Pais montam ‘acampamento’ e enfrentam longas filas na busca de vagas

Sistema de inscrição foi alterado após determinação da SME junto ao Ministério Público

Dezenas de pais estão dormindo em ‘acampamento’ montado desde o último dia 3. Foto: Heracles Dantas
Dezenas de pais estão dormindo em ‘acampamento’ montado desde o último dia 3. Foto: Heracles Dantas

Fernanda Souza
fernandasouzajh@gmail.com

Desde o dia 31 de dezembro, dezenas de pais estão enfrentando longas filas na busca por disputadas vagas oferecidas pela Escola Municipal Quarto Centenário, que funciona no prédio da Universidade Potiguar (UnP), localizado na avenida Floriano Peixoto, em Petrópolis. Através de uma parceria com a Prefeitura do Natal, a escola oferece ensino para os anos finais do Ensino Fundamental de alunos vindos das escolas municipais Antônio Campos, Henrique Castriciano,  Laura Maia e Mareci Gomes, todas situadas na zona Leste da capital potiguar.

Na manhã desta quinta-feira (9), o clima ainda era de revolta e insatisfação, já que as famílias estão literalmente ‘acampadas’ nas imediações da escola. O pintor Isaías Heleno da Cruz está na fila desde o último dia 2 na tentativa de conseguir a inscrição para a filha de dez anos. “A chateação é grande, mas a gente tem que enfrentar mesmo.

Estou há quase uma semana revezando com a minha família e hoje vou receber a minha ficha. Tem pessoas aqui que chegam pagar entre R$ 30 e R$ 50 para alguém ficar no lugar. Acredito que vale a pena  porque o ensino da escola é muito bom e é um esforço que faço pelas minhas filhas”, disse.

Já a técnica de enfermagem Rosa Alves está tendo que faltar ao emprego para continuar esperando a ficha de inscrição. “Se tivesses outras escolas com ensino melhor certamente não teriam essas filas.

Aqui no Brasil, os direitos só estão no papel. Infelizmente estou deixando de trabalhar, de pagar minhas contas e já faz oito dias que estou aqui. Já tenho uma filha que estuda na Escola Quarto Centenário e não tenho nada a reclamar porque a administração é boa e sempre nos chama para deixar sabendo de tudo, informando sobre verbas, horários de aulas”.

A recepcionista Tázia Maria reforçou que existem vagas em outras escolas, mas, segundo ela, com o ensino muito abaixo do que ela gostaria para os filhos. “Tem vaga, mas os colégios não oferecem o ensino adequado. Falta estrutura, não tem aula e se fosse para passar mais 10 dias aqui, ficaria. A diretora da escola já veio conversar com a gente e até disse que gostaria que não fosse assim, mas afinal tem mais gente do que vagas”.

O funcionário público Juarez Moura lamenta que desde a sua época de estudante, o ensino público não tenha evoluído. “Os problemas continuam os mesmos: greve, falta de professores, tudo como era no meu tempo. Estou aqui para que minha filha não passe pelo que eu passei. Como é que o Brasil é considerado uma das maiores economias do mundo e a educação se arrasta?”, questionou.

O universitário Moisés Pequeno está desde o último sábado (4) em busca de vaga na escola para sua enteada e também apelou para o revezamento na fila junto com os seus familiares. “A verdade é que no ano passado não era dessa maneira. As escolas já transferiram direto as melhores notas, que tinham vagas garantidas. Com o meu sobrinho foi assim. Mas como muitos pais se revoltaram e alegaram que a escola era por cara, houve a atuação do Ministério Público. Que bom seria que todas as escolas públicas municipais e estaduais tivessem um ensino semelhante como o daqui”.

A dona de casa Josiane da Silva foi acompanhada da própria filha, Ana Victoria, e estava esperançosa em conseguir uma das vagas. “Minha vizinha e o filho estavam vindo ficar na fila, porque estou gestante de quatro meses e não posso fazer muito esforço. Sempre queremos o melhor para os nossos filhos. Deram umas 30 fichas, mas sei que os primeiros que chegarem vão conseguir a vaga, por isso estou aqui. Não tenho condições de pagar um bom colégio”.

Já a flanelinha Lidineide Oliveira era uma das mais indignadas. “É muita humilhação, mas temos sim que denunciar para que o ano que vem não seja assim. Estamos dia e noite expostos e enfrentando várias dificuldades. Quem tem condições de pagar uma pessoa para ficar paga, mas quem não tem como eu?”, indagou.

De acordo com a secretária municipal de Educação Justina Iva, as longas filas estão sendo causadas pela mudança no sistema de inscrição na Escola Municipal Quarto Centenário. “Antes o processo era antidemocrático porque a direção da escola selecionava os alunos e os pais não contestavam. Mas alguns fizeram denúncia ao Ministério Público e o procedimento que existia até 2012 foi mudado. Todos têm o direito de concorrer e esta forma é mais justa e democrática. O próprio Conselho Municipal de Educação também fez a recomendação”.

A secretária ainda explicou que a parceria entre a Prefeitura e a Universidade Potiguar, local onde funciona a escola, foi alterada na atual gestão municipal. “A Escola é pública porque a UnP agora só oferece a estrutura física. Antes, o município oferecia merenda e livros e a UnP os professores, funcionários e estrutura física. O município teve que arcar com tudo. Também dentro do acordo está que a Escola Municipal Quarto Centenário receba  alunos das escolas municipais Antônio Campos, Henrique Castriciano,  Laura Maia e Mareci Gomes, todas do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental”.

Justina Iva também afirma que “acha louvável” a busca dos pais por vagas na escola, mas há outras opções na rede municipal e estadual. “Temos escolas que o Ideb é melhor que as do Quarto Centenário, como é a o caso do Antônio Campos, em Mãe Luiza, dentro do 1º ao 5º ano.

Quando a gente organiza a rede, a oferta de vagas no Ensino Fundamental é de responsabilidade do Município e o do Estado. Mas temos que fazer escolas em áreas que o Estado não está presente e não em áreas onde há escolas e vagas. Na Quarto Centenário são 150 vagas para 279 alunos que concluíram os anos iniciais do Ensino Fundamental nestas quatro escolas citadas, e 129 não serão acolhidos, mas tem várias escolas estaduais que recebem”, frisou.

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