Porta-retratos
Ninguém terá sucesso se disser a um político, num quadro conservador como o Rio Grande do Norte, que o fracasso do adversário não é o melhor caminho para se construir a oposição. Mesmo que essa reação seja feita mais de revanchismo do que de qualquer causa nobre. O maniqueísmo embala a motivação humana nos conflitos, principalmente quando envolvem o poder. Poucas vezes o homem lutou sem ser o herdeiro da sua própria luta, ainda que essa glória possa ser real, justa e imerecida.
Nossa história política não é diferente. A revanche, quando não a própria vingança, tem sido o combustível das guerras políticas que travamos. Muitas vezes nem sabemos mesmo de que será feito o poder que queremos. Lutamos, assumimos com avidez, e sequer temos no alforje um plano acima das questiúnculas. No poder, ficamos no disse-me-disse, no comezinho de todas as mesmices, sem o bom e largo horizonte que lança o olhar para o futuro soprado pelo bom orgulho do espírito público.
São comuns, agora que os olhos e ouvidos midiáticos invadem o mais íntimo da vida, quanto mais na política, os jogos pueris dos políticos sonhando com a vitória, fazendo comícios a toda hora. Assim, e como já não sabem fazer da fala a grande arma, substituem a estratégia pela emoção ou, se não chegam a um nível mais deplorável, o argumento pelo desaforo. E esquecem que os tijolos dessa construção são outros, e mais nobres, aqueles que fundam na alma coletiva um sentimento novo.
Foi assim em sessenta. Não nasceu apenas dos salários atrasados do então Governo Dinarte Mariz aquela vitória de Aluizio Alves. Ele fez uma revolução pelo voto, plantando em cada palavra uma semente e acendendo em cada gesto uma chama que chamou de esperança. Foi muito mais do que um simples desejo de ter votos sobre o adversário para vencê-lo. Como ele mesmo disse num dos discursos referenciais, um divisor de águas, veio para lutar, veio para vencer, veio para ficar. E ficou.
Ninguém, afastado o colorido eufórico dos risos da vitória que adornam fotografias, saberia dizer onde hoje é maior nossa pobreza política: no governo ou oposição. Quem aplicar uma pesquisa correta e sem induções vai notar uma decepção cada vez maior com os políticos. Somem os votos em branco, os nulos e as abstenções, com os votos dados aos adversários de quem venceu e eis a conta verdadeira: um imenso contingente, silencioso e anônimo, cujo rosto não aparece no porta-retratos.
É a esse contingente que os governistas e oposicionistas não sabem falar. São filhos pródigos do marketing político, a quem compram slogans, ideias, falas, plásticas e sorrisos de isopor. Nas duas últimas décadas, envelhecemos mais do que ao longo de todo o século, mesmo com seu velho e terrível coronelismo fazendo o poder e o mando. Uma velhice estampada nos rostos jovens, como se as rugas de uma mentalidade já traçassem hoje o desenho do que se sabe que virá na próxima eleição.
FUTURO
O governo pretende fazer sexta-feira a primeira reunião do secretariado no ano novo. Para definir as metas para gastar uma grana que, em dois empréstimos, já ultrapassa a marca de um bilhão de reais.
AVISO
Desde o início da noite de ontem vozes anônimas e furtivas do governo voltaram a sussurrar a queda do jornalista Alexandre Mulatinho. Para o gosto de uns e o desgosto de outros. Já corria a bala na agulha do mosquetão poderoso do governo.
PASSOS
Quem avisa é Roberto Levino, de São Paulo: vem aí a nova edição de ‘Brasil em Movimento’, um clássico de John dos Passos esgotado desde os anos sessenta. Ele visitou uma Natal ainda bucólica.
PERIGO – I
Anotem: se o prefeito Carlos Eduardo permitir que os seus secretários façam denúncias individuais sobre gestão passada, mesmo verdadeiras, a retórica municipal será uma feira profusa, difusa e inútil.
ALIÁS – II
Basta um exemplo: o arroubo do novo secretário de esportes, Dudu Machado. Apressado em agradar ao novo alcaide, acabou atirando sem pontaria. No alvo, só os experientes em política sabem acertar.
PERDA
O curso de comunicação da UFRN perde um dos últimos grandes nomes: Eduardo Pinto. Mestre e doutor. Aposentou-se certamente por não suportar mais o peso de algumas das conspícuas nulidades.
BEATO
Viajou a Roma, onde fará um curso intensivo na Congregação para a Causa dos Santos, cônego José Mário de Medeiros. A ele, como nosso Postulador, caberá propor a beatificação do padre João Maria.
OLHO
Ninguém duvide se o olho poderoso do bispo Edir Macedo outra vez lançar fluidos de desejos sobre algum canal de tevê desta província evangélica. Até por ele não temer o velho pecado da ambição.
w APELO
Era tarde quando o ex-deputado Carlos Augusto Rosado apelou ao ainda secretário Kércio Pinto não deixar a pasta da Justiça. Ele já tinha ferido o amor próprio do delegado desfazendo as suas ordens.
ANOTEM
Sem a Secretaria de Recursos Hídricos com todo seu acervo o governo não evitará a saída do PMDB. A governadoria filtra a informação e mostra que a questão não é política, mas a conquista de espaço.
CARTA
De Paulo Lopo Saraiva, com quem descobri a poesia de Camões fazendo as análises sintáticas da sua poesia, esta carta sobre o seminário da fazenda Jerusalém, no Estado, do professor Paulo Bonavides.
Amigo Vicente Serejo,
Li o seu artigo “Ousadia e estratégia”, publicado, ontem- 7/1/2013, na coluna “Cena Urbana”.
A referência ao prof.Dr. Tércio Sampaio Ferraz, além de valiosa, evoca-me o tempo em que fui seu aluno, no Doutorado-PUC/SP, em 1979, da disciplina Filosofia do Direito, em que obtive nota máxima com elogio do referido Mestre.
Informo-lhe que temos aqui, no Nordeste, um “Seminário informa”, todo mês de julho, na fazenda ‘Jerusalém’, em São João do Sabugi-Rn”, de propriedade do mestre de todos nós, Paulo Bonavides.
Com certeza, no encontro deste ano, discutiremos o julgamento do Mensalão e seus efeitos jurídicos, sobremaneira no que se refere “ao que demonstra ser temerário o fórum privilegiado que retira a gradação das instancias e impõe um julgamento, mais seguro e apurado”.
Pode divulgar essa missiva.
Natal, 08 de Janeiro de 2013.
Do velho Professor e amigo que “já passou do meio dia”.
a) Paulo Lopo Saraiva


