Pichar um poeta

Há trechos coincidentes no poema Consolo na Praia. No início, Carlos Drummond de Andrade conforta e se deixa vencer: “Vamos…

Há trechos coincidentes no poema Consolo na Praia. No início, Carlos Drummond de Andrade conforta e se deixa vencer: “Vamos não chores… A infância está perdida. A mocidade está perdida.” Para finalizar, em desolação: Estás nu na areia, no vento… Dorme, meu filho.” Parecem versos saindo da estátua contemplativa por essência e pichada por um casal de vagabundos no Dia de Natal na praia de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro.

A simbologia de Drummond, quieto, indefeso, observando a cena da urbanidade suja e dos seus habitantes selvagens, foi borrada por um casal jovem, flagrado por câmeras de monitoramento da Prefeitura do Rio de Janeiro. É a cena mais chocante do final do ano por mostrar o flagrante da certeza de que a vida não mudará ao espocar dos champanhes do réveillon.

A mulher, tipo mignon, de vestido em cor escura, justo e colado ao corpo, tem cabelos longos e pode ser facilmente cortejada pelas formas bem delineadas e de aparência frágil. É acompanhada por um marmanjo de moletom e capa na cabeça.

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A crueldade lembra episódio da série norte-americana Criminal Minds. O casal se aproxima sorrateiro e estanca diante da estátua, percorrendo o perímetro com olhares vigilantes. A impressão tragicômica é a de que o Drummond estático será atacado como num assassinato a sangue-frio ou em assalto à mão armada.

É tudo metódico. E bárbaro pela falta de motivo e a sociopatia da destruição prazerosa. A jovem faz a segurança de frente para a avenida enquanto ele se dedica a profanar o rosto do poeta manchando-o de tinta branca jogada também sobre a caixa torácica típica de professor de Filosofia.

O homem gira, passa a tinta à parceira que, com certo charme perverso, há que se admitir, ajoelha-se caprichosamente para lambuzar as pernas da estátua. A ação dura 1 minuto e 38 segundos, de acordo com o cronômetro mostrado pelo vídeo exclusivo postado pelo Portal de Notícias Uol.

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Os dois sacodem o rosto em movimento esquivo e desaparecem, enquanto fica congelado no vídeo o resultado do vandalismo, crime cuja punição no Brasil varia de 3 a seis meses a um ano de detenção mais multa. Desconheço vândalo cumprindo a punição inteira. Alguns idiotas até enxergam em sua miopia paquiderme uma certa anarquia romântica nas bagunças.

Um morador de Copacabana – este um ser humano de verdade – tratou de limpar o monumento por conta própria e diz que já está acostumado. Os óculos do poeta na estátua já foram violados oito vezes e estima-se em R$ 25 mil o custo para o reparo.

O país terminando o ano, todos prontos para as comemorações e regabofes e eu indignado por conta de uma estátua pichada. É um ataque à história de um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, de pensamentos sutis e leves, de visão admirável sobre a condição humana, uma figura terna e introspectiva.

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Manchar Carlos Drummond de Andrade é mostrar que a alma brasileira está a cada dia mais contaminada pela lama pantanosa da mente de quem menos aparenta ser bandido. É politi(queira)mente correto cobrar polícia para acertar a cabeça de traficantes sádicos em favelas. Claro, são incorrigíveis. Mas não são apenas eles.

A dupla da pichação medonha é da podridão daqueles que incendeiam índios, batem em garçons, agridem meninas que se recusam a namorá-los, espancam jornalistas, ameaçam invadir propriedades alheias, desafiam a Justiça, jogam spray de pimenta em agentes da lei, confundem reivindicar com institucionalizar a baderna e o terror urbano, o caos pelo nada de motivo.

O casalzinho canalha da pichação demonstrou o comportamento típico do impune convicto. Deve ter transado, fumado um baseado e resolvido criar fama danificando um patrimônio público. Eles talvez nem saibam quem foi Carlos Drummond de Andrade.

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Devem dançar funk, curtir programa tétrico de televisão aberta, fazer passeata para queimar ônibus, reclamar dos pais o aumento da mesadinha para poder fazer figura legal e, barzinho, criticar político afinal “todo político é ladrão”, atacar o “sistema” porque é preciso acabar com o “sistema” sem saber o porquê estão relinchando.

Sim, eles relincham falando ou cometendo crime silencioso como o ato contra a estátua de Carlos Drummond de Andrade. E, na sincera opinião, nada contra os jumentos, animais dignos, sacrificados e resistentes sertanejos, muito mais valorosos que essa escória.

Desclassificada e bestial malta que, por ignorância, esqueceu de completar o ritual daninho, poupando as mãos do poeta. Elas resistiriam ao breu do ódio. As mãos de Carlos Drummond de Andrade são protegidas pelo sentimento do mundo.

 

Padrão
As contratações do ABC estão no padrão do Estadual e, se foram aprovadas pelo técnico Roberto Fernandes, podem significar base para a Série B.

Pelezinho
O meia Diego Rosa, já chamado de Pelezinho no Vasco (RJ) será o responsável pela criação em lugar de Giovanni Augusto e Élvis, ex-Salgueiro, parece o nome para a vaga de Júnior Timbó, que só volta para o Brasileiro.
 
América
O América tem uma Copa do Nordeste pela frente e tem de fechar o grupo.

Escolinha de Paulo Vitor
O professor Paulo Vitor dos Santos informa que amanhã das 7 às 11 horas tem festividade de encerramento das atividades do ano letivo de sua escolinha de futebol Primeiro Gol na comunidade do Leningrado, Zona Oeste de Natal. Serão jogos nas categorias sub/13/14/15/16, com premiação e lanche. Paulo Vitor trabalha com cerca de 60 meninos humildes sem cobrar um tostão. Tem apoio de 35 colaboradores, entre eles o ministro Garibaldi Filho.
 
Palestras
A cada intervalo, haverá palestra sobre a importância das categorias de base. Três feras que têm o que ensinar: O ex-lateral-direito Batista, do ABC, contemporâneo de Alberi e Marinho Chagas no timaço de 1970, o pesquisador e também ex-craque Ribamar Cavalcante, memória viva e solidariedade em figura de gente e o professor Eloy Simplício, garimpador de talentos desde os tempos do Colégio Salesiano.
 
Alecrim inesquecível
Eloy Simplício formou um Alecrim inesquecível entre 1984 e 1985, que eu via menino, das velhas arquibancadas de madeira do Estádio Juvenal Lamartine. Em duelos contra o ABC. O Alecrim de Jonas; Paulo Roberto, Dênis, Zé Aldo (Sérgio) e Edmar (Stanislaw); Leto, Batista e Kennedy (Gilmar); Niltinho (Flávio Tércio), Evandro (Edmilson) e Zé Wilde.

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