Pai desconsolado

Sou franciscano cético. Nasci para consolar e não ser consolado. Vocação ou destino. Mas comigo não tem essa de que…

Sou franciscano cético. Nasci para consolar e não ser consolado. Vocação ou destino. Mas comigo não tem essa de que é dando que se recebe. Vade retro. Encontrei um conhecido, desiludido em pleno calçadão da Rua João Pessoa, centro de Natal, às duas horas da tarde. Uma sucursal do purgatório e ele metralhando suas lamúrias.

Mentes maliciosas devem estar pensando em adultério, chifre, traição. Também imaginei, mas o interlocutor sofria como um pai massacrado por dentro. É bem casado, ao menos teoricamente não existe nada que deponha contra sua companheira de terceiro matrimônio.

Do qual nasceu o garoto que é o seu xodó. Por um filho tudo se faz, danem-se os escrúpulos da razão. O menino é bom de bola. No colégio é tratado como astro. Sabe driblar, é abusado, não passa a bola quando pode fazer o gol, tem cintura de capoeirista e habilidade de meio-campista em extinção.

O pai sempre se orgulhou dos elogios dos colegas de banco que geralmente convida para comprovar a capacidade que nunca teve quando moleque. Jogava de beque, bom de porrada. Precavido, nunca deixou de ficar fora das peladas porque sempre guardava uma bola novinha em casa e dono da bola entra no time porque sem bola não tem racha.

O menino tem 13 anos, idade em que se deve dar liberdade de criação a quem ainda não tem formação física e atlética, muito menos paciência e capacidade de assimilar táticas que parecem provas insuportáveis de Matemática ou aulas de Educação Religiosa, impostas no meu tempo de aluno de colégio comandado por freiras.

O candidato a artilheiro foi levado para um treino de escolinha. Num sub alguma coisa que inventaram para ensinar menino a virar robô desde cedo, aplicando todos os tipos de exercício e esquecendo o uso fundamental da bola. Qualquer dia, os especialistas das chamadas “categorias de base”, vão incorporar o balé ou o UFC como formas revolucionárias de introdução ao futebol.

O pai me disse que acordou cedo, domingo, juntou a sua patota de amigos e o menino, franzino que nem um passarinho de seca, pulou da cama fazendo embaixadinhas, matando na coxa ossuda, fazendo sequências mirabolantes em toques de cabeça.

Lá estávamos, eu e ele, sol emburrado com a conversa enquanto comerciantes expunham mercadorias especiais como carregadores genéricos de celular, sacos de cuecas e calcinhas, capinhas de telefone com ursinho de pelúcia no desenho. Presente próprio para se entregar embalado em papel celofane cor de laranja à amante de desempenho nota 5,5.

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A caravana seguiu para o treino e o menino encheu-se de timidez diante de uma enxurrada de gente da sua faixa etária. Eram mais de 50 e alguns tão bons de bola quanto ele. Na infância o rei da rua nem sempre segura o cetro quando sai do seu terreiro.

No caso do filho do meu interlocutor vesperal, a decepção foi aguda. O menino entrou cinco minutos e, na primeira oportunidade, deu um drible de corpo. Seu marcador sentou de bunda. O calção subiu cheio de grama. Tocou de primeira, se apresentou para tabelas, estava em liberdade de parque de diversão.

Estou escrevendo baseado na versão do pai e poupemos aí uns 32,5% de exagero. Ele me garantiu que o treinador parou o jogo, chamou o menino e disse que futebol “era esporte de respeito, que ninguém deveria humilhar o coleguinha (adorei o coleguinha) e que o espírito de equipe e de disciplina deveria prevalecer.” O menino murchou.

Ficou tocando bola para os lados enquanto gigantes de sua idade trombavam e davam chutões para o alto, para êxtase do “professor” com estampa de segurança de boate. O desespero do pai aumentou quando voltaram para casa e o menino disse: “Meu negócio agora é videogame, por causa de quê eu posso fazer o que quero.”

Ele não mentia. Dois ou três amigos, um deles, pai de um goleirinho, me deram depoimentos semelhantes. Os campos viraram academias de ginástica e o extrato é a feiura nas telas gigantes das TVs e nas peladas desertas dos estádios.

No último Vasco x Flamengo, por exemplo, a bola rolou 39 minutos e 51 segundos, menos de um tempo. O resto foi de faltas sucessivas, 60 no total, duas a cada três minutos. É o desdobramento dos crimes de lesa-futebol cometidos lá no comecinho, quando o sonhador chega em algum clube e encontra um obtuso tiete dos carrinhos e trancos, incapaz de acertar um chute diante de uma trave vazia.

Meu filho não joga nem gosta de futebol e hoje até estou conformado, acho melhor do que ter um cabeça-de-área dentro de casa. Decidi ajudar o pai lacrimoso do Grande Ponto. Bebemos refrigerante numa barraquinha em frustração calada. Foram cinco minutos de silêncio pela morte do futebol.

México

Um exemplo do que está escrito acima: O Leon do México jogou à brasileira. O Flamengo, não.

Macho

Potiguar de Mossoró honrou a valentia da cidade ao sobreviver no Canindé e se classificar na Copa do Brasil. Levou um gol de impedimento claro, escandaloso. Mas seguiu.

América

Segundo turno no papo. Favorito ao título estadual. Tranquilo para a Série B.

ABC

Tanta tradição jogada fora. Fora do Estadual, da Copa do Nordeste, da Copa do Brasil de 2015, ano do centenário.

Voluntários da Copa

Soltando fogo pelas narinas, o professor Geraldo Batista, leitor leal, manda bilhete justo e indignado. Ele é contra os bestas que se inscreveram como voluntários da Fifa para a Copa do Mundo.

Poder e burrice

GB: Inscreveram-se milhares de pessoas em todas as sedes da Copa para trabalhar de graça para a poderosa FIFA. Eu não acredito: quer dizer que milhares de brasileiros querem trabalhar da graça para uma instituição que vai lucrar milhões de dólares?

Comparação

GB: Se eu convocasse voluntários para fazer um trabalho em favor, por exemplo, da Casa da Criança, que está passando por uma crise enorme, quantos apareceriam para fazer um mutirão de graça? Alguém acredita que se apresentariam mais de 20 candidatos?

Jogo, não

GB: Pelo que estou sabendo, estes voluntários não terão direito nem de assistir aos jogos. Diante deste quadro eu pergunto: Nós somos ou não um país de milhares de babacas idiotas?

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    • Ezequiel

      Caro RL em um Brasil, onde reúnem-se milhares de pessoas em favor da marcha da maconha,passeada orgulho gay,mas em favor dos seus direitos não reúne meia duzia de pessoas,fazer o que? e nossa “cultura”