Pacientes psiquiátricos promovem carnaval da inclusão

Cerca de 50 internos desfilaram no bloco que está no quinto ano consecutivo

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Na manhã desta sexta-feira (28), pacientes do Hospital Psiquiátrico Severino Lopes, antiga Casa de Saúde de Natal, colocaram, literalmente, o bloco na rua. Cerca de 50 internos desfilaram pelas ruas e avenidas do Tirol, no trecho que compreendeu as avenidas Romualdo Galvão, Prudente de Morais, até a chegada à Praça Augusto Leite.

O evento, que entra no seu quinto ano consecutivo, além de promover uma maior integração entre os próprios pacientes e a população, também chama a atenção pela luta por melhorias na assistência na área de saúde mental. “Esta é uma ação terapêutica e cidadã. Promovemos oficinas de produção de máscaras e adereços, de construção de novos pensamentos, como ser feliz sem drogas e que é possível fazer isso sem excessos. Estar internado não é privação de liberdade, não é estar excluído. Liberdade é ter tratamento. Apesar de ser um evento festivo, também há uma vertente política porque queremos mostrar a sociedade que estes internos são pessoas reais e que necessitam que o tratamento exista de forma digna, adequada e de qualidade em todas as modalidades de tratamento”, afirmou a psicóloga Sandra Uchoa.

Durante o percurso, a equipe de profissionais do Hospital promoveu a distribuição de panfletos informativos com dicas para um carnaval tranquilo e sem o uso de drogas, produzidos pelos próprios pacientes, e sobre as dificuldades enfrentadas e necessidade de melhorias na área da saúde mental.

A animação dos foliões chamou a atenção de moradores, transeuntes e comerciantes da região, que aprovaram a iniciativa. O aposentado Luiz Pinheiro, de 90 anos, fez questão de acompanhar parte do percurso. “Estou muito feliz por eles e por isso resolvi entrar na folia”, disse. Já o vendedor Anderson Sousa também se entusiasmou com o bloco na rua. “A iniciativa é boa e acredito que eles têm o direito de se divertir e se integrar”, pontuou.

Há nove anos em tratamento no hospital por problemas como esquizofrenia e depressão, Alexandre Magno, era um dos mais animados da festa e caprichou na fantasia de soldado romano. “Esta é uma forma de trazer alegria para todos e é um momento único. O Carnaval é uma festa bonita, colorida e de sentimentos vivos, positivos. Gosto muito de participar e estou bem animado com a evolução do meu tratamento”.

Ivanice da Silva caminhou durante todo o percurso, ao lado do filho Jurandir, de 23 anos, que desde janeiro está em tratamento por causa de uma esquizofrenia. “Estou achando ótimo e vi que ele ficou muito animado. Também estou satisfeita com a equipe do Hospital e participo toda semana de reuniões com a psicóloga. Meu filho participa de oficinas de arte, faz academia e vejo que ele está menos agressivo”.

Nilton Solon está na sua terceira internação e fez questão de evidenciar a importância da inserção social dos pacientes. “Além de estar aqui no bloco, já participei de várias peças de teatro, como na época da Semana Santa. O Carnaval não é só bebida e drogas e dá para manter a mesma alegria com água, refrigerante. O mais importante é viver puro, pois a alegria vem de dentro. Estou na luta contra o crack e recebo muita ajuda do grupo de terapia e dos psicólogos e isto conta não só para o meu tratamento, mas sei que é para uma vida toda”.

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