Pacientes de ortopédia começam a ser transferidos para hospitais particulares

Mas corredores do Hospital Deoclécio Marques permanecem lotados

Em acidente de moto, Queiroz Dantas fraturou o fêmur e o úmero. Ele está há 20 dias aguardando cirurgias na perna e no braço. Foto: Heracles Dantas
Em acidente de moto, Queiroz Dantas fraturou o fêmur e o úmero. Ele está há 20 dias aguardando cirurgias na perna e no braço. Foto: Heracles Dantas

Fernanda Souza
fernandasouzajh@gmail.com

Com a renovação do contrato entre a Secretaria Municipal de Saúde e os hospitais particulares que realizam cirurgias ortopédicas – uma das maiores causas da superlotação dos dois principais hospitais de trauma do Estado, Walfredo Gurgel e Deoclécio Marques – desde ontem (14), a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) começou a transferir os pacientes para a realização de cirurgias eletivas.

De acordo com a Sesap, na tarde desta última terça-feira foi transferido o primeiro grupo de 21 pacientes que serão submetidos a cirurgias ortopédicas eletivas no Hospital Médico Cirúrgico, no bairro de Petrópolis, que presta serviço para a Prefeitura de Natal. Segundo dados da Central de Regulação da Sesap, estes pacientes estão entre os 110 que aguardam pelo segundo tempo cirúrgico em ortopedia nos Hospitais de Referência em Traumatologia da Região Metropolitana, sendo 67 na fila do Hospital Walfredo Gurgel e 43 no Deoclécio Marques. Dos 21 pacientes transferidos, nove são do Walfredo Gurgel, seis do Deoclécio Marques, um do Hospital Regional de Caicó e cinco do Tarcísio Maia.
No entanto, mesmo com o início das transferências, na manhã desta quarta-feira (15), dezenas de pacientes se aglomeravam nos corredores do Hospital Deoclécio Marques, na longa espera por cirurgias, em sua grande maioria, ortopédicas.

O cozinheiro Queiroz Dantas de Souza, morador de São Gonçalo do Amarante, está há mais de 20 dias esperando por cirurgias na perna e no braço, fraturados após um acidente de moto. “Sofri o acidente na véspera do Natal e fraturei o fêmur e o úmero. Estou neste leito há 23 dias e já marcaram quatro vezes os procedimentos, mas até agora nada. Ontem eu ia fazer a do fêmur, mas desmarcaram e não deram explicação nenhuma. Hoje estou em jejum e esperando a cirurgia do braço. Me sinto extremamente revoltado. Procuro ser um homem correto e pagar as minhas contas em dia e na hora que precisamos da saúde pública, falta tudo. Falta até gel para furar minha veia e já deixei de tomar medicamento porque não tinha e também não havia a prescrição médica. Tirei do meu próprio bolso para comprar remédio, para alimentar minha esposa e ainda tenho que aceitar desaforo de assistente social dizendo que sou barraqueiro. É um desrespeito com o cidadão. Cadê a lei para nos proteger?”, desabafou.

Eliel Silva, natural de Georgino Avelino, também lamentou o que chama de descaso. “Cai da moto há 15 dias e vim direto para cá. Já marcaram a cirurgia no meu joelho umas três vezes e quando desmarcaram disseram que tinham outras mais urgentes. Estou parado, tenho esposa para sustentar e depender da saúde pública é muito ruim e muito triste. E ainda falta material aqui, além do almoço ser muito tarde, depois das duas da tarde”.

Já o autônomo Edvaldo Vicente do Nascimento, morador de Baía Formosa, teve mais sorte dos que os seus companheiros de enfermaria. Ainda no final desta manhã, após 12 dias esperando por uma cirurgia na perna, devido a uma fratura que sofreu após cair de um andaime, foi transferido para um dos hospitais conveniados. “Soube que vou ser transferido agora. Era para ter sido ontem, mas disseram que a ambulância quebrou e que a prioridade são os idosos, mas sou pai de família também e tenho que sustentá-los. Dá até vergonha de falar sobre o que estou passando. É um sentimento de grande revolta e me sinto abandonado”, disse com a voz embargada.

De acordo com a diretora administrativa Adriana Pontes, a transferência de pacientes que esperam por cirurgias ortopédicas é um grande passo para a regularização do fluxo de cirurgias. “Ontem transferimos seis pacientes com cirurgia de fêmur e até 40 anos de idade. Em uma semana temos uma média de 50 procedimentos extras. A abertura de 10 novos leitos de UTI no Hospital Memorial vai ajudar muito, pois conseguiremos trabalhar mais tranquilamente, principalmente com os idosos, que precisam de UTI”.

Segundo a diretora, a média de atendimento diário no hospital é de seis cirurgias eletivas de segundo tempo e quatro de urgência, com pacientes vindo de todo o Estado, sendo 60% oriundos de Parnamirim.

Quanto à ambulância quebrada no dia anterior, que teria prejudicado a transferência de pacientes, Adriana Pontes explica que quando existe algum problema mecânico nas ambulâncias do Hospital é solicitado o apoio do Samu Metropolitano. “Tivemos o problema na ambulância na manhã de ontem, mas já estará pronta no início da tarde de hoje”.

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