Ponta Negra e os gênios

Nos primeiros avanços do mar, na enseada de Ponta Negra, quando Micarla de Souza ainda era a prefeita, lembrei o…

Nos primeiros avanços do mar, na enseada de Ponta Negra, quando Micarla de Souza ainda era a prefeita, lembrei o que a memória havia guardado. Fui o repórter na construção daquela cortina de concreto atirantado, ali em Areia Preta, na gestão Vauban Faria. Queria, então, dizer – e disse – que o enrocamento poderia até ser mais barato e rápido, mas ocuparia a já estreita faixa de praia nas marés cheias, impedindo a presença do seu uso. Era uma informação, sem borla e sem capelo, mas verdadeira.

O Ministério Público na soberba que o faz decidir sobre tudo, sequer tomou conhecimento, mas ganhei um elogio de José Pereira, mestre em cálculo, e que transcrevi aqui. Meu mérito de repórter foi lembrar as soluções que vi – discutidas, realizadas e firmes até hoje: em Areia Preta, na camada de concreto para evitar os deslizamentos da Cordeiro de Faria nas grandes chuvas, e a construção do acesso à Fortaleza do Reis Magos com a técnica do ‘concreto ciclópico’ para resistir ao movimento das marés.

Mas, em Ponta Negra, a olimpíada de vaidades sob os holofotes acabou prevalecendo, como em quase tudo nesta Natal estrepitosa. O calçadão, em desenho bonito, tomou o lugar da razão. Era preciso fazê-lo em tempo recorde, pensou a nova gestão municipal, para demonstrar a eficiência que faltou à anterior. O MP não viu o porto dos pescadores com o mar batendo nas pedras do enrocamento, afinal só é visível o que pode ser tocado, e isso de costume é coisa do velho e superado direito consuetudinário.

Da ignorância diante do saber de experiências feito – aquele que o poeta Camões avisou pela boca do Velho do Restelo, no Canto IV d’Os Lusíadas – restou a cena que atesta a estupidez: as duas tábuas improvisando a rampa sobre as pedras agora mais próximas da arrebentação para subir e descer as jangadas dos pescadores, hoje sem porto que era a areia da praia. Para eles, os gênios e sua cultura formal, cheia de certezas, só é verdadeiro e real o que existe e não o que é mantido pela tradição oral.

É fácil entender: a acepção da palavra nem sempre é aquela única e fixada pelo uso da língua culta a expressar uma dimensão física. Assim, só seria ‘porto’ o que ‘porto’ fosse. Ou seja: um cais. Se um promotor qualquer tivesse ouvido os pescadores, apontasse para o canto da enseada e perguntasse como eles chamavam aquele lugar onde descansam os barcos, ouviria: porto. No sentido de pouso, lugar de ficar, escolhido por ter sombra e água fresca, daí cada porto ser uma vila e semente de futura cidade.

Aliás, nem precisaria ir muito longe, aos velhos tratados ou compêndios de antigos saberes. Em qualquer bom dicionário da língua portuguesa é possível encontrar que ‘porto’ é o ‘local onde alguém pode descansar e se sentir seguro; refúgio, abrigo’, como está no Houaiss. Ou, no Aurélio, com a sua tradição inegável: ‘lugar de descanso ou refúgio’. Ou, ainda, se é preciso ser moderno, o Dicionário do Português Contemporâneo, de Francisco Borba: ‘Lugar de abrigo e ancoradouro para embarcações’.

Naquela hora, ainda falaram na engorda da praia trazendo areia do mar próximo para aumentar a faixa de praia. Era mais caro. Ou fazer a cortina de concreto atirantado para conter o calçadão sem sair dos seus antigos limites e capaz de suportar as marés altas. O mais barato e o mais rápido acabaram prevalecendo sobre as duas outras idéias. Como se o improviso atendesse de forma consagradora aos anseios da glória jurídica e oficial. Vieram então as pedras, as muitas pedras, e taí o resultado do erro.

Digo sempre, Senhor Redator, que o legalismo é a legalidade enlouquecida. Na ausência da lei, prevalece o costume. Do senso coletivo e tácito nasceu o certo e o errado, fixou-se a norma. Só depois veio a ciência jurídica. Faltou tudo e sobraram pedras nas obras de Ponta Negra. E nos nossos gestores eleitos pelo povo. Desconhecem o direito desse povo e arrotam um saber que não sabem. É como alerta Camões, há séculos: ‘Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade, a quem chamamos Fama!’.

 

LUTA – I
É grande o empenho do deputado Henrique Alves para restaurar o mandato da prefeita Cláudia Regina, em Mossoró e manter e o mandato da governadora Rosalba Ciarlini garantido pela liminar junto ao TSE.

EFEITO – II
Cláudia será correligionária do PMDB nas eleições do próximo ano com a máquina municipal e Rosalba precisa ser inelegível, mas com o governo, bem longe de deixa-lo cair nas mãos do vice Robinson Faria.

E – III
Com uma vantagem para o senador José Agripino que seria livrá-lo de ser aliado na proporcional sem a moeda de Mossoró e a inconveniência de Rosalba ser candidata à reeleição contra o interesse do PMDB.

ORIGEM
De Laurita Arruda: ‘Ao professor Serejo: apesar da crise incontestável do impresso, o adesivo é mais um souvenir do Newseum de Washington DC’. E este dinossauro, comovido, agradece a informação.

FRACASSO
Do físico brasileiro Marcelo Gleiser que brilha nos Estados Unidos homenageando o fracasso: ‘Todo poeta, todo pintor, todo cientista coleciona um número bem maior de fracassos do que de sucessos’.

TOPLESSAÇO – I
Quem apostava na força das redes sociais teve decepção com o ‘toplessaço’, sábado, nas praias cariocas: das oito mil mulheres anunciadas pelas redes a Folha fotografou três de topless, uma delas com 72 anos.

OU – II
Seja: o princípio da comunicação é o mesmo, com ou sem redes sociais: pulverizam, mas só mobilizam se não houver uma pré-disposição capaz de produzir à convergência. No mais, é um jogo de palavras.

ALERTA
Samuel Pessoa, doutor da Fundação Getúlio Vargas na Folha de domingo: ‘Subestimar a importância da educação para o crescimento, é a constante no Brasil, principalmente na esquerda’. Tomaram papudos?

CONSELHO
Do poeta Ferreira Gullar, 83 anos, aos que desejam ter um amor duradouro, à prova do tédio destruidor: ‘Cada qual tem seus hábitos e manias; se quer que o amor dure, o melhor é viver cada um no seu canto’.

POESIA
Tudo pronto para o lançamento do livro de estréia da poetisa Nassary Lee: será no começo da noite do dia 21 de janeiro, na Livraria Nobel, aquela bem ao lado do Shopping Midway, na Av. Salgado Filho.

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