Pequena história de um quadro

Estávamos reunidos em torno da grande mesa redonda de Álvaro Alberto Barreto, no edifício Maria José Gurgel, na Av. Rodrigues…

Estávamos reunidos em torno da grande mesa redonda de Álvaro Alberto Barreto, no edifício Maria José Gurgel, na Av. Rodrigues Alves, quando ele lembrou de mostrar o quadro que pertenceu a seus avós João Dionísio e Elisa Souto Filgueira: O Vôo das Lavadeiras. Um casal de pássaros em torno de um ninho, entre folhas e ramagens. No canto esquerdo, uma assinatura: Sam Jay. E uma data que faz cem anos: Natal, junho de 1013. E, invisível a olhos desatentos, uma história de um século.

A visão iluminou na alma a curiosidade deste repórter ao ouvir as informações de Álvaro: o quadro pertencera a Henrique Castriciano que deu de presente a seus avós, João Dionísio Filgueira e Elisa Souto Filgueira. Do espólio dos avós, Álvaro foi herdeiro e fiel depositário de uma informação preciosa que se perdera por falta de registro escrito, mas ficara impressa na sua memória afetiva: Sam Jey é pseudônimo adotado por Herculano Ramos como pintor e aquarelista com várias exposições.

Mais: Álvaro recordava da existência de informações manuscritas no verso do quadro. Por isso fiz um apelo para ele desmontar o quadro da moldura, mesmo secular. Ele desmontou e lá fui eu fustigar a paciência de Giovanni Sérgio. Não bastava uma foto. Era preciso fazê-la com lente especial que reproduzisse fielmente as cores e traços do quadro. Ele fez. Nas primeiras buscas, a chama do repórter outra vez acesa em leituras, consultas a recortes antigos e velhos depoimentos aos jornais.

Herculano Ramos é retratado por Câmara Cascudo na Acta Diurna publicada em A República de 22 de fevereiro de 1942. O desembargador Pantaleão José da Silva Ramos, seu pai, ficou surpreso quando o filho preferiu cursar arquitetura na Academia Imperial de Belas Artes a ser bacharel em Direito, seguindo a tradição paterna. A partir daí, como escreve Cascudo, andou trabalhando por todo o Brasil, projetando no Rio, Recife e Pará, de matadouros a edifícios públicos e estradas de ferro.

Sam Jey também foi fácil de encontrar nas notícias sobre a reforma do Teatro Carlos Gomes, onde ele pintou o Pano de Boca, como está nas anotações dos seus historiadores e daí para os versos de Clotilde Santa Cruz Tavares: ‘Materiais de alta classe / sedas, damascos, cetins / fontes, varandas, estátuas, salas salões, camarins / pano de boca pintado / por um afamado / além de belos jardins’.  E a seguir: ‘Sam Jey foi esse pintor / com seus dois auxiliares / Teixeira Cunha e Lustosa / dois artistas exemplares / belos cenários pintados / pelos três foram criados / encantando os potiguares’.

Mas, como demonstrar que Sam Jey era Herculano Ramos, o famoso arquiteto que projetou o Tribunal de Apelação, hoje a sede da OAB, o Grupo Escolar Augusto Severo e seu parque coberto de árvores que Cascudo chama de esplêndido; os jardins da Praça André de Albuquerque, tudo dele que Cascudo, sem associar ao pseudônimo artístico de Sam Jey, informa ter sido ‘pintor, desenhista e cenógrafo’? E retrata como ‘magro, narigudo, calvo, grandes bigodes pendentes, pince-nez de vidros grossos aguçando os olhos vivos e negros, quem não conhecia e admirava Herculano Ramos?’.

Cascudo conta um episódio hilariante nascido do bom humor de Sam Jay sobre o edifício Aureliano: ‘Dizia-se ameaçar ruir. Herculano desenhou, no alto da parede, uma rachadura tão perfeita que, ao vê-la, fugiram os funcionários. O próprio chefe, engenheiro Pereira Simões, grave e sereno, alisando a barbicha branca, veio examinar: ‘- É gaiatice do Ramos’. Foi Herculano que transplantou o trapiazeiro, já adulto – que ninguém acreditava – e que viveu anos e anos na esquina da Rua Sachet.

Os rastros de Sam Jey, como pseudônimo de Alexandre Herculano, pareciam apagados pelo tempo, embora ele tenha vivido até janeiro de 1928, quando faleceu em Belo Horizonte. Como associá-los a uma só pessoa, se não havia registro nas fontes consultadas? Fui ao pesquisador Willian Pinheiro, meu amigo, aluno do mestrado de História da UFRN, sertanejo de Currais Novos. Só com seu domínio dos segredos do universo virtual seria possível derramar os olhos nos jornais do Rio.

Estava certo. Na mesma noite, quando a madrugada nem ainda se desenhava sobre a escuridão destes morros daqui, Willian começava a informar, via e-mail, que encontrara a notícia da exposição de 48 aquarelas em Petrópolis, no Rio, em A Noite, de 18.12.1923: ‘Deverá inaugurar-se amanhã, no vestíbulo do Liceu de Artes e Ofícios, à Avenida Rio Branco, ‘a pequena exposição de aquarelas originais de Sam Jey’. Em seguida descreve seus temas, uma a uma, a partir dos títulos.

Mais algumas notícias suas em Recife, Fortaleza e no Pará, onde também expôs, de repente, e pela primeira e única vez, a notícia de sua morte, certamente escrita por Henrique Castriciano, publicada na edição do dia 12 de dezembro de 1928 do Correio da Manhã: ‘Vitimado por uma congestão cerebral, faleceu no domingo o dr. Herculano Ramos, engenheiro da estrada de ferro Oeste de Minas Gerais, que durante longos anos foi engenheiro da Inspetoria das Secas’.

A seguir: ‘O extinto nasceu em Minas Gerais em 1854, filho do desembargador Pantaleão José da Silva Ramos, já falecido, e neto do Marquês de Paraná. Exerceu comissões do governo federal no Norte do Brasil e nesta capital, havendo residido em Recife, Natal, Paraíba, Ceará e Pará, onde fez diversas construções, entre outras os teatros de Natal e Fortaleza’.

No parágrafo seguinte, finalmente, o registro único confirmando que o arquiteto Herculano Ramos era o pintor que assinava Sam Jey: ‘Era, o dr. Herculano Ramos, também, pintor amador, aquarelista, havendo realizado várias exposições aqui e nos estados, sob o pseudônimo de Sam Jey’. A nota regista, ainda: ‘Deixa Amélia de Aguiar Ramos e duas filhas – Iracema da Costa Ribeiro, casada com o dr. Cláudio da Costa Ribeiro, e a senhorita Salesia Ramos’. O corpo foi velado no edifício da Central do Brasil e sepultado no Cemitério São João Batista, em Belo Horizonte.

Acabava ali, naquele início de manhã, depois de algumas noites, e sob a primavera suave das sucupiras pintando de lilás o verde dos morros que entrava pela janela, a pequena e doce aventura em busca de Sam Jey nos cem anos do quadro ‘O Vôo das Lavadeiras’, um bem de família que Álvaro Alberto preserva e valorizou reproduzindo em vitrais.  Uma pequena história que alguém, um dia, cotará com mais riqueza de detalhes e estilo. Como prêmio ao repórter, depois da jornada, restou um charuto a esperar que o sono se derramasse sobre o corpo guardando uma alma, cansada e feliz.

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