Por falta de recursos, Casa do Bem ‘fecha as portas’ em dezembro

ONG sediada em Mãe Luiza enfrenta 'carência' financeira e encerrará atividades; Hoje, 800 pessoas são beneficiadas

Casa-do-Bem---Mae-Luiza-HD---(3)

Carolina Souza

acw.souza@gmail.com

“Fazer o bem sem olhar a quem”. Não é todo mundo que consegue reproduzir esse lema em ações reais – até porque não é todo mundo que dispõe de tempo e, principalmente, dinheiro para fazer o bem a quem nem conhece. Há mais de 25 anos como ativista social, o jornalista e escritor Flávio Rezende sabe mais do que ninguém que qualquer ação humanitária exige o mínimo de recurso financeiro para ter sucesso. E é por falta desse recurso que a Casa do Bem, organização não governamental dirigida por Flávio, será extinta em dezembro deste ano.

As atividades beneméritas realizadas pela ONG, localizada no bairro de Mãe Luiza, na zona Leste de Natal, abrangem projetos educacionais, esportivos, gastronômicos, culturais e de entretenimento e lazer para crianças, jovens e adultos que vivem em situação de risco. Essas atividades vêm sendo mantidas por doações espontâneas de pessoas físicas e algumas empresas, que depositam quantias diversas na conta da entidade eventualmente ou mensalmente.

Entretanto, essas quantias não estão mais conseguindo cobrir os custos da Casa do Bem, tornando inviável a continuidade das atividades através da ONG. “A Casa vem passando por uma dificuldade financeira que se agravou no mês de agosto do ano passado. Reiterados apelos de todos os tipos, através de campanha na imprensa e nas mídias sociais, não estão surtindo o efeito desejado”, disse Flávio Rezende.

Rezende explica que a entidade filantrópica contava com o apoio financeiro adquirido através de um convênio com a Prefeitura de Natal, que iniciou na administração da prefeita Micarla de Sousa e continuou com o prefeito Carlos Eduardo Alves. Esse convênio, no valor de aproximadamente R$ 3 mil, permitia o pagamento de contas para serviços administrativos, como água, luz e telefone.

Entretanto, uma greve dos servidores municipais iniciada em agosto de 2013, que alcançou os serviços da Controladoria Geral do Município, acabou burocratizando as atividades da Prefeitura e inviabilizando os repasses à ONG.

“A partir daí a gente começou a utilizar os recursos das doações para pagar todas as contas da Casa, tendo ainda que cobrir ainda os custos previstos para a realização de cada projeto. Temos mais de 30 projetos em andamento. A nossa conta foi se fragilizando e nós não vemos mais como conseguir nos manter”

Ainda segundo o diretor da ONG, o Prefeito Carlos Eduardo se prontificou a renovar o convênio, mas a burocracia para fechar as documentações do convênio e finalizar o processo chegou ao seu limite. “Esse demora me fragilizou de vez e eu tomei a decisão de não querer mais levar isso à frente”, explicou.

As dificuldades enfrentadas pela Casa do Bem levaram Flávio Rezende a optar pelo fim da entidade e repassar as atividades, mobiliário e toda estrutura da casa para o Conselho Comunitário de Mãe Luiza. A ONG será definitivamente extinta em dezembro. “Estamos fazendo uma nova campanha agora para chegar até ao fim do ano e fazer algumas adaptações na estrutura para essa nova realidade”, disse Flávio Rezende.

Um Apelo do Bem

A nova e última campanha que será realizada pela Casa do Bem leva o nome de ‘Um Apelo do Bem’. A ideia da campanha é arrecadar mais recursos através das doações de pessoas físicas e jurídicas, de modo que a entidade possa continuar mantendo os projetos até o mês de dezembro deste ano. A ação será divulgada através de encarte na mídia imprensa e nas mídias sociais.

Na campanha, a diretoria da Casa do Bem explica que como a entidade não conta com serviços de telemarketing, boleto e nem possui motoqueiro para recolher as doações, a única maneira das pessoas ajudarem é através de deposito em conta, nos referidos dados: Banco do Brasil, agência 26847-x e conta corrente 1668-3.

Atualmente a Casa do Bem atende a 800 pessoas diretamente através dos projetos sociais, dentre os quais destacam-se o curso de alfabetização de idosos, escolinha de futebol, balé, karatê, muay thai, brinquedoteca, estúdio de música, cursos do Pronatec, atividades culturais, academia de ginástica, escola de percussão e reforço escolar. Para manter todas essas atividades, a entidade gasta uma média de R$ 12 mil por mês.

“Nós não temos carência de fazer o bem. Temos carência financeira. Eu estou desistindo de estar à frente da Casa do Bem porque já me sinto fragilizado, depois de tantos anos na luta diária para conquistar recursos e colocar os projetos em funcionamento”, disse Flávio Rezende.

Atividades terão continuidade

Apesar da extinção da ONG Casa do Bem, o Conselho Comunitário de Mãe Luiza manterá os projetos em funcionamento. De acordo com Nilson Venâncio, presidente do conselho, futuramente serão realizadas algumas reuniões do Conselho Comunitário com a diretoria da Casa do Bem para que todos possam ter conhecimento de como serão realizadas as mudanças.

“Queremos conhecer a fundo como os projetos são realizados e dar continuidade a todas as atividades. A ideia é de que tudo permaneça como está, inclusive mantendo os projetos gratuitos para a população”, disse Nilson. Perguntado sobre como pretende custear todos os gastos da casa e dos projetos, Nilson Venâncio garantiu que buscará parcerias.

“Quero fazer as coisas de um modo que pareça apenas mudança da administração. A Casa do Bem deixará de existir como ONG, mas nós do Conselho daremos continuidade a tudo. Para isso, irei buscar as parcerias e dar continuidade às campanhas de doações. Sei que as doações irão cair, mas pensaremos em outras formas de conseguir recursos, seja através de bingos e até vendendo rifas”, afirmou.

Compartilhar: