Onde os covardes têm vez
Nem sou palmeirense, mas fumacei de raiva com o gol perdido pelo atacante Kleber contra o Tigres da Argentina pela Libertadores. Kleber poderia ter chutado aos 47 minutos do segundo tempo e o Palmeiras venceria de 1×0. Poderia ter tocado a bola para o companheiro bem colocado e o Palmeiras venceria por 1×0. Kleber pensou que não fosse Kleber.
Kleber sonhou com as marias-chuteiras do dia seguinte, as manchetes garrafais, os repetecos nos programas esportivos da televisão, os elogios monumentais nos blogues e redes sociais. Kleber, sozinho com a consagração, quis driblar o zagueiro num corte que somente a segurança gélida de um Romário permitiria.
Kleber perdeu a bola e, no lance seguinte, o Tigre fez o gol argentino e o jogo acabou. Fumacei de raiva. Mais pela petulância do atacante limitado querendo ser o gênio inalcançável. Incrível a presunção de Kleber.
Fumacei de raiva e mudei de canal. Não desejei a morte de Kleber nem pensei em trucidá-lo de pancadas. Fui ver um capítulo a mais da Série Criminal Minds(Mentes Criminosas), em sua quarta temporada e já sem o chato e brilhante líder da equipe de invstigadores Jason Gideon, substituído pelo não menos topetudo, porém campeão de pragmatismo, agente David Rossi.
O torcedor do Palmeiras, especialmente o da Velha Guarda, da primeira Academia, com Servílio, Tupanzinho, Chinesinho e Julinho Botelho deve ter tomado caixas de Neosaldina para afugentar a dor de cabeça. O palmeirense cinquentão dos tempos de Ademir da Guia, Dudu, Leivinha, Luís Pereira, César e Nei, certamente tomou porres sem Engov para rebater e amanheceu com a ressaca moral e gigante como o futebol do seu tempo.
Todos os seres humanos normais foram dormir após o jogo. Qualquer derrota abate, revolta, aflige e deprime. Fracasso não pode é continuar servindo de pretexto para a fúria dos hooligans brasileiros impunes.
A torcida Mancha Verde, uma das mais violentas do país, atacou os jogadores no aeroporto (Aeroparque) de Buenos Aires e repetiu sua saga de covardia e sangue. Peitou boleiros, comissão técnica e atingiu o goleiro Fernando Prass com um golpe de xícara na testa.
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O sujeito arremessar uma xícara, objeto dos mais pacatos, simpáticos e inofensivos da cozinha mundial no rosto de outro deve ser preso em flagrante, indiciado, julgado e condenado por agressão. Nada de internamento em manicômio. É em cadeia mesmo, em cela pútrida e lotada, para testar em valentão sozinho a coragem despejada em bando.
O futebol vai pagar(ainda) mais caro pela proliferação fascista nas arquibancadas. Quando um jogador ou árbitro cair morto por um tiro disparado pelos marginais que sujam as camisas de clubes históricos, o Governo Federal editará um decreto proibindo a existência das “organizadas” no país.
A cartolagem omissa é também cúmplice. Um dia após a agressão ao goleiro Fernando Prass, um profissional, é anunciada a permissão de para a entrada da torcida do Corinthians em seus jogos em casa pela Libertadores após a morte do torcedor boliviano de 14 anos de idade atingido por um sinalizador.
Crime premiado? Não. A maioria de corintianos é formada por gente humilde e decente. Imagine, porém, o que aprontarão os vândalos em seu próprio território. A imprensa é outra conivente. Quando a polícia age com rigor e desce o porrete em vagabundos fantasiados de apaixonados, reclama-se da violência contra “a torcida”.
Porrada se combate com porrada quando o caso é para gente incorrigível e ousada. Se é guerra, que a lei prevaleça e use suas armas para defender os homens de bem e preserve uma manifestação cultural que já foi orgulho de irmandade e explosão de alegria pelos Maracanãs, Morumbis e no nosso Machadão sepultado.
Nunca se precisou de “organizada” com integrantes fichados na Justiça Criminal para se amar um clube. Torcida organizada juntava papel picado, comprava foguetão, fazia passeata pagando a própria gasolina, desfraldava bandeira e cantava o hino oficial do clube.
Hoje, delinquentes assombram pais de família, se drogam, se matam e afastam a poesia coreografada dos estádios. Intimidam cartolas frouxos e recebem ingresso como se fossem pagos para tumultuar.
Na guerra civil das drogas infestando o país , lembrar é preciso, tudo começou com o primeiro cigarro de maconha vendido. Depois, surgiram os comandos do pó da cocaína e do lixo do crack na cadeia. Até as madrugadas caóticas do vandalismo se sobrepondo ao Estado a partir de São Paulo e serpenteando o Brasil.
Hoje, é na mira do fuzil que se destroem vidas perdidas, de policiais a trabalho e de inocentes indefesos. No cenário sombrio do futebol, os covardes têm vez. Colecionando cadáveres como num filme macabro e real.
Injusta
A demissão do técnico do Alecrim, Pedrinho Albuquerque. Uma atitude arrogante no clube nascido da simpatia e da humildade dos seus fundadores e fiéis seguidores. Do bairro mais popular de Natal.
Fantasia
O Alecrim parece viver uma triste ilha da fantasia de esbanjamento. Muito dinheiro, ostentação e nenhum sentimento, sua marca histórica. Só falta o Alecrim usar legenda de filme em seus jogos.
Normando
E por falar em Alecrim, já está em casa o professor Normando Bezerra, fundador da FERA, a mais pacífica e solidária torcida organizada do mundo. Normando assustou os amigos. Teve problemas cardíacos. A ele dei uma dica: “A vida não dispõe de regra 3″.
Arbitragem
O futebol foi caótico, mas ABC quanto Santa Cruz se irmanaram nas reclamações contra a arbitragem. O ABC se queixa de vários erros e o Santa Cruz cobra a marcação de um pênalti que considera claro.
Paulo Araújo
Estive no lançamento do livro do jornalista Paulo Araújo, talento seridoense e universal. Paulinho construiu uma maravilha com seu texto diferenciado. O prefácio do mestre Vicente Serejo dá o brilho do craque refinado ao trabalho de quem faz do jornalismo, arte de saber escrever.
Estilos
Givanildo e Roberto Fernandes, técnicos de ABC e América, podem ser diferentes na forma, mas são semelhantes no estilo. São francos. E é um jeito de ser que incomoda.
Entrelinhas
Roberto Fernandes reassume o América sabendo que a mediocridade minoritária, mas de microfone disponível em Natal não perdoa o sucesso de ninguém. E Givanildo, pelo tempo de estrada, já deve enxergar a conspiração sutil contra ele.


