População do Rio Grande do Norte não sofreu resistência ao Golpe Militar

Ex-presidente João Goulart deposto da Presidência da República pelo golpe militar

Protesto contra a censura

Marcelo Lima

Repórter

Tanto estudiosos do assunto como personagens vivos do fatídico 31 de março de 1964 relembram que nas terras potiguares, a derrubada do presidente João Goulart ocorreu pacificamente.

O deputado estadual e jornalista Agnelo Alves (PDT) classifica o primeiro dia do golpe como “tranqüilo. À época, Agnelo ocupava o cargo de chefe do gabinete civil do governo Aluízio Alves (UDN). “Naquele tempo não havia comunicações como hoje. Nós estávamos na inauguração de uma escola na esquina da CCAB. Estávamos lá o governador, eu e outras autoridades quando o secretário de segurança, general Ulisses Cavalcanti, e o Coronel Manoel Leão Filho chegaram com a notícia”, contou. Segundo o deputado, o governador prosseguiu com a cerimônia naturalmente, pedindo para que todos mantivessem sobriedade e não se manifestassem sobre o assunto.

De acordo com o professor de Ciência Política da UFRN Homero Costa, não houve resistência dos setores progressistas que se opunham aos militares. “Embora houvesse a união dos trabalhadores rurais, não houve resistência porque também não houve nada no plano nacional”, explicou. Ainda segundo Costa, o Exército amanheceu de prontidão para qualquer eventualidade no dia primeiro na capital.

O governo Aluízio Alves foi um dos apoiadores do golpe. “Aluízio embarcou dois dias depois à convite de Magalhães Pinto, um dos líderes civis do golpe”, declarou Agnelo Alves. No Rio de Janeiro, o governador do RN apoiou o nome vencedor para a presidência da República, General Castelo Branco. Com o recrudescimento do regime militar, tanto o Agnelo quanto seu irmão tiveram seus direitos políticos cassados posteriormente.

Conforme o atual deputado do PDT, a tradição histórica dos militares sempre foi devolver o poder aos civis depois de os ânimos sociais arrefecidos, o que não ocorreu em 1964. Para o pai do atual prefeito de Natal, os militares não estavam preparados para se manter no governo. “Enveredaram numa série de erros como tortura e tiveram o repúdio da população, que não época do golpe ficou a favor deles”, analisou o parlamentar.

Apesar da ojeriza de grande parte da sociedade quando se toca na expressão “Ditadura Militar”, muitos setores fundamentais no jogo político nacional e local apoiaram a derrubada do presidente João Goulart.

REFLEXÕES

Diante das manifestações pelas quais passa o Brasil, contra e pró o golpe militar, o parlamentar deseja as forças democráticas tenham aprendido com a história. “Espero que não haja imaturidade de todos para que não tenha golpes nem militar nem civil”, considerou Alves, destacando que Getúlio deu um golpe civil antes dos militares.

O professor Homero Costa acredita que o aniversário do golpe serve para “se pensar no legado absolutamente terrível para o país”, opinou. Para o docente, as comissões da verdade têm papel importante para passar a limpo esse momento histórico, até porque não possuem caráter punitivo como houve em outros países.

Nascido poucos anos antes do golpe, em 1959, o Prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves (PDT), filho de Agnelo, diz repudiar o momento de ausência de democracia e acredita que os 50 anos de golpe é um momento de reflexão da sociedade. “O golpe militar impôs uma longa noite de duas décadas de ditadura no Brasil. Um período de retrocesso e atraso incalculáveis para o país em termos institucionais e até do seu amadurecimento como nação. A lembrança do cinquentenário do golpe é importante para reforçar nos brasileiros, que ainda hoje sentem os reflexos nefastos da ditadura, o sentimento de que os princípios democráticos precisam ser permanentemente valorizados”, declarou.

ANIVERSÁRIO DE 50 ANOS

Depois de reedições do discurso da Central do Brasil e da Marcha da Família, diversos atos públicos estão marcados para hoje, 31 de março e 1º de Abril. A intenção dos organizadores é diversa. Há quem vá às ruas para comemorar e também quem quer rechaçar o aniversário de 50 anos do golpe militar de 1964.

Em Natal, há evento marcado para amanhã, uma vez que o golpe se deu no silêncio da madrugada entre março e abril. Cerca de 510 pessoas confirmaram presença no “Rio Grande do Norte Unido contra o aniversário de 50 anos do Golpe”, evento criado no facebook a ser realizado na Praça Cívica a partir das 16h30.

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