Peça “Razões para ser bonita” está em cartaz neste final de semana em Natal

Ideia é arrancar sorrisos e reflexões sobre a cobrança pela estampa perfeita

conr5

Conrado Carlos

Editor de Cultura

A quase quarentona nasceu em uma família de classe média alta, mas sempre relaxou nos estudos. Resultado: chegou à Idade da Loba com salário módico, em troca de um expediente entediante em uma secretaria municipal. O que sobra após pagar as contas mal dá para reabastecer o armário na C&A. Então, dívidas no cartão começaram a crescer, tudo em nome da cobrança desmedida que ela sofre para estar sempre na moda, escovada californianamente, com pele e cabelos impecáveis – pensa que só assim resistirá à influência do tempo. Feito uma adolescente, abundam fotografias em suas contas em redes sociais, com os selfies na dianteira. Remédios para depressão também são registrados na fatura.

O amigo leitor conhece alguma balzaca que se enquadra nesse esquema? Eu conheço, e digo onde você pode achar histórias ou situações similares, ou que, no mínimo, lhe recordarão que elas existem – aos montes. Nas noites de hoje e amanhã, no Teatro Riachuelo, a peça Razões Para Ser Bonita, do diretor João Fonseca, traz a ‘aparência’ no mundo moderno para o centro de uma das sessões dramatúrgicas mais exitosas do país, nos últimos anos. Com Ingrid Guimarães, Marcelo Faria, Gustavo Machado e Aline Fanju no elenco, o texto tem tudo para arrancar sorrisos e angustiar – se é que você me entende. Passagens com sucesso pela Broadway e pelo circuito londrino atestam a qualidade do que o natalense terá à disposição.

Uma ligeira sinopse fala de dois casais que partem do padrão de beleza vigente para tratar de seus relacionamentos. A cabeleireira Steph (Ingrid Guimarães) soube, através da amiga Carla (Aline Fanju), que seu namorado Greg (Gustavo Machado) acha seu rosto ‘apenas comum’. Isso é suficiente para o fim da relação, pois saber que ser algo menos que linda é a morte para muita mulher – com direito a cena de vingança em público, com o safado nos braços de outra. Daí em diante, Greg amadurece, Steph tenta uma nova aventura amorosa, mas eles se reencontram. O sujeito conta à Carla que seu melhor amigo e namorado dela, Léo (Marcelo Faria), cheira cangotes alheios e as gargalhadas se sucedem.

Para o produtor da peça em Natal, Jorge Elali, a identificação do público é imediata. “Existe essa cobrança [da beleza 24h] no geral. Mas isso vai muito de cada um. Aqui no Brasil temos esse padrão de mulher gostosona, bonita o tempo inteiro. A peça discute isso com humor, que é uma característica da Ingrid, mas não é puro entretenimento. Ela faz pensar, refletir sobre essa questão”. Potiguar radicado no Rio de Janeiro há 12 anos, Jorge passou os últimos seis meses em negociação para trazer Razões Para Ser Bonita à Natal. “Começou mesmo dois anos atrás, quando eu vi a peça pela primeira vez no Rio. Como tenho uma parceria com a Ingrid há mais de sete anos, iniciamos as conversar naquele momento”.

Agendas coincidentes, tema atual e vontade do público local de fruir o teatro em todas suas vertentes. Casamento perfeito para a chegada da história dos dois casais que circundam a beleza com nossos olhos – a personagem Carla, por exemplo, sofre por ser bonita demais. Olhos que, inclusive, observam o surgimento de fenômenos como o selfie, nada mais que uma obsessão frenética por exposição e elogios (para algumas, o silêncio sobre uma foto postada causa transtornos psíquicos). “O caso do selfie é que está na moda. Vai durar um tempo, mas muita coisa não é real. As pessoas querem mostrar que são bonitas, felizes, de uma forma fake”, diz Jorge que, como todo mundo, vê o volume de imagens autoproduzidas como um retrato do momento.

 

 

Compartilhar: