Pequeno tratado do tamborim

No começo – ainda brilhava o sol da juventude – disse a mim mesmo, sem medo do sonho: um dia…

No começo – ainda brilhava o sol da juventude – disse a mim mesmo, sem medo do sonho: um dia vou tocar surdo na bateria da Estação Primeira de Mangueira. Ali, no compasso da marcação, na batida do próprio coração. Mas aos sessenta, sem surdo e sem carnaval, pedi de presente a Rejane um tamborim. Era hora de algo mais afinado. Daquele toque de requinte que desenha os traços do samba e retoca bem de leve – como devo dizer? – feito uma fina bordadura a adornar de realces o fio da emoção.

Ora, Senhor Redator, é bom confessar: cadê engenho e arte? E ficou – porque de tudo resta um pouco, como no poema de Drummond – a frustração de não sair por ai, anônimo feliz, afinal seria muito pouco, quase nada, para despertar inveja nos torneios sociais. Quando é agora, na Folha de S. Paulo, edição de domingo, descobri o ‘mala do tamborim’. Figura que dispondo de algum dinheiro e, se achando bacana, compra um tamborim e desafina a harmonia feito um amador em lugar de bambas.

É por isso, por sua requintada afinação que se sobrepõe muitas vezes à massa de ritmos e sons de trezentos ritmistas na avenida, que o tamborim não pode cair nas mãos de um aprendiz. Como avisa um especialista, o tamborim exige ciência e habilidade e nele é imprescindível a afinação. Não há de ser feito de couro de gato, fino e agudo, como antigamente. Mas também não pode ser de plástico ou de acrílico, e, jamais, de inox, exibido e brilhoso, como o tamborim de atores globais fazendo a cena.

Aliás, o amador, ainda por cima, tem uma descarada sem-cerimônia. Chega, saca o tamborim de algum lugar da mochila, e entra no samba. Resultado: vai fazendo seus estragos a cada passagem do ritmo e nem nota os olhares atirados, como flechas envenenadas, sobre ele. Seu diâmetro esconde a sua sedução. Quanto menor, mas difícil dominá-lo com arte e destreza. Enriquece o conjunto, mas nunca deve se sobressair além da conta, é o seu mistério. Como se fosse, e é, só um refinamento dispensável.

Basta dizer que a escola de samba Acadêmicos do Tatuapé, de tão preocupada com a presença dos tamborins no realce sonoro da bateria, instituiu um diretor de tamborim. Seu som é nítido, explica, parece menos importante, mas é um desastre se erra a hora, o tom e a intensidade. Em matéria de ciência, só a cuíca é mais difícil. Mas os dois se encontram num mesmo e glorioso destino: no instante exato de entrar e sair de cena. Sua arte é dar sustentação à bateria nos compassos de cada andamento.

Daí, Senhor Redator, ter sido uma sorte quando Rejane, perto da data para cumprir a promessa ao aniversariante, perguntou se ainda desejava um tamborim. Pensei. E desisti. E conto a história do fracasso. Que sirva de exemplo. Principalmente, àqueles que, imbuídos do mesmo e nobre sentimento, sonham em tocar tamborim. Pensem duas vezes. Para que não sejam o ‘mala’ do samba. E, sobretudo, queiram desculpar esse demorado carnaval que, nesta coluna, estranhamente, ainda hoje não passou…

 

ATENÇÃO

Tem razão o senador Garibaldi Filho quando pede pressa no anúncio da chapa majoritária. Ele sabe o risco de desgaste, mesmo que o principal esteio do chapão esteja garantido com Wilma para o Senado.

AINDA

O senador pemedebista sabe também que a acomodação final passa por uma conversa de acertos com o PDT do prefeito Carlos Eduardo Alves com reivindicações partidárias do seu partido dentro da aliança.

NÚCLEO – I

O deputado Henrique Alves subestima a informação desta coluna desde o início, mas a cada dia parece mais firme o núcleo duro que se formou contra a presença do DEM e do PSDB na aliança majoritária.

DESGASTE – II

Para o núcleo, a presença do DEM é a presença do governo Rosalba Ciarlini e do PSDB que esteve no governo até agora carimbando o acordão em torno do PMDB ao apoiar Rosalba ao longo de três anos.

ARRANJO – III

O acordão se caracteriza pela presença de Wilma de Faria, o símbolo da oposição, ao acertar as bases da sua presença num arranjo à parte que passou pela garantia da campanha e reeleição de Márcia Maia.

TARDE – IV

As vantagens garantidas a Wilma foram tão determinantes na sua decisão de ‘henricar’ que este teria sido o argumento na conversa com Eduardo Campos, o presidente do PSB: o adiantado da negociação.

PALANQUE – V

Wilma não subirá no palanque de Dilma – seria acintoso – mas não assumirá, de fato, o palanque de Eduardo Campos no RN. Como diz sempre um pemedebista, ‘dessa vez o abandonado será Campos’.

SILÊNCIO – I

É de uma eloquência inegável o silêncio do prefeito Carlos Eduardo Alves diante da pressa do PMDB para anunciar o chapão. O apoio de Carlos certamente virá. Mas poderá passar por caminhos próprios.

ALIÁS – II

Talvez a Henrique Alves, vendo com distância crítica, tenha faltado uma percepção: o primo e prefeito Carlos Eduardo preside um partido e hoje lidera Natal com mais de 70% de aprovação da população.

E… – III

Essa conquista se deu numa luta em que o PDMB de Henrique teve seu candidato próprio – Hermano Morais – e ele, Carlos, venceu reunindo credibilidade e força que estavam fora do poder de sua família.

AINDA – IV

Nesta mesma luta o candidato Carlos Eduardo Alves enfrentou uma campanha impecável dos petistas – que hoje também cobram seu apoio – fixando, por isso mesmo, uma liderança e não mais um liderado.

VÍCIO – V

De forte sabor oligárquico e sem curar-se do vício, afinal virou uma máquina de produzir e reproduzir mandatos familiares, o PMDB joga bem com sua força, mas nem sempre faz política em grande estilo.

DIA

Enquanto as mulheres insistirem na comemoração do seu dia, não vão conseguir que todos os dias do ano sejam seus. E serão sempre, e apenas, personagens do calendário das efemérides comemorativas.

INVERNO

Ivoncísio Meira manda a esta coluna a imagem de um belíssimo mandacaru em plena florada nas terras da Fazenda Reforma, em Caicó, chão da família. É o inverno que chega com os açudes tomando água.

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