Os normais

Olhe Senhor Redator, se há uma coisa sem graça nesse mundo de Deus, são as pessoas muito normais. Não diria…

Olhe Senhor Redator, se há uma coisa sem graça nesse mundo de Deus, são as pessoas muito normais. Não diria que são insuportáveis para não parecer blasfemo e herege, mas desconfio que eles não servem nem como maridos. Como amantes, então, nem pensar. Há neles qualquer coisa de muito monótono porque em geral são homens sem sensualidade. E as neuroses, sejamos sinceros, completam a condição humana com aquela parte indispensável, ali onde ardem os grandes mistérios do desejo.

Não critico o homem provedor, preocupado em manter a dispensa. Não é uma tarefa gloriosa, convenhamos. Mas pior seria não poder abastecê-la. Refiro-me ao homem absolutamente reto, daquela retidão inabalável. O homem-pérola imagina que sendo perfeito é insubstituível e que a sua alma estará sempre resguardada de todos os perigos do amor. Pobre engano. Julgam-se livres da prática do pecado e nem notam que é deles o velho perigo de serem passados pra trás nos jogos dissimulados da sedução.

Lembro um ensaio sobre o amor de Luiz Lobo na revista Status, naquela fase dos anos setenta. Na abertura, em página dupla, uma mulher belíssima dormindo entre lençóis de cetim ilustrando um título genial, posto assim: ‘Não acorde sua mulher. Ela pode estar sonhando com o homem que sempre desejou’. Ora, a leveza do grande redator que é Luiz Lobo, além de um velho fauno de olhos muito afoitos, sugeria o mais terrível dos medos masculinos – que suas mulheres sonhem com outros homens.

Não significa dizer que os sonhos, de tão íntimos, precisem ser confessados no desejo absoluto da sinceridade. Acho até que o amor pede moderação nessas afoitezas muito naturais e quando escravo do enlevo. Depois, Senhor Redator, na arte de amar, aquela de Ovídio, a lisonja também é um inimigo de muita artimanha. O elogio, às vezes, é uma máscara. E o desejo, mesmo que nunca passe dos olhos nos seus jogos ardentes, ainda assim vale à pena jogar o jogo de não jogar da grande arte da sedução.

Há um velho saber de Espanha, Senhor Redator, que avisa há séculos, nas ruas e nas palavras das suas velhíssimas novelas, que ainda sobrevivem na península Ibérica: ‘Dinheiro e amor, Diabo e loucura, mal se dissimulam’. Não seria hoje, em nome da vida moderna, que a carne, tão fraca, será diferente. Naqueles tempos, diziam os céticos, acreditando que os venenos de Deus são os remédios do Diabo, que o demônio não prolongava a vida, mas algumas vezes sabia fazê-la mais viva e ardente.

É verdade, o diabo não dissimula. Um dia entrou na sala da direção comercial do Diário de Natal um anão, gerente de um circo mexicano que estava em Natal. Depois de discutirmos longamente locais e preços de anúncios, disse, para desanuviar a conversa já tensa: mais barato só se o senhor mandar de presente as bailarinas. Grave, sobrancelhas crispadas, rebateu num português mexicanizado, e firme: ‘O senhor não conhece aquelas mujeres para desejá-las. Elas son feas, velhas e abussadas’.

 

SABE – I

O prefeito Carlos Eduardo Alves sabe sim. De tudo. E soube em Brasília. Que o candidato é Henrique Alves a governo e Wilma de Faria disputará o Senado. E João Maia uma opção para vice-governador.

BLOCO – II

Sabe também que um bloco de dez pequenos partidos vai declarar apoio à candidatura Henrique Alves, o que pode significar de três a quatro minutos de tevê, o que esvazia duramente a chapa de oposição.

MINISTRO – III

Que o senador Garibaldi Filho deixa o Ministério da Previdência não para ser candidato contra Wilma, mas para ser ministro da integração nacional, uma pasta com o elevado poder executivo em todo país.

MAIS – IV

O deputado Walter Alves será candidato a federal na vaga de Henrique Alves com amplas e inegáveis chances de ser eleito com grande votação em todas as regiões do Estado como herdeiro de Henrique.

CHANCE – V

O deputado Henrique Alves, cuidadoso, vai oferecer espaço ao PT propondo sua presença na aliança proporcional, mas sem veto ao PSB, DEM e PSDB. Quem soma tempo de tevê subtrai do adversário.

SUPLENTE – VI

O engenheiro e empresário Flávio Azevedo, do PMDB, pode ser o primeiro suplente de Wilma. Chega não só como um amigo de confiança, mas com forte chancela de prestígio do senador Garibaldi Filho.

SAÍDA – VII

O PSD do vice Robinson Faria pode resistir como candidato de oposição ou fazer também aliança com o PMDB na chapa proporcional. Livra a bancada do isolamento e seria candidato a deputado federal.

NOTA

Dos quatro diáconos a coluna recebeu carta invocando o direito de resposta – debaixo das vestes solenes há sempre um punhal? – e informando que as suas Dalmáticas custaram, ao todo, R$ 2.851.20 e não R$ 3.200,00 cada uma, como noticiou esta coluna na edição do dia 20. Ainda bem. Prevaleceu o bom senso na Igreja de Francisco, o Papa que comove o mundo com a sua humildade. Eis a carta:

 

Estimado senhor jornalista, Vicente Serejo,

Saudações!

O motivo do nosso contato é sobre uma nota que foi publicada na coluna do Jornal de Hoje, intitulada Cena Urbana, de sua autoria, no dia 20 de fevereiro do corrente ano.

Dizia a nota:

“Que esses novos Diáconos mandaram confeccionar em Campina Grande suas Dalmáticas e cada uma delas vai custar R$ 3.200,00. E onde fica a Igreja de Francisco, despojada de tudo, feita de pastores?”.

Embasados no direito de resposta da lei de imprensa Seguem alguns esclarecimentos:

1°) As Dalmáticas que nós encomendamos foram confeccionadas pela Congregação das Religiosas Pia Discípulas do Divino Mestre que é responsável pela loja de Paramentos litúrgicos “Apostolado Litúrgico” com sede em Recife – PE.

2°) Foram confeccionadas seis dalmáticas: quatro utilizadas no dia de ontem e outras duas que foram adquiridas por um religioso e por um seminarista estagiário que se interessaram no preço oferecido pela loja.

3°) O valor total pago por estas seis dalmáticas foi de R$ 2.851,20 o que equivale a R$ 475,20 por cada uma (o senhor pode verificar estes dados no cupom fiscal que enviamos em Anexo).

4°) Como fiéis seguidores da Igreja Católica, que tem como guia espiritual o Papa Francisco, optamos por um modelo simples e digno de paramento.

Portanto, vimos através deste e-mail, solicitar a vossa senhoria a gentileza de publicar em sua conceituada coluna jornalística uma retratação afim de que possa ser reposta a verdade dos fatos.

Colocamo-nos à disposição para qualquer outro esclarecimento.

Atenciosamente,

a) Diáconos Alan Franco Lago de Deus, Francisco Erivaldo Barbosa, Idelbrando Medeiros Basílio e João Batista Nunes Filho.

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