“Pagaremos um preço porque algumas obras não ficarão prontas para a Copa”

Vinicius Lages falou sobre os ajustes no planejamento do Mundial

Ministro do Turismo, Vinicius Lage. Foto: Divulgação
Ministro do Turismo, Vinicius Lage. Foto: Divulgação

O Brasil vai pagar um preço porque algumas obras planejadas para a Copa do Mundo não ficarão prontas até o início do torneio. A opinião é do ministro do Turismo, Vinicius Lages.

Em entrevista, Lages afirmou que algumas obras não ficarão prontas porque os empreendimentos tiveram de ser ajustados, e que essas mudanças fazem parte de “um planejamento estratégico”.

Para ele, apesar desse “preço a pagar”, há um exagero no debate sobre as obras terminarem ou não até o Mundial começar.

“Acho que há uma certa hipertrofia do debate sobre infraestrutura, se vai terminar, não vai terminar. [O debate é] muito de curto prazo, como se tudo tivesse que estar pronto no apito final. A gente paga um preço porque algumas coisas não vão ficar prontas. Outras talvez foram reescalonadas dentro de um planejamento estratégico de montagem da infraestrutura de um país continental”.

O ministro declarou que a taxa de ocupação de alguns hotéis durante o Mundial deve ficar abaixo das expectativas, mas descartou que tenha havido excesso de otimismo entre o empresariado nacional.

“Pode ser que no caso de São Paulo, ou em outros jogos específicos, que você tenha preços mais baixos e também uma taxa de ocupação mais baixa do que a prevista. (…) Claro que há hotéis iniciados que não vão terminar agora, que vão demorar um pouco mais. Cidades como Cuiabá, Manaus, que têm uma oferta hoteleira que pode ter sido ampliada para previsão de uma certa ocupação na Copa, terão que ter estratégias muito mais cuidadosas”.

O ministro lembrou que, durante as Olimpíadas de Londres (2012) e a Copa da Alemanha (2006), nem tudo saiu como planejado, destacando que ajustes fazem parte do planejamento e que eles não prejudicarão o Mundial no Brasil.

Lages ainda criticou a taxa de investimento do País (em torno de 18% do PIB), ressaltando que, para alcançar um crescimento superior a 4%, o Brasil teria que elevar essa porcentagem de investimento.

Engenheiro agrônomo com doutorado em economia, Lages é alagoano, tem 56 anos e assumiu o ministério em março, durante o último ciclo de mudanças da presidente Dilma Rousseff. Ele é o sexto ministro da pasta, criada em 2003 durante o governo Lula, e apenas o segundo com perfil técnico.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Ao longo das últimas semanas, noticiamos que algumas cidades-sede estão com baixa taxa de ocupação hoteleira, faltando pouco tempo para o início da Copa. Os empresários superestimaram os ganhos econômicos que o evento poderia trazer?

Vinicius Lages — Até recentemente, a grande atenção da mídia eram os preços altos, que significa uma demanda aquecida pela lei natural do mercado. De repente você reverte [a cobertura] para uma capacidade ociosa.

Ainda existem aproximadamente 1 milhão de ingressos não vendidos, que serão vendidos pela Fifa até a reta final. A Fifa vende até no dia do jogo, até 13 de julho está valendo. Então ainda vai continuar tendo demanda para esses hotéis. Cruzando dados de informações sobre estrangeiros e brasileiros que já compraram ingressos, não dá para dizer em absoluto agora que vamos ter uma taxa x ou y de ociosidade.

São Paulo (que atualmente tem 24% de leitos ocupados) é uma questão mais evidente nessa atenção ao tema. A cidade já tem uma capacidade de acolhimento grande durante o ano. São Paulo realiza grandes eventos, mas não irá realizar alguns

Mas alguns eventos que normalmente aconteceriam nesse período (maio, junho e julho) não acontecerão. Isso pode ter [levado a] uma certa oferta não ser aproveitada pelos turistas durante a Copa.

Além disso, o que vem ocorrendo às vésperas do Mundial é a queda dos preços de hotéis.

É mais um ajuste, digamos assim. Tem preços elevados, mas ajustados. Ontem mesmo (23/04), duas pessoas poderiam comprar aqui em Brasília e pagar 600 reais [pelo quarto duplo em hotel] no dia de jogo.

À medida que o evento se aproxima os preços podem cair mais ainda?

Pode cair sim. Ou dependendo da posição final das reservas, se forem sendo ocupadas, você pode ter um preço estabilizado. Então não dá para dizer ainda [como vai ficar o preço final de hospedagem nem a taxa de ocupação]. Vamos esperar que as vendas de ingressos cheguem ao limite para rentabilizar e ter a movimentação completa.

No curto prazo, nas estimativas que estamos fazendo para ajustar a oferta de hospedagem com a demanda existente, não está dando gap em nenhuma das cidades. Estamos trabalhando inclusive em algumas para ter um reforço (…). Pode ser que, no caso de São Paulo, ou em outros jogos específicos, dependendo dos números finais (…), que você tenha preços mais baixos e também uma taxa de ocupação mais baixa do que a prevista.

Mas a grande questão é no médio e longo prazo, [quando] essas cidades retomarão a sua atividade normal. Aí teremos cidades que ampliaram significativamente [a oferta hoteleira], ou que pelo menos ajustaram a oferta, como no caso do Rio de Janeiro, onde não tem e não terá problema de ociosidade no futuro.

Mas há cidades, como Cuiabá, que ampliaram exageradamente sua oferta hoteleira.

Mas eles já deram freio. Inclusive a conclusão de certos hotéis não vai ocorrer agora para a Copa. Então há uma oferta que foi redimensionada em função desse ajuste mesmo de planejamento. Claro que há hotéis iniciados que não vão terminar agora, que vão demorar um pouco mais.

Preocupa? Eu diria que cidades com Cuiabá, Manaus, que têm uma oferta hoteleira que pode ter sido ampliada para previsão de uma certa ocupação na Copa, vão ter que ter estratégias muito mais cuidadosas.

Pensando no pós-Copa, é ter uma capacidade de estimular o turismo interno e montar estratégias para que a gente possa se manter, em um País que já tem uma capacidade de atração de eventos bastante grande.

Em 2003, quando o ministério foi criado, estávamos em 19º lugar em termos de eventos internacionais, e agora vamos para a 7ª posição, com quase um evento internacional por dia, e com alguns eventos de porte bastante significativo.

A grande questão que se coloca no médio e longo prazo é como podemos aproveitar melhor essa infraestrutura e mobilidade. Se olhar Brasil daqui um ou dois anos — esquecendo esse período da Copa, [após esse debate] se está pronto ou não está pronto —, se olhar para longe no turismo, temos absoluta certeza que vamos ter melhor mobilidade, melhores hotéis, melhores bares e restaurantes, mais empresas capacitadas em logística, de traslado, etc.

Acreditamos que [trabalhando] todos juntos podemos manter uma capacidade intensa de atração. E repensar a funcionalidade desses equipamentos, das arenas, etc., sobretudo em cidades como Cuiabá. Mas Cuiabá tem que ser pensado não só numa perspectiva estadual: “Ah, não tem time de futebol, então não vai se viabilizar”. Não, tem que ser pensado como uma região turística do Brasil, que se preparou e vai ter uma oferta de serviços e hotelaria, aeroporto, mobilidade urbana infinitamente melhor do que já teve durante todo esse tempo, e vai poder montar uma estratégia para manter essa atividade turística e da economia de serviços funcionando. Não vamos cruzar os braços após a Copa.

Mas esse ajuste de ofertas não tem a ver com a expectativa? Não houve uma expectativa mais elevada com esse torneio de curta duração?

Eu tenho dificuldade de colocar de forma muito categórica se houve ou não um direcionamento dessa expectativa maior do que deveria. Não queria me colocar tanto nesse ponto, se o empresário errou no seu planejamento…

Acho que tem um conjunto de fatores que levaram sim — inclusive, alguns questionam por que tal Estado, por que outro não, mas essa é uma Copa que possibilitou integrar o País, é uma copa inclusiva (…). Agora, pode ter, e o caso de Cuiabá, o fato de que alguns hotéis deram uma revisada no seu cronograma de investimentos para não concluir tudo até a Copa já é uma inteligência empresarial estabelecida que está se colocando em campo. Ninguém precisa dizer, eles fizeram esse ajuste.

E no médio e longo prazo é um desafio que a gente tem no conjunto. A vida não para no apito final. É aí que começa meu desafio enquanto ministro do Turismo.

Estamos justamente falando de legado, alvo das principais críticas à Copa. O senhor diz que ele virá no longo prazo. Mas e quanto ao legado imediato? Temos ainda aeroportos em obras.

Já tem alguns [aeroportos] prontos, outros estão finalizando. Vamos amadurecer essas obras. O Brasil não vai parar [após a Copa]. Vai ter PAC 3, vamos ter outro conjunto de obras, o ministério continua com obras complementares para o turismo. No ministério, 88% dos recursos são para obras infraestruturais importantes. São às vezes pequenas obras de pavimentação, pontes, terminais que vão completando a infraestrutura turística. Duplicação de pontes, Recuperação de mercados, cidades históricas. Há também obras no PAC que atendem diretamente ao turismo. Esse conjunto de obras vai dar para o turismo uma capacidade de competir no médio e longo prazo muito grande.

No curto prazo, para você ter uma ideia: até hoje, 365.200 estrangeiros já adquiriram ingressos para a Copa. Isso já supera o número da África do sul. E junto com os turistas que virão com eles, mesmo que sem ingresso, se aproxima do número que a gente esperava. São turistas de 186 países.

E qual a expectativa de público do ministério? 

No período todo da Copa temos expectativa de circular 600 mil estrangeiros. Mas nós não criamos esse número, esse número vem sendo trabalhado há algum tempo, mas vamos ultrapassar os 500 mil.

E não é o turista de sempre. Recebemos em média 550 mil turistas internacionais por mês, o que dá cerca de 6 milhões de turistas por ano. Mas nesse período de baixa temporada recebemos um pouco mais de 300 mil por mês. Você tem novas nacionalidades, grupos turísticos que nos interessavam muito, visibilidade enorme pela transmissão desses jogos. Serão pelo menos 2 bilhões de telespectadores simultâneos, e mais de 30 bilhões cumulativo.

Acho que tem uma certa hipertrofia do debate sobre infraestrutura, se vai terminar, não vai terminar.

Como assim “hipertrofia do debate”? 

[O debate é] muito de curto prazo, como se tudo tivesse que estar pronto no apito final. A gente paga um preço porque algumas coisas não vão ficar prontas e outras talvez foram reescalonadas dentro de um planejamento estratégico de montagem da infraestrutura de um país continental.

É claro que foi se ajustando [o planejamento]. Mas nós do turismo olhamos com um otimismo enorme de crescimento, porque vamos ter melhor infraestrutura, melhores empresas. Só de pequenas empresas foram mais de 15 mil capacitadas.

Em 2013, enquanto os brasileiros gastaram US$ 25,342 bilhões no exterior, os estrangeiros gastaram US$ 6,709 bilhões aqui. Mas essa perspectiva de crescimento não vai ser imediata. Vamos ter um boom em algum momento para reverter esse quadro?

Boom não. Boom requereria várias questões. Algumas questões de infraestrutura se resolvem no curto prazo, e outras no médio, como melhor tecido de mobilidade, melhor infraestrutura aeroportuária, portuária, isso é um primeiro passo. Outra questão é que foi ampliado o número de voos internacionais. Mas é preciso ampliar a malha aérea como um todo, não só a conectividade entre o Brasil e outros continentes, mas ampliar a malha aérea dentro do Brasil. O número de aeroportos vai praticamente dobrar.

Mas não vai dobrar agora, vai levar uma década para isso. 

Exatamente, a partir de agora vamos nos preparar. Ficamos um tempão com 120 aeroportos plenamente operacionais, num País com mais de 5.400 municípios. Então precisa melhorar essa malha interna, criar mais voos frequentes. E aí vai resolver outra questão, que é ganhar espaço do mercado interno, porque mais gente vai fazer suas primeiras viagens nos próximos anos. Então temos que estimular esse turismo interno, até como freio ou alternativa ao invés de [o turista brasileiro] ir para Miami e gastar dólares preciosos para nossa balança.

Além disso, facilitação de vistos é outra medida que está sendo tomada, vistos eletrônicos, repensar a estratégia promocional, temos que fazer esforço junto com o setor privado. Estamos repensando o papel da Embratur nesse esforço. Acho que tem um ciclo vencido de uma estratégia que precisa ser repensada. [Temos que] integrar a promoção do País, não ter ações paralelas, buscar convergência de esforços entre órgãos, da Embratur, do próprio Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e do Ministério de Relações Exteriores, para você ter o destino Brasil e seus produtos juntos sendo promovidos. Então não é isoladamente um melhor aeroporto ou um melhor restaurante que vai dar um boom. O boom não virá da noite para o dia.

O número de turistas internacionais dobrou desde a criação do ministério. O importante é trazer turista com capacidade de permanência maior, que interiorize essa frequência e gaste mais. Crescer agregando valor por cada turista que chega ao País.

O Brasil tem dois eventos que justificariam esse investimento maciço (Copa e Olimpíadas). Mas por que a gente ainda vai dobrar o número de aeroportos? Por que isso já não está sendo feito?

Para a infraestrutura [melhorar], que é chave e pode gerar outros gargalos em energia, abastecimento e mobilidade, é preciso que a taxa do investimento brasileiro sobre o PIB se eleve. Os nossos vizinhos que mais cresceram têm taxas de 25% de investimento sobre o PIB. Nós estamos em torno de 18%. Ela é baixa diante da necessidade que temos de fazer com que o investimento puxe crescimento.

O debate atual é saber como financiar a longo prazo e, com essa previsibilidade das regras de investimento, como criar condições de envolvimento maior do setor privado. Assim como fizeram em Brasília. Em 16 meses, vão terminar duas alas [no aeroporto JK], ampliando em 40% a capacidade, e com uma qualidade padrão de qualquer país desenvolvido.

O que está claro é que não dá para contar só com recursos vindo do orçamento público. Agora, como sair desses 18% para 20% (até chegar a taxas que permitam crescer não apenas 2%, 2,5% ao ano, que praticamente absorve a entrada de novos trabalhadores ou que cresce apenas vegetativamente)?

Para crescer, para dobrar a renda em uma década, uma década e meia, a gente vai ter que crescer entre 4%, 4,5% ao ano. E para isso precisa investir mais. Não tem mágica. Mais poupança e mais investimento (público e privado).

O grande debate depois da Copa é a continuidade desse investimento, e isso está muito claro para nós do governo e do turismo.

Qual obra você apontaria como principal legado da Copa para o turismo?

Sem a menor dúvida, a expansão hoteleira, os aeroportos e a mobilidade urbana. Isso é de um ganho. Primeiro você tem onde hospedar e como se locomover. Então fica muito mais fácil [para o turismo] você ter esses equipamentos e essa logística. O Brasil já tem oferta turística de qualidade. Precisa integrar porque aí é mais fácil trazer gente. Com gargalo logístico, [o turismo] vai sofrer. Esse legado no curto e médio prazo dá chance para outros setores da economia também.

Jornais internacionais criticaram a organização da Copa no Brasil. Qual o impacto disso nos turistas? E como mudar essa imagem?

Mesmo com todas essas matérias, isso não inibiu as expectativas que tínhamos de atração de turistas. O impacto maior é para o futuro. Por isso a nossa preocupação é mostrar que vamos fazer uma grande Copa, uma grande celebração, porque o povo brasileiro tem essa capacidade. E temos hoje ofertas turísticas, equipamentos capacitados para essa celebração, que é o objetivo da Copa: realizar jogos e proporcionar, no período entre os jogos, uma experiência turística bastante agradável para que ele possa voltar.

Se para o turismo de negócios, que são setores mais exigentes, você tem uma aceitação boa, nesse campo da celebração da vida pelo esporte, eu não tenho a menor dúvida que será uma grande Copa.

Para nós do turismo, a grande questão é: “Imagina sem a copa, sem esses grandes investimentos?”. O País acelerou investimentos, antecipou obras. Claro que fizemos ajustes em razão do planejamento.

Então, não fosse a Copa, seria mais demorado ainda para termos essas melhorias?

Esse compromisso de ter a realização de um evento acelera investimentos, faz você planejar. Claro que algumas coisas não se concluem. Mas mesmo na Alemanha, durante os jogos [Copa de 2006], houve relatos de trânsito desviado, tiveram alguns ajustes. Mesmo na Inglaterra, nem tudo foi muito redondo na realização dos Jogos Olímpicos [2012] , mesmo num país com a tradição enorme de realizar megaeventos.

Eu digo “Imagina sem a Copa” porque talvez demorasse mais para ter esse conjunto de aeroportos, esses investimentos hoteleiros, a construção de equipamentos turísticos importantes, uma preocupação em equipar nossos parques nacionais para acolher mais visitantes. Para nós e para a sociedade brasileira, foi um vetor de aceleração de investimentos importantes, que vão ser maturados nos próximos anos, alguns nos próximos meses, e a vida continua.

Estamos certos de que essa equação de investimento vai ser encontrada, e vamos completar essa infraestrutura num país continental, o que não é trivial.

Fazer isso numa ilha, fazer isso numa Inglaterra, é uma coisa. E fazer isso num país continental, que tinha um déficit estrutural, não é da noite para o dia.

Fonte: R7

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