A papa que matou José Anselmo

Ali pelo meio dos anos sessenta ainda perambulavam pelas ruas e becos do Grande Ponto os últimos fantasmas anônimos contando…

Ali pelo meio dos anos sessenta ainda perambulavam pelas ruas e becos do Grande Ponto os últimos fantasmas anônimos contando a história de um crime que mexeu com as entranhas políticas e sociais da Natal calma e boa daquele tempo. Uma tragédia misteriosa que tirou a vida de um ex-diretor dos Correios e Telégrafos e sua cunhada, vítimas de uma papa envenenada com arsênico e escondida num álibi perfeito, como se tudo não passasse de um caso de amor sofrido ou passional.

Uma história tão forte e envolvendo tantos mistérios que acabou sendo registrada não apenas pelos jornais da época em noticiários cheios de insinuações e reticências, mas também dois folhetos que transformam o enredo em tema de domínio popular: o cordel ‘O Duplo Envenenamento da Rua Gonçalves Ledo: a Papa’, de Alceu C. Vasconcelos, e ‘Farsantes… ‘, este impresso no Rio com um subtítulo que revela a suspeita da família: ‘Porque não se descobre os assassinos de José Anselmo’.

As duas publicações, hoje raras, não estão datadas. Circularam clandestinamente, de mão em mão, entre os anos de 1953 e 1954, como pode ser inferido dos textos. O primeiro, com trinta e duas sextilhas de rimas alternadas, bem no talhe da literatura de cordel, numa fabulação que conta toda a história, segundo a versão popular e anônima colhida nas ruas; e, no outro, a transcrição, na íntegra e sem acréscimos, do relatório dos dois detetives trazidos do Rio para desvendar o grande mistério.

Um detalhe justifica a relevância do caso: José Anselmo Alves de Souza, envenenado pela papa, é um dos seis filhos que alcançaram a idade adulta do casal José Francisco Alves de Souza e Maria Ignácia Teixeira de Carmo, pais do jornalista Pedro Avelino, casado com Maria das Neves Alves de Souza e pais do senador Georgino Avelino. Como se não bastasse ser irmão do grande José da Penha é tio, portanto, do senador Georgino que governou o Estado como seu interventor.

Quem consultar o noticiário jornalístico daqueles dias seguintes à noite do dia 26 de julho de 1952, data do crime, vai encontrar na edição do dia 27, da Tribuna do Norte, a notícia titulada com todo cuidado: ‘Lamentável tragédia, ontem, na residência do sr. José Anselmo’. Logo abaixo, e sem alarde, mais alguns detalhes em destaque: ‘Faleceram, vítimas de uma intoxicação, o ex-diretor dos Correios e Telégrafos e sua cunhada Olívia Pinheiro. O sepultamento será hoje às 16 horas’.

Na notícia seguinte, a Tribuna do Norte não consegue conter a força do mistério e registra a voz da opinião pública. A cidade começa a suspeitar de crime duplo com investigação sigilosa. E informa: ‘A opinião pública ficou, deveras, intrigada com a morte súbita do sr. José Anselmo e de sua cunhada D. Olívia Pinheiro, no sábado à noite, nesta capital, após haverem ingerido uma papa de farinha de trigo’. A seguir admite pela primeira vez ser crime por ingestão de ‘veneno violento’.

O texto informa que na noite do crime a polícia apreendeu o resto da papa nos pratos sobre a mesa, açúcar, farinha de trigo e canela, ingredientes com os quais era preparada a papa. Um detalhe levanta a suspeita quando informa que a papa era sempre ‘preparada pela esposa de José Anselmo’, informa a Tribuna com base no que ouviu da polícia e que ela ‘sempre cuidava de sua alimentação’. O material foi enviado à polícia de Recife para exames toxicológicos indispensáveis à investigação.

Mas, antes de remeter a Recife as amostras do açúcar, farinha de trigo e da canela, a polícia local fez uns testes com pequenos animais. Foram dadas amostras dos ingredientes na comida, e todos morreram. Para as fontes policiais, não mencionadas, ficava evidente que o veneno fora adicionado aos ingredientes. E mais: fica demonstrado que houve um crime duplo e a grande suspeita D. Marfisa Pinheiro, mulher de Anselmo, aquela que todo dia preparava a sua papa. Será?

 

CORDEL O Duplo envenenamento Da Rua Gonçalves Lêdo Autor: Alceu C. Vasconcelos

Já arranjei permissão

Para este história contar:

Está tudo desvendado,

Eu, agora, vou mostrar

Os verdadeiros autores

Das mortes que vou falar.

 

Eu descrevendo a verdade

Nunca tive nenhum medo,

Por isto neste livrinho

Ei desvendo este segredo:

O duplo envenenamento

Da Rua Gonçalves Lêdo.

 

Abalou toda a cidade,

O povo todo a falar:

Morreu o major Anselmo,

Um cidadão exemplar,

E também sua cunhada

Que a morte veio a buscar.

 

Eles comeram uma papa

Que bem adicionada

A farinha com arsênico

Foi a papa preparada

Por essa mão criminosa,

Alma negra, tão malvada!

 

A medicina provou

Com seu estudo sereno,

Exames minuciosos,

Peritos neste terreno,

Constataram que na papa

Existia esse veneno.

 

Também preciso falar

Em quem preparou a papa:

Segundo diz a polícia

Que dela ninguém escapa

Ou mais cedo ou mais tarde

Todo crime desencapa.

 

Não tenho culpa em contar

Um crime que já provaram

E as próprias criminosas

Seus gestos denunciaram

Perante as autoridades

Sempre negando, contaram.

 

Oh! Santo Deus Poderoso,

Peço para as criminosas

Uma sentença que faça

Essas almas tenebrosas

Deixarem de serem irmãs

Das almas sãs, virtuosas.

Nos nomes das criminosas

Eu tenho escrúpulo em falar,

Vem-me a repugnância

Quando começo a pensar,

Antes desta natureza

Eu não sei classificar.

 

 

Naquele dia fatídico

O povo se aglomerou

Em frente à casa da vítima,

Invadiu o bangalô

Todo parente e amigo

Do morto se aproximou

 

Ali estavam as criminosas

Simulando desesperos,

Acompanhavam os prantos,

corações vis! traiçoeiros!

Tiraram a vida de quem

Deu-lhes os ensinos primeiros

 

Era o major José Anselmo

Cidadão dos nossos meios,

De uma família ilustre,

Ex-diretor dos Correios

De um passado brilhante

De um futuro de anseios.

 

Falando em sua cunhada,

Essa inditosa senhora,

Que também comeu a papa

Para chegar sua hora

E caminhar para onde

Deus determinar agora.

 

Para um estudo completo

O filho veio buscar

Os restos mortais do pai

Pra no Rio examinar

Pois os médicos interessados

Precisam isso estudar.

 

Abriram o túmulo da vítima

Com a maior precaução

E tiraram o esqueleto

Já em decomposição

Pois a medicina quer

Fazer investigação.

 

Leitores, naquele dia

Do crime premeditado,

Em um pilão dessa casa

O veneno foi pilado

E depois com a farinha

Foi no fogão preparado.

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