Paulo Gustavo aborda universo feminino na peça “220 Volts”

Entra em cartaz no próximo final de semana em Natal; a adaptação teatral do programa do canal Multishow tem vendido ingresso feito pão quente no entardecer

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Lá no Youtube tem vários vídeos do programa 220 Volts, do canal Multishow. Foram três anos no ar (2011-2013), antes de virar peça teatral. Em ambos os formatos, o talento de Paulo Gustavo cristalizou a mistura de dramaturgia e stand up comedy. Um dos quadros, Biba’s From Brazil, simula debates sobre temas que circundam o universo homossexual. Para responder a pergunta “Nós, bibas, devemos nos misturar?”, a apresentadora Lagusta Vita (o próprio Gustavo) convidou Angelica Rios, Luane Stuart e Isabelê Xangai. A primeira respondeu: “Biba é biba, gente é gente, o resto é o resto”. No que Luane rebateu: “Ela tem essa opinião radical porque é feia”.

Paulo Gustavo tem 35 anos e, após enorme sucesso com as peças “Hiperativo” e, sobretudo, “Minha mãe é uma peça” (vista por 4,5 milhões de pessoas), ganhou a grande mídia com o papel do cabeleireiro Renée, na série da Rede Globo, Diva. Já na temporada de estreia de 220 Volts, ele mostrou que uma de suas características é o empenho ao trabalho, a ponto de gravar os 13 episódios em meros 18 dias. Nessa onda de humoristas que parece inacabável, o niteroiense pertence ao clube dos verdadeiramente talentosos. Outro quadro que vale boas risadas é Senhora dos Absurdos, em que uma socialite preconceituosa comenta assuntos cotidianos.

A bruaca dentuça, feito Dercy Gonçalves, detona música. Diz que a arte a faz lembrar coisas desagradáveis. Por exemplo, o samba. “Toda música remete a uma coisa que eu odeio. O samba, o samba eu gosto. Eu não gosto do sambista. Por que sambista geralmente ele é pobre, ele é favelado, ele é preto. Eu não gosto. É um direito que eu tenho. Eu não me sinto bem perto”. Já a MPB “é coisa de lésbica. A lésbica gosta da MPB, da poesia. A lésbica é chata”. Piadas agressivas, em uma época de mau humor generalizado. O natalense confere o repertório de Paulo Gustavo na próxima sexta-feira (07) e sábado (08), no Teatro Riachuelo, com shows que integram a turnê iniciada em maio passado.

São seis esquetes que, além da esnobe perua, têm personagens femininos como a bonitinha carente, a gostosa liberada, a feia autocrítica, a apresentadora de um programa para mulheres e uma mulata classe C. “O stand-up comedy é a moda do momento, e em cada esquina surge gente que se acha engraçada. Mas, claro, que tem gente boa. E o Paulo Gustavo é um deles. Ele conseguiu aliar interpretação cômica com um texto inteligente, articulado com fatos reconhecíveis tanto pelos personagens retratados, como para uma pessoa que convive com alguém daquele jeito. Eu mesmo conheço uma Senhora dos Absurdos”, diz Everaldo Gomes, publicitário fã de humor.

Ele pretende pagar entre R$ 40,00 e R$ 120,00 cobrados para ver 220 Volts. Título que aliás, condiz com a fama de ‘elétrico’ de Paulo Gustavo – um cara que atua, dirige, escreve roteiros e arranca sorrisos do público no teatro, no cinema e na televisão. A peça conta com mais atores e bailarinos, tudo para reproduzir a encenação que conta com cinco personagens do programa televisivo, um dos maiores êxitos da TV paga – em 2006, no monologo “Minha mãe é uma peça”, escrito e interpretado por Gustavo em homenagem a sua progenitora, a versatilidade apareceu com observações domésticas feitas por uma típica dona de casa de meia idade, sempre à beira de um ataque de nervos. A atuação lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Shell de melhor ator.

“E outro fato que merece menção é o novo poder do humor no Brasil. Ao mesmo tempo em que as minorias conquistaram direitos e abrem a boca quando são discriminadas, através das leis e dos canais de comunicação criados por e para elas, vemos que boa parte dos humoristas de sucesso fazem piadas ‘sujas’, ‘pesadas’ com gays, negros e pobres. Mas tem que ser inteligente, porque senão o processo come”, diz Everaldo. Paulo Gustavo domina o tempo da piada, uma das chaves para o humor dar certo ou errado – quem passa do ponto, ganha bocejos e caras feias. Tempo que passará rápido, até sexta que vem. Quem gosta de sorrir, precisa correr.

 

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