Patrocinador da Fifa cria operação de guerra para se esconder na Copa

Os convidados devem chegar muito cedo ao estádio, tentando evitar o horário de pico e eventuais protestos com maior concentração de manifestantes

Caixas eletrônicos destruídos durante a Copa das Confederações. Foto: Divulgação
Caixas eletrônicos destruídos durante a Copa das Confederações. Foto: Divulgação

O que era um desejo de milhões de dólares, virou um pesadelo. Pode parecer contraditório, mas a maioria dos patrocinadores da Copa quer distância do evento em ruas e estádios brasileiros.

Tudo começou, claro, na Copa das Confederações. Protestos violentos nas ruas e saias justas jamais imaginadas por marcas mundiais que por anos apostam no investimento garantido de estar associado ao principal evento esportivo do mundo.

Na segundo jogo da Copa das Confederações, no dia 19 de junho de 2013, um grupo de convidados VIPs (inclusive estrangeiros) de uma patrocinadora oficial da FIFA se viu no meio da ‘guerra ‘ no acesso principal à Arena Castelão, em Fortaleza. Foram obrigados a descer do ônibus, ficaram no fogo cruzado de manifestantes e policiais, alguns chegaram a tomar pedradas e sofrer com os efeitos de gás de pimenta. Ficaram sem apoio. Alguns tentaram voltar ao hotel. Outros tentaram chegar ao estádio. Tudo com muita dificuldade. E muito medo.

A mesma marca, traumatizada por essas e outras experiências vividas durante a competição em 2013, segundo apurou este blog, resolveu primeiro tirar o foco dos jogos, estádios e Fifa e migrar para o espírito esportivo e confraternização entre as nações. A campanha publicitária saiu das ruas e se concentrou no ambiente seguro da televisão. Depois, a marca reduziu suas ativações de marketing para a Copa, geralmente focadas em promoções em lugares públicos e nos estádios da Copa.  Estavam previstas quatro ações. Sobreviveram duas. E com uma série de restrições.

Os 6 mil convidados VIPs de uma outra patrocinadora que irão aos jogos da Copa terão segurança super reforçada, orientada por um central de operação de guerra, que vai medir riscos, contingências e planos B de ida e fuga dos estádios. O esquema vai se focar no relacionamento entre os convidados, e não no marketing. Isso quer dizer que os ônibus não serão identificados e os convidados não serão uniformizados, o que é comum em eventos desse porte. Não há as tradicionais cotas para jornalistas, apenas as de funcionários e clientes. O objetivo aqui é evitar que o jornalista conecte a má notícia à marca ou a cite em algum evento ruim associado à Copa.

Os convidados devem chegar muito cedo ao estádio, tentando evitar o horário de pico e eventuais protestos com maior concentração de manifestantes. Na saída do estádio, a ordem é avaliar a situação do lado de fora, e esperar pelo menos uma hora para retornar ao veículo ou se dirigir ao aeroporto, dependendo da logística escolhida. A palavra de ordem é planejar e ter alternativas na manga, pois não se tem certeza do que poderá  ocorrer no período.

O refrão é entoado em uníssono pelas marcas associadas à Copa. Algumas empresas que adquiririam ingrssos para ações de marketing de relacionamento decidiram não mais convidar clientes para os jogos e vão distribuir seus ingressos para funcionários da própria empresa. Procuradas por este blog, marcas não quiserem se pronunciar ou preferiram falar mantendo o anonimato.  Medo é uma palavra que eles evitam pronunciar. Preferem insegurança. Que aumentou ao verem as imagens da semana passada, quando 200 manifestantes cercaram o ônibus da seleção brasileira que deixava o hotel no Rio em direção a Teresópolis, onde estão concentrados.

Especialistas de segurança consultados por este blog vão além. O tradicional War Room (Sala de Guerra) adotado na condução de grandes estratégias de marketing ganha na Copa contornos mais dramáticos, com a presença de policiais, inclusive estrangeiros, e de tecnologia utilizada em zonas de conflito. “Como não sabemos como se comportarão as conexões telefônicas tradicionais, vamos utilizar aparelhos via satélite, inclusive criptografados. O pior que pode acontecer em um epísodio como esse é perder o controle do chamado C4I (comando, controle, comunicações, computing (sistemas) e informações”, informa Hugo Tisaka, diretor executivo da NSA Brasil, empresa de segurança que atenderá dois grandes clientes durante o período.

A corrida por segurança fez com que o preço de blindados dobrasse em São Paulo e Rio. Para jogos importantes em Belo Horizonte, por exemplo, não há carros disponiveis. Eles estão sendo “importados” da capital paulista. Nos radares do planejamento de segurança das marcas estão incluídos protestos próximos a aeroportos e também ataques físicos e virtuais a locais e sites relacionados e associados ao evento. Na semana passada, inclusive, e-mails e sistemas de dados do Itamaraty em todo o mundo foram alvos de ataques de hackers.

Há também uma preocupação com relação ao ataque de imagens de patrocinadores, como sinalização (banners, placas, balões), caixas eletrônicos e até orientadores com a roupa dos patrocinadores – alguns destes foram agredidos durante a Copa das Confederações.

A aura de conflito que orbita em torno da Copa não é de exclusividade de marcas. Embaixada e consulados britânicos, no início do ano, realizaram um simulado de emergência prevendo situações de caos no Brasil durante o período. O exercício chegou a enfrentar uma queda de avião em São Paulo, com a presença de cidadãos ingleses.

Toda a estratégia leva em conta o pior, mesmo que o pior não venha. É bom lembrar que na Copa das Confederações as circunstâncias eram outras, com grande parte da população nas ruas protestando com bandeiras generalistas, alavancadas pelo Movimento do Passe Livre. E mesmo assim, quando a bola entrou em campo e com o decorrer da competição, as manifestações sucumbiram.

Patrocinadores

A Copa da Fifa tem seis parceiros, oito patrocinadores e oito apoiadores. Os parceiros (Adidas, Coca-Cola, Hyundai/Kia Motors, Emirates, Sony e Visa) têm o mais alto nível de associação com a entidade e com todos os seus eventos, além da função mais ampla de apoio ao desenvolvimento do futebol no mundo todo, desde a base.

Os patrocinadores (Budweiser, Castrol, Continental, Johnson & Johnson, McDonald’s, Oi, Marfrig e Yingli Green Energy) têm direitos relativos à Copa das Confederações da FIFA e à Copa do Mundo da FIFA em escala global, com associação de marca, uso de recursos de marketing selecionados, exposição na mídia e ofertas de ingressos e hospedagem para os eventos. E os apoiadores (Fifa.com, ApexBrasil, Centauro, Garoto, Itaú, Liberty Seguros, WiseUp e Football for Hope), que devem ter raízes no país-sede de cada evento, podem promover uma associação no mercado nacional.

Fonte: Terra

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