Por dentro do Brasil
Tirei o Carnaval para ler os quatro livrinhos da coleção Claroenigma, da Companhia das Letras. São compilações de alguns autores que se debruçaram sobre a história e a formação do Brasil com olhar antropológico, sociológico e filosófico. Com a pane da JET, que me deixou sem internet durante o período (a gravação dizia que “nossos engenheiros estão trabalhando para restabelecer o serviço”; isso durou toda a folia de Momo), tive mais tempo para concluir meu ‘projeto’. Hoje abordo os dois primeiros – quarta-feira que vem, completo a tetralogia.
“Índios do Brasil – História, Direitos e Cidadania”, de Manuela Carneiro da Cunha, e “Nem preto nem branco, muito pelo contrário – Cor e raça na sociabilidade brasileira”, de Lilia Moritz Schwarcz, formam um conjunto de 14 ensaios sobre o ‘processo civilizatório’ iniciado desde a chegada de Cabral. Para muitos, mais do mesmo – ou dirão que é ladainha socialista sobre exploração dos povos oprimidos, ou fecharão os olhos para o lado sombrio da colonização brasileira.
Nem uma coisa, nem outra. Dos portugueses, que batizaram tudo que encontraram por aqui com nomes de santo; dos tupis, guaranis, aimorés e botocudos, que seriam integrantes de uma das Dez Tribos de Israel; do entendimento humanístico europeu sobre dessemelhança, nascido com a política das Navegações; do canibalismo vingativo ou alimentar; da balela de que vivemos em uma democracia racial; e da criação de mitos nacionais, como a ‘dádiva’ da mestiçagem observada na feijoada, no samba e no futebol; uma nação foi forjada à base de genocídios, apartheid e corrupção.
Daí surgiu a apologia da malandragem, do jeitinho, do caboclo, mameluco ou cafuzo que suplantou espadas e canhões para montar o maior laboratório racial do mundo (o conceito de raça é aprofundado por Lilian Moritz). Passada a Segunda Guerra, misturar pessoas era o que tinha de mais moderno – então nada melhor que acreditar no Deus natural de alguma selva do Patropi. As duas antropólogas (Manuela foi uma das principais discípulas de Claude Lévi-Strauss) tratam das leis e políticas adotadas ao longo dos cinco séculos.
Diante da vergonha de ver Renan Calheiros de volta à presidência do Senado; do protesto sem eira nem beira da turma do PT e da CUT contra uma blogueira cubana; de morar em um lugar com índice de violência de causar inveja em Pol Pot; e de saber que mamãe Dilma dará mais mesadas para os lascados, “Índios do Brasil” e “Nem preto nem branco…” acendem uma luz forte na escuridão que perdura da Serra do Navio aos pampas gaúchos.
Notícias Relacionadas

