A papa que matou José Anselmo

Os dois detetives cariocas, Tibúrcio Bezerra dos Santos e Oreste Jupiaçara Xavier, encontraram a cidade contaminada de versões e personagens.…

Os dois detetives cariocas, Tibúrcio Bezerra dos Santos e Oreste Jupiaçara Xavier, encontraram a cidade contaminada de versões e personagens. Dos políticos aos advogados, de policiais a jornalistas. Pediram nova exumação dos cadáveres diante do Dr. Manoel Ferraz, o delegado da divisão de polícia técnica que logo regressou ao Rio. Aqui, ficaram os policiais e um mistério: Irma Alves de Souza era a autora do envenenamento do pai e da tia a pedido da sua mãe, como afirmou a polícia local no seu inquérito?

Sim, foi esta a conclusão do inquérito local. Está no relatório dos dois detetives, transcrito, na íntegra, em ‘Farsantes…’ publicado pela Companhia Brasileira de Artes Gráficas – Rua do Riachuelo, 128, Rio de Janeiro, sem data e possivelmente impresso logo depois de julho de 1954, data de conclusão do relatório. Tibúrcio e Oreste não acreditaram e passaram a ver e ouvir a cidade com outros olhos e ouvidos. Foram ver e ouvir os gestos e ruídos que antes, estranhamente, não interessavam a ninguém. Nem à polícia local.

Não demorou muito, os policiais cariocas perceberam que poderiam estar diante de um crime com todos os elementos de um caso clássico, planejado com requinte, mesmo numa cidade nordestina, longe dos maiores centros e da grande literatura policial. Um crime que parecia ter autor material – a viúva e sua papa que somente ela preparava para o marido; duas mortes, uma delas da cunhada, por quem o morto nutria um amor proibido; e o interesse na morte de traidor e da traidores do amor de Marfisa, num álibi absolutamente perfeito.

A primeira conclusão contundente do relatório está no desmonte total da imputação do crime a Irma, filha de José Anselmo. Para eles, não simulou seu próprio envenenamento como álibi para despistar a polícia. Por isso faz críticas nominais aos depoimentos dúbios dos médicos Demétrio Viveiros, José Ivo e Crezo Bezerra de Melo e elogia a objetividade clara dos médicos José Afrânio, Luiz Antônio Souto Lima e José Francisco da Silva que facilitaram ‘a tarefa da investigação’.

Ainda em relação a Irma, afirmam não ser verdadeira a versão corrente na cidade de que estava desgostosa com o pai por proibir seu namoro com ‘o senhor Kerginaldo Trigueiro’: ‘Em torno dele houve uma fantasia meio ridícula, apenas com objetivo de induzir a opinião pública’. E afirmam: ‘Amor que se existe, é sui generis, porque nem Irma nem Kerginaldo o confirmam’. E concluem: ‘Pelo depoimento dos médicos creio excluída hipótese de simulação de envenenamento da srta. Irma’.

E o relatório avança a partir de uma constatação clássica: ‘Todo crime ao criminoso interessa, portanto todo crime tem seu móvel’. Não é o caso de Irma. Se não é, a pergunta ainda esperava uma resposta, única capaz de elucidar o mistério: a quem interessaria matar Anselmo? Ele estava indicado a voltar à direção dos Correios e havia uma forte corrente política contra sua volta. ‘Encontrei no meio dos seus inimigos homens sinceros e homens covardes. Entre eles encontrei motivo que poderia servir para levar alguém a praticar o crime’, concluem os dois detetives e, por isso, um fato que logo descarta por ser nascido de questões muito antigas.

Segundo ainda o relatório, no dia do crime, ‘das 18 às 22 horas, o telefone da família Anselmo não funcionou’. E pergunta: ‘Teriam sido os autores intelectuais do crime que interromperam o sistema de comunicações telefônicas para dificultar o socorro?’. Não houve defeito, confirmaram junto à empresa telefônica. Mas pode ter com linha ‘ocupada’ para não receber ligações. E foi constatado um ambiente conturbado nos Correios, como se alguns temessem o rigor de José Anselmo, caso ele viesse a reassumir a direção da instituição.

O relatório registra um encontro com Djalma Maranhão, à época, diretor do ‘Jornal de Natal’ que insinua uma farsa montada pela polícia para ‘lançar toda a responsabilidade do crime sobre a criada Josefa’. Acusa os detetives contratados no Rio de Janeiro, pela família da vítima – de Anselmo, no caso – contrariando cinicamente as peças do processo procurando torcer a verdade dos fatos’. No relatório dos novos investigadores Djalma Maranhão é apontado como faccioso e, bem mais grave, de tentar acobertar o crime.

Os detetives estranham que Djalma soubesse de tudo da investigação e a direção tomada a partir deles. Neste ponto, o relatório cita pela primeira vez de forma incisiva Mário Almeida: ‘A primeira informação que obtive de Mário Almeida foi de que ele era inimigo do sr. José Anselmo e que em fevereiro de 1952, quando ficou sem efeito o retorno da vítima – Anselmo – ao Departamento de Correios e Telégrafos, ele, Mário, nas imediações daquela repartição, agrediu disfarçadamente a vítima com bombas…’ .

Informa, ainda, que logo depois da morte de José Anselmo, Mário e família saíram de Natal e só voltaram quando ele, a mulher e o filho – Mário Almeida Filho – foram nomeados para os Correios, mas que Mário, o pai, não aceitou o cargo por ser inexpressivo, ele que desejava o lugar de inspetor, como Anselmo tinha. As suspeitas foram levadas pelo detetive ao ‘doutor José Emerenciano, delegado de Ordem Política’ que explicou as razões de não ter tomado as providências, sem, no entanto, revelar quais teriam sido. Proteção política?

Tratado no relatório como ‘um indivíduo perigoso e homicida’, sobre Almeida há acusações, locais e no Rio de Janeiro, daí a suspeição em torno do seu nome como autor intelectual da morte de José Anselmo. Quando viram nele o suspeito, os detetives o convidaram para ‘uma palestra’ no Grande Hotel. Queriam sentir seu ‘comportamento psicológico. Dele a impressão que ficou, registra o relatório, é de ‘um homem medíocre, inculto e imprevidente’: ‘Quando citamos a pessoa e a morte do sr. José Anselmo, vimos em Mário Almeida a reação de culpa e insinuações e característica dos criminosos’.

Para os detetives, o crime político não apresenta mistério. O assassino mata alguém para se projetar no lugar de quem matou ou o faz para libertar seu povo da opressão. Não é o caso da morte de José Anselmo, reconhecem. ‘O homicida desse tipo não intelectualiza o crime, executa-o, obedecendo a uma direção mais inteligente ou serve de ligação entre o executor e o mandante quando a execução não pode ser consumada por si’. E fixa Almeida como o mandante. E a seguir: ‘A execução do crime praticado na família Anselmo teria ficado a cargo da copeira Josefa Viana dos Santos e da cozinheira Maria de Lourdes com a cumplicidade do indivíduo Cícero dos Santos’. Elas apenas executaram. Foi Mário Almeida o único mandante? E sem proteção política de ninguém? Nunca s e soube. O relatório não faz referência.

E acrescentaram, os detetives, sobre Josefa, informados pelo Dr. Sérvulo Pereira – dono das terras onde ela foi criada: ‘Disse-nos Dr. Sérvulo ser Josefa de índole má’. Contou também, por ouvir da irmã de Josefa, Severina Viana dos Santos, que ela, Josefa, ‘era péssima filha’. Ouvida, Josefa não assumiu sua participação no crime e mostrou-se ‘confiante na proteção de alguém’. Por que Josefa não teria posto arsênico na papa? Porque a papa era feita por D. Marfisa, de preparo rápido, não daria tempo para adicionar o arsênico, daí ter sido misturado aos ingredientes, à farinha de trigo, o açúcar e a canela, num disfarce perfeito para culpar Marfisa, a patroa. Ela declarou também ter sido intoxicada pela papa, mas não foi atendida por nenhum médico. O relatório é encerrado com a data do dia 8 de julho de 1954.

No livreto ‘Farsantes… ‘, antes na folha de rosto – a publicação integral do relatório da polícia do Rio – uma nota sem autoria, acusa a polícia de ‘inépcia’ e ‘chefiada pelo servil Major Ulisses Cavalcanti’, num aviso que revela, por si só, a revolta da família de José Anselmo diante da impunidade. E fecha citando o valente José da Penha, seu irmão: ‘Cumprimos, porém, o legado de J. da Penha: desmascarar e combater os patifes, onde quer que se encontrem ou sejam quais forem os altos cargos do governo que ocupem’.

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