Do papiro à nuvem

Por Anna Verônica Mautner   Não é mais simplesmente uma biblioteca nem sequer dados armazenados em um computador. Essa tal…

Por Anna Verônica Mautner

 

Não é mais simplesmente uma biblioteca nem sequer dados armazenados em um computador. Essa tal de “nuvem”, a mais nova entidade da cultura, o mais novo lugar do saber, conteria, por definição, tudo o que já foi posto em palavras. Será?

Mesmo que eu não tenha acesso à completude do conceito de “nuvem”, ou “cloud”, em inglês, como é mais conhecido, talvez porque nem tenha sido completamente esgotado, posso concluir que se associa à dinâmica de um pecado mortal: o da ganância.

Tudo deve ter começado nas folhas de uma planta (papiro), na verticalidade e porosidade das pedras e do barro. Tudo para guardar, para não perder, não esquecer. A acumulação tem como função dar conta do nosso medo de perder.

Esse temor praticamente domina a nossa relação com o mundo. Quero guardar, mesmo não sabendo por quê. Quero ter à disposição todo o necessário para enfrentar o imprevisível. Não quero sentir falta.

Uma vez me contaram a história de uma senhora que nunca jogava nada fora, muito menos o que não era perecível. Tanto acumulou que acabou morando num dos carros que também mantinha em seu quintal.

Na casa, não cabia mais nada. Os vizinhos acabaram intervindo, temendo uma possível peste (rato, barata, aranha). Acumular, de fato, em certos casos, pode se tornar uma questão de saúde pública.

No campo do pensamento, temos as enormes bibliotecas, cujo orgulho é conter o máximo de ideias possíveis, organizadas de tal forma que sejam acessíveis. Para tanto, existe uma ciência, a técnica de arquivar.

Evitar o desgaste, não deixar apodrecer, lutar contra a decadência das estruturas da natureza ou mesmo das imagens parece ser uma das funções do que chamamos de “nossa sociedade”. Essa função faz história, que é a matriz do homem. Enquanto sociedade, somos a resultante da interação dinâmica de todo o saber que guardamos.

Todas as culturas guardam e transmitem a sua sabedoria. Nós, no Ocidente, fomos além: chegamos à “nuvem”. O saber guardado, o saber que não se reproduz, que não contamina nem é contaminado, em caso de, em algum dia, ser útil.

Em qualquer biblioteca particular, podemos encontrar mais de “não lido” do que de “lido”. Para quê? Para termos à disposição informação de que eventualmente, um dia, porventura, podemos precisar. Não estou falando de biblioteca enfeite –falo também dos livros que são instrumentos de ganha-pão. No papiro, na pedra, na biblioteca, na “nuvem”…

Nisso tudo está… O que mesmo? Será o saber? Será a cultura? É um rito de sobrevivência, com certeza. Educação é dominar esse saber todo ou ser informado tão somente de que ele existe? Não sei, não… Tenho certeza de que educação tem a ver com ter acesso, conhecer os meandros que levam ao saber.

Acumular, arquivar é diferente de assimilar. Tudo o que está na “nuvem”, sem a dinâmica da aquisição e da assimilação, não passa de informações, dados à procura de uma mente criativa que os coloque em novas conexões.

Cumpre à sabedoria integrar-se a uma máquina que a transforme. A mente humana tem esse poder fantástico de transformar arquivo em cultura. (AVM, na Folha de S. Paulo)

 

Vai assim mesmo

O ministro Garibaldi Filho e o deputado Henrique Alves estão cientes do quão difícil é convencer as bases do PMDB a assimilar a candidatura de Fernando Bezerra ao governo. Mas estão decididos, pelo menos por enquanto, a defender a indicação.

Dois perfis

Um argumento favorável ao nome de Fernando Bezerra é que algumas lideranças entendem que no momento ele não empolga como candidato, mas que em iniciada a luta e uma possível vitória, sabem que pode se tornar um grande gestor do estado.

Kassab e Rui

O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, vai dizer ao seu homólogo do PT, Rui Falcão, que seu partido prioriza a candidatura de Robinson Faria ao governo do RN e tem total interesse numa dobradinha com Fátima Bezerra para o Senado.

Crise

As lideranças do PMDB nas duas casas do Congresso Nacional estão agitadas feito siri numa lata por causa da banana que Dilma Rousseff vem dando ao partido e pela assumida campanha petista para superá-los na composição das cadeiras do Senado.

Comunicação

Dilma Rousseff frustrou os militontos virtuais ao nomear um ex-jornalista da Veja e da Folha de S. Paulo para comandar a Secretaria de Comunicação Social no lugar de Helena Chagas. O novo secretário vai alinhar o Planalto com a grande mídia.

Perfil

O jornalista Thomas Traumann é formado pela UFPR e nasceu na cidade paranaense de Rolândia, filho de um alemão com uma americana. Está no Palácio do Planalto desde 2011, quando assessorou a Casa Civil na gestão do então ministro Antonio Palocci.

Roda Viva

Será na próxima segunda-feira a entrevista do ex-delegado da PF, Romeu Tuma Jr., ao programa Roda Vida, da TV Cultura. Vai responder perguntas relativas ao livro recém-lançado que revela fatos vergonhosos e criminosos de Lula e de boa parte do PT.

A companheira

A mulher do mensaleiro Delúbio Soares, Mônica Valente, é a chefe do escritório brasileiro da ISP (Internacional do Serviço Público), versão sindical da famigerada Internacional Socialista que reúne partidos comunistas e socialistas do mundo todo.

Dinheiro

Uma espécie de atravessadora na relação entre sindicatos de barnabés e organismos internacionais como a Organização Internacional do Trabalho, Valente recebe um euro para cada filiado da entidade. Dizem que ninguém audita as contas da ISP.

Visita

O advogado e jornalista caicoense Augusto Ariston, cidadão carioca desde os anos 1960, chegou ontem para curtir uns dias do verão de Natal. Em novembro tive o prazer de prefaciar seu mais recente livro, “O Charuto Mágico”, da editora Leo Christiano.

Descoberta

Uma narração de um texto do escritor galês Dylan Thomas, na voz dele próprio, foi encontrada esta semana na Inglaterra. Gravada nos anos 1940, a fita está sendo mixada para ser veiculada em programação especial da rádio BBC 3, filiada à grande rede.

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