Pelé, Banks, Grohe – Rubens Lemos

Em 1970, Pelé resolveu se despedir de Copa do Mundo ganhando o tricampeonato e esbanjando. Demolindo dúvidas teimosas e pontuais,…

Em 1970, Pelé resolveu se despedir de Copa do Mundo ganhando o tricampeonato e esbanjando. Demolindo dúvidas teimosas e pontuais, assinando a sentença eterna da supremacia. Em 1970, ele encantava pelo que fazia e não fazia. Jogadas magistrais e perdidas ficaram tão famosas quanto gols e passes memoráveis.

No México, estava em plena forma, maduro, exibindo a soma do menino ao desabrochar em 1958, mudando, com Garrincha, o destino de uma Copa do Mundo onde a taça valeu um título e a mudança de comportamento. O Brasil passava a ser potência e chutava a inferioridade do Vira-Latas, de medroso nas decisões, tão perfeita e cruel sentença do fantasma Nelson Rodrigues. Em 1970, o menino juntava-se ao homem na fase fundamental do equilíbrio entre experiência e explosão.

Oito anos antes, no Chile, a Copa de 1962 parecia o tapete andino para o desfile do Rei, em forma, aos 21 anos e já reconhecido como melhor do mundo. Uma maravilha goleadora e dominadora de todos os fundamentos da bola.

Uma fisgadinha na virilha contra os tchecos e Pelé assistiu nas cadeiras, no meio da torcida, Garrincha a jogar pelos dois e ganhar o bicampeonato, oferecido no calor das refregas de alcova para a diva Elza Soares.

Pelé era bicampeão mundial também de clubes quando o Brasil buscava o tricampeonato na Inglaterra/66 em meio a uma bagunça generalizada, 44 jogadores convocados, uma mistura heterogênea entre antigos e cansados campeões de 1958 e novatos inseguros.

O Negão, machucado na primeira partida, a última dele com Garrincha (o Brasil nunca perdeu com os dois juntos), ficou fora contra a Hungria na derrota por 3×1 e foi literalmente caçado pelos carniceiros portugueses, mancando, fazendo número (substituições eram proibidas) e vendo o moçambicano Eusébio arrasar a seleção brasileira com a preciosa colaboração do goleiro Manga.

Começaram a dizer que Eusébio destronara Pelé e um torneio internacional de clubes, logo após a Copa da Inglaterra mostrou que o devaneio não passava de ridícula inveja.

Pelé e o Santos destruíram o Benfica, hábito sempre que se encontravam, numa atuação magistral nos Estados Unidos, vitória por 4×0 e a certeza da imortalidade e da distância inalcançável entre o mito e os carnais.

Em 1970, decidido a ganhar a Copa do Mundo, nem que fosse sozinho, Pelé entregou-se à preparação física e atingiu o ápice do atleta além da lenda. Fez quatro gols. Todos autorais. Contra a Tchecoslováquia, a bola deslizou na descida do seu peito até o chute impiedoso e sem chance para Viktor.

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Classificada, a seleção jogou com alguns reservas contra a Romênia, que engrossou o jogo. Pelé fez dois, um deles de falta, bola cortando a barreira em curva e estabeleceu a normalidade. Na decisão, subiu como um Ébano de cinema e testou firme no canto direito de Albertosi, abrindo caminho para a surra de 4×1 nos italianos.

Desocupados perdem tempo em discussões estéreis sobre quem é o melhor de todos os tempos citando ótimos que nunca serão o insuperável singular de Três Corações. Só ele e apenas, é lembrado por peripécias que não resultaram em bola na rede e são tão marcantes quanto gols de placa.

Contra a Tchecoslováquia, o chute do meio-campo, pouco antes do círculo central, o goleiro Viktor correndo desesperado, a bola em obediência retilínea, descendo a milímetros da trave. Há, na expressão de Viktor, um maravilhado desespero.

Na semifinal diante dos uruguaios, 3×1 que assombraram o fantasma da derrota de 1950, Pelé extrapolou. Rebateu um tiro de meta com um balaço de peito de pé. Depois, correu, deu um drible de corpo, saiu de um lado, correu pelo outro e humilhou o soberbo goleiro Mazurckiewick. Chutou e a bola triscou a baliza.

O mais sensacional aconteceu contra a Inglaterra, no confronto entre os então campeões contra os futuros. Jairzinho vai à linha de fundo, cruza certeiro e Pelé sobe para executar um fuzilamento alado.

Bate para o chão e o goleiro Gordon Banks salta quase arrancando a bola, naquela considerada a maior defesa das Copas do Mundo. Um quadro imortalizado pela plasticidade.

O lance de Pelé e Banks volta a ser assunto quase 44 anos depois. No incontrolável e incurável exagero semanal das emissoras de televisão e dos portais de internet, estão comparando a defesa do goleiro do Grêmio, Marcelo Grohe, em cabeçada de Fred, centroavante do Fluminense e da seleção brasileira, com a posteridade atingida por Banks na pancada de Pelé.

Impossível e risível. Banks é o segundo melhor goleiro de todos os tempos (perde para o russo Yashin) e em 1970 era um homem reconhecido e respeitado pelos atacantes.

Grohe fez, sim, uma defesa difícil e arrojada. Ser comparado a Banks, nunca. Fred nem sonhando passa a dez mil oceanos de Pelé. Um nome que, dito em vão, significa pecado na crença passional do futebol.

 

Rodada

Em Goiás, desfalcado, o ABC tem tudo para ser defensivo contra o Atlético, em crise e com ambiente em frangalhos. Dos ausentes, o artilheiro Dênis Marques é o único a causar certo calafrio.

América x Ceará

É um jogo importante demais para o América o desta noite na Arena das Dunas. Está a três pontos do G-4 e, dependendo de outros resultados, uma vitória poderá deixá-lo no andar de cima. O Ceará sempre foi um adversário tinhoso, pela ofensividade e vibração.

Ganso

Desperdício. Quando acorda, é cracão. O problema é o sono eterno.

O tetra desenhado

Dia 20 de maio de 1973, final do primeiro turno do Campeonato Estadual, vitória de virada do ABC sobre o América por 2×1. Afonsinho abriu o placar para o América, Moraes empatou e Maranhão, de pênalti, fez o gol decisivo aos 44 do segundo tempo. Público no Castelão (Machadão): 37.776 pagantes.

Times

ABC: Erivan; Sabará, Edson, Quelé e Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes e Alberi (Jaílson); Libânio, Jorge Demolidor e Moraes (Soares). Técnico: Danilo Alvim. América: Ubirajara; Chico, Cláudio, Osvaldo e Cosme; Afonsinho, Nunes e Washington (Gonçalves); Almir (Bagadão), Santa Cruz e Gilson Porto. Técnico: Velha.

Miguel Josino

Há figuras que não combinam com a morte. Miguel Josino, pra mim muito mais uma inquieta inteligência sem a sisudez do padrão dos juristas, partiu celebrando a vida. A ficha, sinceramente, não cai.

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