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Origem das Campanhas da Fraternidade – João Medeiros Filho, padre e escritor (jucurutu@ig.com.br)

Data: 07 fevereiro 2013 - Hora: 17:52 - Por: Portal JH

A primeira encíclica do Papa Bento XVI, promulgada em 25 de dezembro de 2005, tem como título as palavras do apóstolo João: “Deus caritas est” (1Jo 4, 16). Deus é caridade, amor. E este deve prevalecer sobre qualquer outra lei e todas as regras e preceitos. A Igreja deve mostrar sempre a face terna e misericordiosa de Cristo.
Ao fundar cidades, Anchieta criou as Santas Casas de Misericórdia, primeiro esboço de previdência social e assistência à saúde. Padre Ibiapina, tocado pelo ideal do Evangelho, erigiu as Casas de Caridade, inclusive no Rio Grande do Norte, cujo objetivo era manifestar o rosto paterno de Deus. As associações vicentinas, inspiradas no exemplo de Frederico Ozanam, deixaram marcas de solicitude e fraternidade junto aos esquecidos da sociedade.
A Conferência dos Bispos Alemães lança este ano a 55ª edição de sua Coleta da Fraternidade e da Solidariedade, através da Aktion Misereor, sediada em Aachen, tendo como tema a expressiva frase: “Estamos fartos da fome”. O Cardeal Joseph Frings, em 1958, numa exegese memorável das palavras contidas no evangelho de Marcos (8, 2): “Misereor super turbam” (“Tenho compaixão dessa multidão”), lançou o desafio da ajuda da Igreja alemã aos irmãos de outras igrejas.
Em 1961, o Cardeal Joseph Van Roey, arcebispo de Malines-Bruxelas, diante do sofrimento dos cristãos africanos, sobretudo do Congo, Ruanda e Burundi, instituiu a Broederlijk Delen, isto é, coleta da fraternidade, cujo primeiro diretor foi Monsenhor Alberto Cauwe, que visitou São Paulo do Potengi, em meados de 1957. Este convenceu seu colega de turma Cônego Eugênio Collard a conhecer Monsenhor Expedito. Padre Collard posteriormente colocou-se a serviço da arquidiocese de Natal, permanecendo aqui, nos anos de 1963 e 1964. A Broederlijk Delen completa este ano 52 anos de atividades, tendo como lema: “Dê uma chance a quem tem fome”.
Também, em 1961, a Conferência dos Bispos Católicos Holandeses, presidida pelo Cardeal Bernard Jan Alfrink, cria a Fundação Episcopal Vastenactie com sua campanha quaresmal, tendo como objetivo promover os irmãos de outras igrejas. Neste ano, a Vastenactie vive o lema: “Reconhecer Jesus no próximo”.
Aqui, no Brasil, o Rio Grande do Norte foi o berço da Campanha da Fraternidade, realizada pela Igreja Católica, inclusive tornando-se, algumas vezes, ecumênica, demonstrando que o amor do Evangelho e a caridade cristã não têm fronteiras. Deus não é patrimônio desta ou daquela religião, e sim dos seus filhos!
A Igreja potiguar, diante das carências, do abandono e sofrimento do povo, também por meio da Campanha da Fraternidade, revela o amor divino e humano de Jesus. É este acontecimento que a Arquidiocese de Natal, com muita inspiração e justiça, irá comemorar nos próximos dias 14 e 15. Para Natal e Nísia Floresta acorrerão autoridades eclesiásticas: o Núncio Apostólico, Dom Giovanni D´Aniello, o Presidente da CNBB, Cardeal Raymundo Damasceno Assis e o Secretário Geral Dom Leonardo Ulrich Steiner, além dos bispos do Regional Nordeste II. A Igreja deve sempre enfatizar o postulado do amor: “Nisto conhecereis que sois os meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. (Jo 13, 35).
Aplaudimos o gesto do episcopado brasileiro, comemorando os 50 anos de Campanha da Fraternidade, nascida no Rio Grande do Norte. “É justo e salutar”, como proclamamos na Eucaristia. O que será comemorado em Timbó, Nísia Floresta, significa a confirmação de um gesto, que brotou primeiramente do coração do grande pastor e homem de Deus: Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, ex-pároco de São Paulo do Potengi. Vale lembrar suas palavras, quando era parabenizado por ser precursor de tantas ações e um dos grandes responsáveis pelo “aggiornamiento” da Igreja de Natal: “Não somos autores de nada. Só Deus é autor. Não passamos de meros instrumentos!”.
Eis um resumo da história. Em 1958, o Rio Grande do Norte vivia uma de suas piores secas. Monsenhor Expedito era assistente espiritual da Juventude Agrária Católica – JAC da arquidiocese natalense. Foi convocada uma reunião dos assistentes da JAC, no Estado. Esta aconteceu em Assu, no Instituto Padre Ibiapina, dirigido à época pelo Padre Hélio Alves. Participaram da mesma os seguintes sacerdotes: Expedito Sobral, José Luiz da Silva, da arquidiocese de Natal; Ônio Caldas de Amorim e Ernesto da Silva Espínola, da diocese de Caicó; Américo Simonetti e Raimundo Caramuru Barros, pertencentes à Diocese de Mossoró. Arlindo Sandri, presidente nacional da JAC, participou da reunião. Posteriormente foi escolhido dirigente do Movimento Internacional da Juventude Agrária Rural Católica, sediado na Diensvest, em Louvain, Bélgica. Em 1969, Padre Caramuru fora nomeado assistente eclesiástico daquele órgão.
Os leigos, militantes da JAC, questionavam o silêncio da Igreja e o que poderia ser feito em prol das vítimas da seca de 1958. Monsenhor Expedito, no dia 11 de fevereiro de 1958, tomou a palavra e sugeriu que cada militante da JAC doasse o equivalente a um dia de seu salário para os flagelados da seca. Todos acataram a ideia e Monsenhor Expedito realizou, em São Paulo do Potengi, na Semana Santa de 1958 a Primeira Coleta da Fraternidade. Assim aconteceu até 1962, quando Dom Eugênio de Araújo Sales, então administrador apostólico de Natal, com a ajuda de seu irmão, Dom Heitor Sales, (que visitou a Misereor, na Alemanha) sistematizou a Campanha, em nível arquidiocesano, que, em seguida foi assumida pela CNBB, tornando-se um marco de solidariedade e caridade da Igreja do Brasil.
Portanto, Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, o Profeta das Águas é o pioneiro da Campanha da Fraternidade, no Brasil. E por tudo isto, Deus seja louvado!

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