Partos cesarianos no Brasil chegam a quase 90% na rede privada

Percentual recomendado pela Organização Mundial de Saúde é de 15%

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Marcelo Lima

Repórter

No Brasil, 52% dos partos são cesarianos. Foi o que constatou a pesquisa Nascer no Brasil da Fundação Oswaldo Cruz, divulgada nesta semana. Nas maternidades privadas, esse percentual é ainda maior, 88%. Os dados são preocupantes, uma vez que a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que apenas 15% dos partos devam ser cesarianos.

Para discutir essa questão, a UFRN montou uma mesa-redonda na última sexta-feira (30), na qual a expositora foi a professora Lígia Moreiras Sena da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Além de bióloga e doutora em farmacologia, Lígia é uma “Cientista que virou mãe”, nome do blog que mantém em defesa da humanização do parto.

Apesar dos números distantes de uma realidade ideal, a professora acredita que o Brasil está em rota de mudança. “Acho que está no caminho de outros países que já conseguiram reduzir suas taxas. As mulheres no Brasil estão indo para rua agora, mas no Canadá isso foi há 30 anos com essas mesmas palavras de ordem, ‘O corpo é meu'”, comentou.

Na sua visão, o movimento que luta pela humanização do parto já conseguiu pressionar o Estado brasileiro suficientemente a ponto de criar a Rede Cegonha, programa do governo Federal. “Agora a gente tem a rede cegonha, tem verba para a construção de centros de referência e casas de parto que funcionam com outro modelo, centrado no cuidado”, disse.

Da pesquisa divulgada esta semana, a docente se revolta mais com a diferença entre o percentual de mulheres que manifestaram a vontade de ter parto normal no início da gravidez – 70% das entrevistadas – e as concretizaram esse desejo. “Dessas, mais de 50% fazem parte cesariano. O motivo que os médicos dão é a preferência das mulheres, mas as pesquisas mostram que não. É por comodidade médica mesmo”, declarou Sena.

Conforme a professora doutora, a cultura da cesariana expõe mãe e filho a intervenções desnecessárias e a violência obstétrica. Lígia Sena defende que esse tipo de violência seja considerada crime. “A tipificação criminal da violência obstétrica é para forçar essas pessoas a se atualizarem. Quando os médicos perceberem que uma medicina baseada em evidências os protege, eles mudarão o comportamento”, argumentou.

No entanto, ela ressalva a conjuntura pressiona os profissionais para o caminho mais rápido. “O culpado é o sistema que empurra todos esses sujeitos a fazerem o que estão fazendo. Os profissionais também estão expostos a todo tipo de violência institucional”, destacou a professora.

Economicamente inviável

Não raramente, o motivo para a realização de partos como em uma linha de produção é financeira. Durante a mesa-redonda, a enfermeira Nívea Jerônimo, da Maternidade Escola Januário Cicco, expôs situações protagonizados por obstetras. “Um chegou para mim e disse que esse tipo de parto não era ‘economicamente viável’, relatou.

É por este motivo que o percentual de partos cesarianos é maior na rede privada. Mais partos em menos tempo, mais lucro. Muitos profissionais não querem desperdiçar até 30 horas de seu tempo à espera de uma criança em partos naturais. Pelo SUS, um obstetra recebe R$ 175 por um parto normal e R$ 170 por cesarianas.

Na sua experiência, a enfermeira Nívea Jerônimo conseguiu identificar que o medo da mulher em ter parto normal não é receio do processo fisiológico. “As mulheres que dizem ter medo de parto normal, na verdade, tem medo do parteiro. Elas contam histórias de terror do parteiro, seja ele médico ou enfermeiro”, acrescentou.

Cientista que virou mãe

Lígia Sena teve sua primeira filha em 2010. A experiência materna a levou posteriormente ao doutorado em Saúde Coletiva. Antes, Sena fazia um pós-doutorado em Farmacologia, que deixou depois de seis meses. Todo o período de gravidez foi compartilhado com internautas no blog “Cientista que virou mãe”.

Sua intenção era ter um parto domiciliar planejado, mas não foi possível. Ela teve que recorrer a uma maternidade em Santa Catariana. “Uma das maternidades mais cesaristas do Estado”, classificou. No entanto, quando chegou à unidade, com 25 horas de trabalho de parto, teve uma surpresa: a maternidade havia preparado uma sala em condições mínimas para um parto humanizado com luz baixa, bola de pilates e outros recursos.

Isso tudo porque uma enfermeira que a acompanhava também trabalhava na maternidade e havia preparado tudo caso o parto domiciliar não desse certo. Até mesmo a obstetra que havia lhe destratado no pré-natal, estava disposta a esperar o tempo do parto. “Fui muito violentada no meu pré-natal por essa obstetra. Ela disse uma vez ‘olha, acho melhor você se acostumar porque toda mulher na primeira gestação perde o bebê’. E eu só estava com um simples sangramento”, contou.

No final das contas, Lígia ficou 30 horas em trabalho de parto até o momento em que a obstetra identificou que os batimentos cardíacos da criança começaram a diminuir. A saída foi a cesariana. Pela demonstração de que tinha convicção sobre as suas escolhas, a professora acredita ter modificado um pouco a equipe. “Acho que consegui contaminar todos aqueles profissionais, do neonatologista ao anestesista. E isso só é possível quando se tem informação”, ressaltou. Do nascimento ao final da internação na maternidade, sua filha esteve o tempo todo ao seu lado, como se preconiza em partos humanizados.

 

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