Polícia reconstitui rosto do esquartejado com técnica de cinema

Recurso também pode elucidar mistério sobre corpo de menina encontrado em Santo Amaro

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No começo da tarde de 19 de maio de 2012, uma equipe de investigadores da Polícia Civil encontrou um corpo às margens de um córrego na Rua Interlagos, no bairro de Campo Grande, em Santo Amaro. Uma menina morena de cerca de 5 anos, 1 metro de altura e olhos castanhos estava enrolada em uma manta branca infantil da marca Noruega. Morta com uma forte pancada na cabeça, ela estava com um dos brincos dourados com uma pedra vermelha e um laço de fita amarela prendendo os cabelos.

Irreconhecível, a criança foi levada ao Instituto Médico Legal (IML), onde ficou por meses sem que ninguém desse queixa de seu desaparecimento. Lá, ganhou uma placa com o número 179, mas nenhum nome. Antes de ser enterrada como indigente no cemitério de Perus, na Zona Norte, a criança teve o corpo submetido a uma tomografia para registrar detalhes da estrutura óssea. “É impossível uma criança tão bem cuidada não ter família”, afirma a delegada Elisabete Sato, diretora do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil (DHPP). Com o material coletado e a curiosidade para desvendar o mistério, ela deu início à implantação do primeiro laboratório de artes forenses do país com tecnologia para manipulação gráfica de retratos em 3D.

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Não há nada de cinematográfico no lugar. Em uma sala simples com pouco mais de 25 metros quadrados no 5º andar da sede do departamento, no centro, foram instalados três computadores especiais com telas sensíveis ao toque para a construção e transformação de modelos de rosto. Para fazer um retrato, mais de 10 000 formatos de nariz, boca, olhos, orelhas etc. são misturados com base na descrição feita por testemunhas. Um dos programas de design gráfico disponíveis no laboratório é o ZBrush, usado na concepção dos personagens do filme Avatar, que rendeu o Oscar de efeitos visuais à obra do diretor canadense James Cameron. No caso-piloto, com a menina de Santo Amaro, o processo levou oito meses (veja as etapas da reconstrução abaixo).

No dia a dia, entretanto, a ideia é que um trabalho do tipo não leve mais que duas semanas para ser concluído. O foco principal será o envelhecimento de imagens de pessoas desaparecidas há tempo suficiente para que não sejam reconhecidas apenas por meio de fotos antigas. Em paralelo, serão feitas reconstruções faciais de vítimas de assassinato violento. “Todo ano, cerca de 7 000 pessoas desaparecem, e menos de 1 000 são encontradas. Quero, pelo menos, dobrar essas chances”, afirma Elisabete. O preço para tirar o DHPP da pré-história foi de pouco mais de 160 000 reais, valor baixo se comparado ao padrão de gastos públicos e ao avanço na produtividade nas investigações.

A eficiência do laboratório passou pela primeira prova prática na semana passada, e o resultado foi animador. Em menos de sete dias, uma réplica computadorizada da cabeça encontrada na Praça da Sé, no dia 27 de março, foi construída. Prova-chave para ajudar na conclusão do caso do corpo esquartejado e distribuído em sacos pelas ruas de Higienópolis, no domingo 23, a cabeça estava muito deteriorada, o que impediria a identificação. “Em um processo normal, o crânio seria dissecado manualmente, demorando quase dois meses”, explica o perito em arte forense Sidney Barbosa.

Com a projeção pronta, a esposa, uma filha e um filho da vítima conseguiram fazer o reconhecimento sem o trauma de ter de lidar com o cadáver em decomposição. Com essa ajuda, foi possível constatar que se tratava de um motorista aposentado de 55 anos, morador de Cidade Ademar, na periferia da Zona Sul, e evangélico, mas que havia cerca de três meses frequentava um centro espírita. Em depoimento, a viúva contou ao DHPP sobre o caso conturbado que o marido mantinha com uma ex-prostituta. No sábado 22, um dia antes de aparecer morto, ele saiu de casa carregando uma garrafa de vinho e duas taças — ela e o motorista não viviam como casal havia três anos. A amante não teria agido sozinha. Pelo menos outras duas mulheres e um homem teriam envolvimento no horripilante caso — até a última quinta-feira, os suspeitos não tinham sido capturados.

O software também ajudou a descobrir com que artefato o motorista provavelmente foi morto: seria um cabo com circunferência compatível com a do cabo de uma enxada. Ele apresentava uma fratura do lado esquerdo do crânio e uma no meio do rosto — os dentes estavam afundados. “É só uma possibilidade, mas, sem o equipamento, nem isso poderíamos analisar”, diz Sidney Barbosa. Desde a era das pranchetas até a chegada dos supercomputadores e suas canetas eletrônicas, as reproduções estão sob o comando de Barbosa. Há 25 anos na função, ele é o principal perito em arte forense da Polícia Civil de São Paulo — era o único até a chegada de seu assistente, Vilson Martins, no último mês.

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Barbosa recebe todo dia a missão de reproduzir a face de alguém que fugiu da Justiça ou desapareceu da família. “Hoje todo o trabalho é digital, cerca de 35 rostos por mês, o que facilita muito a minha vida”, brinca. Seu interesse pela atividade começou aos 15 anos, quando ia diariamente ao Hospital do Câncer tratar de um tumor na perna. O prédio do DHPP ficava no caminho e tinha vários retratos falados expostos na portaria. “Um dia entrei lá, falei a um policial que faria desenhos melhores do que aqueles e ele me testou. Aí me contrataram”, conta. “Esse não é um trabalho só de artista, com traços pessoais. Temos de conhecer anatomia, antropologia e ter precisão.”

O desejo de Barbosa, assim como o da chefe Elisabete, é conseguir preencher o espaço em branco na placa de entrada do Laboratório de Arte Forense. Isso acontecerá assim que eles descobrirem quem é a garota das imagens ao lado, morta covardemente, cujo corpo foi encontrado em Santo Amaro.

 

Foto: Veja

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