A papa que matou José Anselmo

A cidade olhava o mistério, mas desconfiava. Era como se um álibi, aparentemente perfeito, tentasse encobrir uma tragédia que, embora…

A cidade olhava o mistério, mas desconfiava. Era como se um álibi, aparentemente perfeito, tentasse encobrir uma tragédia que, embora parecesse familiar, não escondia totalmente a verdade. Restava, por entre as cortinas da casa da Rua Gonçalves Ledo 686, a ponta de um véu que teimava em agitar, num gesto discreto e intrigante, o sentimento coletivo da cidade. E um grito surdo a ecoar na alma popular para culpar a viúva, sempre tangido pelos ventos sombrios do ciúme e da vingança.

O sentimento popular se espelharia nos versos do cordel que circulou alguns meses depois como uma sentença precipitada a perdoar a copeira Josefa Viana dos Santos. José Anselmo era visto como um homem duro, acusado de agir com rigor como chefe dos Correios e Telégrafos, daí ser um alvo fácil. Ainda em Angicos, onde foi inspetor dos Correios, sofreu um grave atentado na sua casa como noticia o jornal A Manhã, do Rio, na edição de 4 de junho de 1929, atribuindo ao governo de Juvenal Lamartine a agressão contra sua vida.

Como também era fácil acusar a viúva. Ela, somente ela, preparava a papa de José Anselmo todos os dias. E fácil, pela coincidência de ter ingerido a mesma papa, explicar a morte da cunhada, Olívia Pinheiro. Solteira, morava na mesma casa, sobre quem a malícia ferina da cidade derramava a suspeita de ter um amor proibido e incestuoso com José Anselmo, seu cunhado e marido de sua irmã, Marfisa. É ali, na visão dos dois detetives cariocas, que se constrói um álibi quase perfeito.

O detalhe mais intrigante, daí a suspeita recair sobre Marfisa, a viúva, foram os sintomas de envenenamento também apresentados pela copeira Josefa Viana dos Santos que chegou a ser levada ao hospital, mas liberada logo em seguida sem risco de vida. Ora, se até a doméstica foi envenenada e diante da suspeita de um caso amoroso com a própria cunhada ou por sofrer grosserias dele, claro que a culpa sempre recaía mais sobre a viúva de José Anselmo, D. Marfisa. E assim viveu no disse-me-disse de toda cidade de uma Natal calma e fofoqueira.

Na edição do dia 8 de agosto de 1952 a Tribuna do Norte registra: ‘Prossegue em sigilo o inquérito dobre as morte do sr. J. Anselmo’. No texto, a notícia sobre a audiência na polícia agora ouvir a filha do morto, Irma Alves de Souza, acompanhada do advogado, Claudionor Telógio de Andrade, na presença de Onofre Lopes, então médico legista e do delegado de ordem social, José Emerenciano. Dia 10 a polícia informa: inquérito não encerrou e ouvirá outros nomes envolvidos.

As notícias mostram que a revolta não arrefece em momento nenhum no âmbito da família de José Anselmo. No folheto de cordel há o registro de que um dos filhos de Anselmo vem a Natal para levar ao Rio, onde morava, amostras dos restos mortais do pai submetendo a médicos cariocas para novos exames. Enquanto a polícia, em Natal, informa o cordel, examinava um pilão usado na cozinha da casa de Anselmo e teria constado que nele foi pilado o veneno usado para fazer a papa.

Afinal, quem matou José Anselmo? Toda a cidade perguntava. Mas, a exemplo das grandes histórias policiais, ficava uma dúvida sem resposta: a quem interessava sua morte? Só à sua viúva, como acusavam os que acreditam na vingança de Marfisa com ciúme da irmã e assim eram falsos o choro e o luto? Ou eram verdadeiros para os que assim desconfiavam que a morte fora tramada fora do interesse familiar? Mas, como, se foi com uma papa envenenada, feita na sua própria casa?

O mistério vencia as investigações locais. Mas, no dia 19 de agosto de 1953, mais de um ano depois, o jornal A Noite, do Rio, publica: ‘Cooperação da polícia carioca no esclarecimento do crime’. Por exigência, tudo indica, do sobrinho ilustre, senador Georgino Avelino, e já que o inquérito policial local nada apontara, vieram para Natal dois detetives da polícia carioca para as novas investigações: Tibúrcio Bezerra dos Santos e Oreste Jupiaçara Xavier. Exatamente onze meses depois, 25 de junho de 1953. Descobririam tudo? Ou seria mesmo um crime perfeito?

 

CORDEL O Duplo envenenamento Da Rua Gonçalves Lêdo Autor: Alceu C. Vasconcelos

A polícia examinando

Com mui cuidado o pilão,

Encontrando fragmentos

Tirou logo a conclusão

Ter sido ali triturado

O veneno da ação.

 

Depois, o Major Anselmo

Quando à mesa chegava,

Sua cunhada, também ,

Que ali já esperava,

Sentou-se para comer

A paga que lhe matava.

 

Logo que comeram a papa

Começaram a vomitar

E chamaram, logo, médicos

Que procuraram salvar,

Foram inúteis os socorros

Para a morte evitar.

 

Com poucas horas depois,

Nessa tremenda agonia,

O veneno violento

O organismo vencia,

Sem haver mais esperança

José Anselmo morria.

 

Os esforços da polícia

Pra descobrir os culpados

Foram com toda perícia

Embora sem resultados,

E ficaram os criminosos

Desses crimes perdoados.

 

Falha a justiça da terra;

Mas a Justiça Divina,

Desta, mais cedo ou mais tarde,

Pra quem matou determina

Uma sentença que vem

Para essa alma ferina.

 

Veio a polícia do Rio

Para o crime desvendar,

Detetives que conhecem

Pelo modo de olhar,

Obrigam ao criminoso

Facilmente revelar.

 

Esperemos os resultados

Da última investigação

Feita pelos detetives

Nessa espinhosa missão,

Confio que desta vez

Quem deve vai à prisão.

Esperei já muitos meses

Para esta história escrever

Citando os nomes de quem

Precisava aqui dizer

Quando tudo declarado

Eu torno a esclarecer.

 

Quem se julgar ofendido

Porque assim eu contei,

Não há razão para isto,

Matar ninguém eu matei,

O que aqui escrevi

Foi dos jornais que tirei.

 

Peço a quem se agravar

Que só me deseje bem,

Porque quem achar ruim

é criminoso, também,

dar impressão que no crime

alguma culpa ele tem.

 

Vou falar na empregada:

Essa, coitada, passou

Torturas para dizer

Quem o veneno botou

Dentro da maldita papa

Que duas mortes causou.

 

A nossa Polícia fez

Esforços pra descobrir

Aquelas mãos criminosas,

Não podem, jamais, fugir

Da Polícia que não cansa

Para o caso discernir.

 

Ah! Maldito mês de julho

De cinquenta e dois passado!

Aquele dia funesto

Ficou amaldiçoado

Quando esse duplo crime

Foi, então, realizado.

 

Qui, concentrado, peço

Ao nosso bom Criador

Pro irmão José Anselmo

Um Paraíso sem dor,

Pra esse que na matéria

Foi entre nós um pastor.

 

Ele, desincorporado

Desta matéria impotente,

Deve dar graças a Deus,

Este grande Onipotente

Que reserva um Paraíso

Para todo obediente.

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