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23 AGO

Projeto leva música para quem não pode ouvir

Da redação

A percepção da música no universo onde o silêncio é predominante. Este é o grande desafio aceito e também proposto pelo intérprete Nilton Câmara, que há 11 anos desenvolve atividades com surdos de todo país, introduzindo música e dança no cotidiano de quem não pode ouvir. Durante o II Encontro de Surdos Evangélicos do Nordeste (ESEN), realizado desde sexta-feira, na Assembleia de Deus, em Parnamirim, o intérprete ministra o curso "Musicalidade em Libras". O evento reúne mais de 100 jovens com deficiência auditiva total ou parcial do Rio Grande do Norte e estados vizinhos.

Além de aprender e compreender a letra da música, os surdos são levados a sentir a música e perceber os ritmos, por meio das sensações passadas pela expressão facial e corporal. O professor, que vê o trabalho como uma missão de Deus, explica que a maior dificuldade é os alunos pegarem o ritmo. Em alguns casos, o trabalho para aprender uma música leva até oito meses. "A proposta é transformá-los em atores, com autonomia de se expressar e não apenas meros copistas, que imitam os sinais repassados pelo professor. Como a música é um mecanismo que antecede a linguagem historicamente, a inclusão do surdo é totalmente possível. Adentrar neste mundo de silêncio é nosso maior desafio", afirma o professor.

Além das limitações sensoriais, ele conta que muitos portadores tem resistência em aceitar a música, considerada "coisa de quem ouve". "Muitos se recusam em iniciar as aulas. Há um preconceito não apenas por parte dos ouvintes, mas deles que não entendem como perceber a música", afirma. No entanto, Nilton observa que esta negativa cai nas primeiras aulas. Além de melhorar a capacidade de uma linguagem nova, a língua portuguesa, e a construção da música, a musicalidade contribui para uma melhoria na forma de se expressar e em mudanças comportamentais. "Eles se sentem valorizados, capazes como os demais a curtir o som que não ouvem, mas percebem através de vibrações, do corpo e dos sinais com as mãos. A gente vê uma mudança em pessoas tímidas, que ficam mais soltas, ou diminuem a agressividade de outros e interfere inclusive nos relacionamentos familiares e em comunidade", garante Câmara.

Para isso, ambientes espelhados, assoalhos em madeiras ajudam na educação dos participantes. A técnica usada se baseia primeiro na compreensão do que é a música e o que são os ritmos, a partir de um debate sobre o tema abordado, as ideias e sensações despertadas no público; que em seguida são traduzidas para os sinais da libra; e a valorização do corpo, com a marcação do tempo e passos de dança. Segundo ele, a musicalidade tem sido uma importante ferramenta de inclusão para os deficientes auditivos, mas é necessário uma maior divulgação e incentivo para a realização de oficinas.

"Não é uma tarefa fácil, pois a música não faz parte do universo que estão habituados. Muitos chegam aqui travados, com o conceito que não tem direito à música porque não podem ouvi-las e a gente tem a missão de transformar esse mundo, esse conceito e, desta forma, melhorar a qualidade de vida", afirma Nilton Câmara. O palestrante é o idealizador do projeto grupo de dança Surdos Videira, composto por jovens surdos que dançam diversos ritmos e que lançou o DVD com dez músicas interpretadas em libras.

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