelé jogando. Olheiro era Araty, do Botafogo, que viu Mané Garrincha pela primeira vez antes dos cartolas. Olheiro era o jornalista Celso Garcia, torcedor apaixonado pelo  Flamengo, que enxergou  um geniozinho chamado Zico no subúrbio do Rio de Janeiro.

Olheiro foram  os virtuosos que vislumbravam  pela lente da percepção, o que nenhum computador moderno é capaz, por mais que existam as maravilhas, programas e novidades  criadas pelos fantásticos Steves Jobs imitados cada segundo. Laptop nunca chutou uma bola, nunca arrepiou ao ver um precoce demonstrando o óbvio da qualidade superior.

Os clubes aposentaram os olheiros,  simples senhores, geralmente craques aposentados ou torcedores fanáticos que chegavam aos campinhos, às quadras, sem ganhar nada ou apenas o dinheirinho da cerveja nas manhãs de domingo e levavam alguém que, pelos anos seguintes, dominaria as emoções das arquibancadas.

Hoje não há olheiro. Sobra empresário. Gente que infesta os clubes de pernas-de-pau querendo apenas fazer de uma arte, negócio de esperteza. Clint Eastwood chutaria todos eles, sacando o trabuco de Harry, o Sujo, e o futebol brasileiro voltaria a ser o que um dia foi: algo de cinema.  Nem que fosse na ficção.

 

América sobrando
O América sobra na Copa do Nordeste. Outro 3×0. Sem o ímpeto do primeiro jogo, mas com  silenciosa eficiência. Timbre do técnico Leandro Sena.

Atração desagradável
De repente, a insossa Copa RN ganhou  atrativo: a crise no ABC, pela primeira vez na vida ameaçado de rebaixamento para a segunda divisão estadual.  O alvinegro precisa vencer o Alecrim se quiser o afastar o fantasma histórico. Nem o mais radical americano um dia pensou num quadro assim, que não é bom para ninguém.

Time e alerta
O time atual do ABC é o pior dos péssimos  e – pessoalmente, já vi muitos, inúmeros terríveis quando menino, adolescente e adulto. Já assisti muita baranga de camisa alvinegra, mas nenhuma igual à cópia de perna-de-pau reproduzida por 11 mais reservas  de agora.

Alerta
O ABC não precisa de picuinhas porque sua desgraça  afetaria  a todos. Daí a urgência em se exigir  a vitória em campo, torcer, se agarrar com os santos e orixás de que crença for a de cada um. A diretoria tem que entrar em campo e cobrar.

Garcia
O zagueiro que tirou o ótimo atacante colombiano Falcão Garcia da Copa do Mundo com um carrinho delinquente, deveria ficar sem jogar – nem receber salários -, pelo tempo em que o craque estiver inativo. Só vai quando mexe no bolso. Futebol e dignidade estão divorciados.

Sorrisinho
Inoportuno  o risinho de Neymar nas redes sociais  momentos antes da renúncia do presidente do Barcelona, Sandro Rosell, acossado por denúncias de irregularidades na compra do atacante brasileiro. Neymar não devenem tem razão para achar graça. Ele precisa é estar preparado para enfrentar guerras dentro e fora do campo no ano da Copa do Mundo.

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