Passeio da verdade

A verdade resolveu visitar 2013 no último final de semana e sua passagem ligeira e derradeira teve efeitos devastadores. A…

A verdade resolveu visitar 2013 no último final de semana e sua passagem ligeira e derradeira teve efeitos devastadores. A verdade separa e esclarece. Distorce para deixar claro. Aplica suas leis tortas para deixar as versões bem retas.

A escala do voo da verdade parou no ex-Maracanã reformado e com pompas de arena. O Maracanã de hoje não tem geral, crioulo desdentado e por dentro é igualzinho à Fonte Nova em Salvador no Padrão Fifa de luxo acima do jogo na essência.

Era a pelada de fim de ano de Zico, o homem que me apresentou criança aos efeitos especiais criados no então revolucionário e insosso cinema de ficção científica. Zico fazia toda quarta e domingo muito mais do que os atores e monstrengos de Jornada nas Estrelas ou de 2001, a Odisseia no Espaço, tão distante naquela segunda metade da década de 1970.

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Zico tornou-se rei de um estádio que trazia no grito das massas a magnitude de uma partida em 90 minutos. Tempo dos arquibaldos e geraldinos, os suburbanos que enchiam ônibus e trens para assistir o ídolo de todos destruir defesas com sutileza e explosão artística.

A verdade é capaz de repor o passado, nos colocar dentro do Túnel do Tempo, seriado vesperal bem Zico e que depois seria o nome de um quadro do programa global Vídeo Show. Juro, sem pecar, que não sei se ainda passa Vídeo Show.

Zico passou de novo. Pela última vez segundo ele, aos 60 anos e joelho em frangalhos. Zico se queixa de dores físicas próprias da idade. O joelho quem assassinou foi um zagueiro criminoso chamado Márcio Nunes, do Bangu, em 1985. Aos 15 anos, não esqueço e nem perdoo.

Uma das agressões mais brutais desde que Charles Miller chegou ao Brasil dizendo que inventava o futebol.

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Zico fez de sua pelada um presente verdadeiro aos quarentões, aos caras maduros e grisalhos de uma geração sem Copas do Mundo e lotada de craques. Zico fez um gol de máquina de costura humana.Zico driblou todos os zagueiros e o goleiro do time adversário como se estivesse desfilando.

Abriram uma passarela para ele repetir lances fatais que nos deixavam boquiabertos e enlouquecidos. Zico em seu último recital, que tomara se repita no fim de 2014, porque a verdade afinal é capaz de transformar a mentira em pretexto, abriu sua caixinha de músicas e o novo estádio descobriu, solene e de olhar patético, que o futebol brasileiro estava naqueles velhinhos.

Zico, Romário, Adílio, Júnior, Tita, fabuloso em um lençol peladeiro sobre Renato Gaúcho, ensinaram à molecada que a bola nasceu para ser bem tratada e a mídia não fabrica os melhores. É a verdade dos que já nascem prontos.

Zico, Adílio, Romário, meu deus, quem não sonhou com esse trio em marcha ofensiva? De toques rápidos, inteligência comum, antevisão do pensamento um do outro, criação e destino terminando em gol. Júnior fabuloso e artesão da arquitetura de jogadas, pagodeiro de praia, fazendo embaixadinhas.

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Eis a verdade que junta para diferenciar. Os gênios dos bagres. Os antigos dos atuais. Durante uma tarde, a verdade pôs-se a provar que a fantasia das feras, encabeçadas pelo Zico de sempre, foi embora para deixar nas telas e pacotes de transmissão por assinatura os horrendos atropeladores, ridículos exemplares de uma safra perdida.

Ri muito ao ver Hernane, o Brocador, Emerson, o Sheik, Walter, o Fat Artilheiro do Goiás, perdidos, desolados e deslocados, batedores de bumbo diante de compositores afinados. Coitados dos três celebrados e celebrizados todos os dias pela mídia. Brocador perdeu um gol depois de um passe de Zico, de calcanhar na pequena área. Deu piedade, sentimento ocasional do período de fim de ano.

Brocador foi chamado para uma jogada que ele desconhece, pobrezinho. O famoso um-dois. O habilidoso toca para o malandro, passa e recebe sozinho. Adílio lhe fez o convite em cartão estilizado. Brocador não entendeu. Nem poderia. Romário, com toda marra, fez três ou quatro e ensinou a Brocador como é que se faz diante de um goleiro. É ficar frio, hipnotizá-lo e bater de biquinho. Brocador saiu cabisbaixo do gramado onde hoje é ovacionado.

O mais lindo da verdade é a pureza do talento. O encontro transcendental de Zico e Ademir da Guia. Um contra o outro na formalidade. Um e o outro. Dois exemplares natos do camisa 10 sepulto nos gramados brasileiros. Ademir da Guia, aos 71 anos, Rei da Academia do Palmeiras nas décadas de 1960 e na seguinte, parecia uma criança, grata, feliz e tímida, pelo convite.

Seus trinta minutos em campo revisitaram o Canal 100, aqueles cinco minutos de cinema com os melhores momentos dos clássicos épicos do Brasil Tricampeão do Mundo. Ademir da Guia mostrou na prática a malícia do “esconder a bola”, tão própria dos virtuosos criativos.

Deu três abraços em Zico. Zico menino que ia vê-lo jogar quando o Palmeiras passava pelo Rio de Janeiro. Acabou, não tem mais. A verdade é que o futebol brasileiro belo e sanguíneo morreu. Queiram ou não os teóricos da banalidade. A verdade que sobra.

 

Anderson Silva
Lamentável a fratura no lutador Anderson Silva. Que já deveria ter pedido para sair no primeiro round, quando levava uma surra – a segunda – descomunal do americano. Apanhou mais do que tambor de macumba.
 
O brasileiro
Teve pena de Anderson. O brasileiro é um egoísta. Quando o Spider vencia tripudiando dos seus adversários, fazendo mogangas e se pendurando em saltos ornamentais, ninguém lembrava dos vencidos.

Arrogante
Anderson Silva é oposto de desportista. É arrogante nato. Feito os semelhantes, enfrenta a mais infalível das legislações: A Lei do Retorno. Saber perder não é o certo. É saber ganhar. Anderson Silva nunca soube. Ele triunfava e humilhava. Hoje – fora o triste acidente que gerou seu machucado – é um homem que sente o amargor do revés.
 
Redes sociais
Estava fora das redes sociais, mas não me contive. Torci por Chris Weidman. Tenho queda pelos humilhados. Os admiradores de Anderson imitavam sua postura, presunção da glória e da revanche. Revanche que ele assistirá na série da protagonista Amanda Clarke.
 
STJD
Ontem um gaiato me telefonou e perguntou. Eu não soube responder: Tem STJD no UFC?

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