Pacientes psiquiátricos do CAPS pintam muro da instituição como terapia

Cerca de 50 pacientes participam de oficinas de expressões artísticas

Foto: José Aldenir
Foto: José Aldenir

Marcelo Lima

Repórter

Para espantar os estigmas que pesam sobre pessoas com transtornos mentais, o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Leste firmou uma parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) da Cidade Alta. A meta é integrar pacientes psiquiátricos aos ambientes de socialização comum a todos, começando pelas oficinas de arte.

Dessa forma, cerca de 50 pessoas atendidas pelo CAPS participam dessa iniciativa lado a lado de estudantes do instituto e comunidade em geral. Uma das pessoas que aproveitou a oportunidade foi a Rosineide de Santana de 35 anos de idade. “Participo mais da oficina de dança. Tem vários tipos de música, como forró, mas eu gosto de qualquer tipo de música”, acentuou.

Ela também participa da oficina de papel reciclado e tem a consciência exata dos benefícios que essas atividades podem trazer. “Na [oficina] de papel reciclado, eu faço bloquinhos para escrever, flores. Eu gosto porque ocupa a mente e também conheci outras pessoas lá”, disse Rosineide.

Além de atividades com papel reciclado e de dança, os pacientes do CAPS também participam de oficinas de composição artística e desenho e histórias em quadrinhos. Para a psicóloga da unidade e uma das organizadoras do projeto, Maria da Conceição Valença, essa iniciativa segue os princípios da reforma psiquiátrica que enfatiza a necessidade de socialização dos pacientes sem transtornos mentais graves.

Por outro lado, a psicóloga lembra também que a convivência com paciente psiquiátrico por parte da comunidade acadêmica do IFRN e os alunos é a melhor maneira de quebrar estigmas antigos. “O que a gente conseguiu foi desconstruir essa questão da convivência com um transtorno mental, que é violento, que deve ficar internado no hospital”, destacou.

A retomada aos espaços de socialização é fundamental inclusive para a autoestima dos pacientes. “A gente sabe que quando ele é acometido por um transtorno tem dificuldade de retomar os estudos, sai do trabalho, acaba com relacionamentos. Essas oficinas tentam resgatar essa coisa da arte e da criação que se perde um pouco nesse processo”, acrescentou Conceição Valença.

O trabalho das oficinas de arte dentro do próprio Caps Leste começou há muito tempo, a partir da iniciativa da arte-educadora Graça Abrantes. Segundo ela, em 2012, algumas dessas oficinas, como a de papel reciclado, eram feitas dentro da própria unidade. “Mas o liquidificador que misturava o papel quebrou. Então falamos com a professora Mara para que a gente pudesse fazer a oficina lá mesmo”, disse Abrantes. Tanto a professora Mara Pucci, quanto o diretor-geral da unidade Cidade Alta do IFRN apoiaram a iniciativa.

Dentro da própria unidade, várias paredes serviram de mural para os pacientes, inclusive a fachada do Caps. As salas também possuem quadros e outras formas de expressão artística desenvolvidas pelos usuários. No final do ano passado, todo a produção cultural foi exposta no IFRN.

“De repente você vê a sua obra exposta na parede para todo mundo ver, as pessoas tirando fotos. Ser reconhecido pelo olhar do outro é muito importante. Com essas oficinas, eles não vão deixar de ter o transtorno, mas vai trazer alguma coisa nova para ele, que poderá ser potencializada ou não”, comentou a psicóloga. Além disso, o Caps possui uma parceria com o Parque das Dunas para realizar atividades de socialização como trilhas e outros do tipo.

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