Papa de bom gosto
Quando os caras da rua onde morava na infância jogavam sinuca na subida da ladeira perto da floresta do Parque das Dunas, no bairro do Tirol, quase sempre me expulsavam ou ficavam abismados por uma mania minha. Costumava escolher um expert nas tacadas e torcia como estivesse em um estádio de futebol.
PHD em boemia, bom no violão e apreciador de futebol(chegou a ser comentarista da Rádio Cabugi) , ótimo papo, Costa Neto sempre foi meu preferido. Parecia um Sócrates circulando em torno da mesa e encaçapando. Uma elegância tremenda. Para humilhar, batia de trivela quando encestava a bola sete.
Sempre tomei partido até em arremesso de cuspe, horrenda travessura de menino e dava força fervorosamente a Costa Neto, falecido no ano retrasado ainda moço e diferente de Sócrates pela barriga proeminente. Foi presidente do Sindicato dos Bugueiros muito tempo.
Meu inconsciente quem sabe explique: Me sentia campeão na época em que o ABC costumava apanhar do América e o Flamengo de Zico ganhava tudo no Rio de Janeiro. Eram os anos 1980.
Assim também era quando via novelas e elegia por decreto emocional uma atriz para oferecer sentimento platônico. Vera Fischer, Bruna Lombardi, Dina Sfat e Betty Faria, com quem rompi sem ela saber após suas declarações favoráveis ao consumo de cocaína.
Está começando o conclave para a escolha do substituto de Bento 16. Estou preparando batucadas para torcer pelo italiano Gianfranco Ravasi, 70 anos. Embora seja cético, simpatizei com Ravasi e sua história.
É culto, admite dialogar com não crentes, ouve rock, pop, escreve bem, tem oratória brilhante e é fã do cineasta brasileiro Walter Salles, aquele de Central do Brasil com Fernanda Montenegro, Diários de Motocicleta e On The Rock.
Queria um papa assim, popular, aberto, democrático, um papa espelhado no padrão comum de suas ovelhas. Já estou torcendo por Ravasi com o entusiasmo renascido da memória dos tempos de peru de sinuca em Natal.
Ravasi é capaz de fazer brotar nos corações duros e cheios de cicatrizes, a renovação da fé. Por sua sinceridade e simplicidade. Parece ser um cara sem pompas. E gosta de Walter Salles, o que é cinematográfico e me faz cabo eleitoral sem voto.
Paulo Porto
Paulo Porto conhecido foi o falecido ator, produtor e diretor de cinema e teatro de voz grave e talento na interpretação de obras adaptadas dos textos magistrais de Nelson Rodrigues. Está sempre em reprises do Canal Brasil, da Sky.
Fama não conta
O Paulo Porto contratado pelo ABC chega como incógnita. Seu currículo é modesto, mas nem sempre a trajetória e a fama contam no futebol, ao contrário do palco e das câmeras.
Escola gaúcha
Paulo Porto, de 61 anos, parece experiente. E da velha escola gaúcha, que prefere à força à prerrogativa da criatividade. É um estilo que pode não encantar, mas já garantiu título de comendador a Leandro Campos no alvinegro. Leandro Campos está longe, mas sua voz foi ouvida de perto na escolha do sucessor de Givanildo.
Novidade
Paulo Porto deve ter sido informado sobre o momento do ABC. Da crise financeira que aflige jogadores e funcionários. Do bombardeio nas entrelinhas e surdinas, de efeito tão ou mais letal quanto o espalhafato das redes sociais.
Paz
Paulo Porto precisa de paz para trabalhar e ninguém, nem nós, os metidos a entendidos, podemos sentenciá-lo antes de ser testado pela responsabilidade de comandar um time de massa e tecido pela paixão.
É Natal
O América é de Natal. Se jogou e foi bem recebido e adotado por Goianinha no Agreste ou se vai invadir o Mato Grande jogando no Barretão de Ceará-Mirim não importa. É triste sua torcida não poder ver em sua cidade o seu clube. Ceará-Mirim é perto, mas o América precisava ter se unido para jogar na capital e não amargar prejuízo.
Clássico
Duas expectativas para o clássico de domingo. Cascata contra o ABC e Júnior Xuxa enfrentando o América. São os mais criativos de cada time. Os dois ainda valem o esforço de sair de casa para ver um jogo num estádio sob ameaça das facções rivais.
Bismarck
É daqui de Natal, lá do Paço(com cedilha, sim senhor) da Pátria, o rapaz artilheiro chamado Bismarck, destaque do Campinense, com uma mão e meia na taça de Campeão do Nordeste. Bismarck passou pela vista turva dos homens das categorias de base local.
Ir à montanha
É que ninguém vai aos bairros buscar novos craques. Bismarck jogava às margens do Rio Potengi, como fazia de pés descalços o sensacional Adalberto, do ABC de 1986 a 1989, hoje lutando para conviver com o alcoolismo.
Peneirão
Adalberto começou num antigo peneirão da Fenat. O eterno maestro do ABC, Danilo Menezes bateu os olhos nele e enxergou diamante a ser polido.
Wassil
Reconhecido pelo Alecrim, pode não ter a chance de montar seu time baseado nas suas eternas peças de confiança.
Comemorando
O leitor e ex-craque de futebol de salão, José Marlúcio Diógenes Paiva manda e-mail celebrando a vitória do Botafogo na Taça Guanabara. Zé Marlúcio, como é conhecido pelos amigos, invoca um argumento mágico para definir a paixão. “Sou Botafogo desde quando jogava futebol de botão.” E escala o time de sua melhor lembrança, idos da década de 1950: “Gilson, Gerson e Nilton Santos; Arati, Bob e Juvenal; Garrincha, Didi, Carlyle, Dino e Vinicius”.
Bom sujeito
Quem nunca jogou futebol de botão na infância precisa rever seus conceitos de bom sujeito. A lembrança de José Marlúcio maravilha pela linha de frente: Cinco, cinco no ataque. O avesso do avesso de hoje.
Telê x Beckenbauer
O Kaiser venceu o mestre do futebol arte. Beckenbauer treinava a Alemanha no dia 12 de março de 1986, quando derrotou o Brasil por 2×0 em Frankfurt. Foi a primeira partida preparatória do escrete de Telê Santana para o Mundial do México. Briegel e Allofs marcaram para os gols da partida.
Times
O Brasil perdeu com Carlos; Edson Boaro, Oscar, Mozer e Dida; Falcão, Sócrates e Casagrande; Muller(Marinho do Bangu), Careca e Sídnei(Éder). Alemanha: Schumacher; Herget, Brehme, Jakobs(Buchwald) e Briegel; Rolff, Matthaus e Magath; Thon, Mill (Grundel) e Rummenigge ( Allofs). Com Casagrande de camisa 10, seria demais vencer a Alemanha fora de casa.


