Praça em Lagoa Nova é invadida por estudantes para sexo, bebedeira e uso de drogas

Tem dia em que chega a ter mais de 200 jovens - a maioria da classe média - que forma grupinhos para aventuras proibidas

Praca-Wagner-Guerra

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Eu estava parado na esquina, no momento em que uma espécie de Thammy Gretchen (leia-se menina com indumentária e trejeitos masculinizados) me olhou. Nitidamente investigativo, aquele olhar trazia a marca da desconfiança. Por breves segundos, cruzamos a mirada com interrogações em nossos juízos, o que era normal diante da circunstância. Isso foi na véspera do feriado (30), na hora em que América x Globo decidiam a Potyguar Champions League. Onde? Na praça Amaro de Souza Marinho, em Lagoa Nova, nas imediações da concessionária Mitsubishi, a poucos metros da avenida Senador Salgado Filho, um lugar em que centenas de jovens transpõem a barreira dos valores combinados entre a maioria cristã e conservadora – sem nem um tipo de agravo por esta palavra.

Após denúncias à polícia, vídeos gravados, tiros direcionados à residências e reclamações pra todo lado, eu e o editor do Portal JH, Wagner Guerra, fomos conhecer os embalos de quarta à noite. Mal desci do carro e vejo duas viaturas policiais. Por sorte ou azar, uma batida estava em andamento. No meio da rua, um agente de preto direciona um fuzil para o chão, com expressão de poucos amigos. A movimentação assustava meninos e meninas. Troquei meia dúzia de palavras com o chefe da operação rotineira, que confirmou a falta de objetos comprobatórios de que delitos eram cometidos. Um dos agentes gritou: “Está tudo bem, pessoal, podem ficar à vontade”. Um “ufa!” gestual restabeleceu o clima festivo da noitada – o vigia Aluízio disse que a turma começa a chegar às quatro da tarde.

‘Thammy’ percebeu que algo estranho acontecia. Com a saída da polícia, virei o ser mais velho na praça, fora Aluízio. Eu fazia cara de quem estava ali para ver qual é, feito um desocupado em pleno meio de semana. Mas um sujeito com quase quarenta anos, em meio a adolescentes alegres, sozinho, de bermuda e chinelo, com os braços cruzados, prestando atenção em tudo, deve ter levantado as seguintes questões para a garota que trajava short jeans e camiseta amarela com as mangas curtas o suficiente para expor uma tatuagem indecifrável:

A) Esse cara é policial

B) Que nada, é um tio querendo descolar

C) Deve estar chapado, muito doido

O que não eram opções tão ruins, se pensarmos na cena. Poderia ser pior, como, por exemplo:

A) Esse cara é um ladrão

B) Acho que é um tarado de olho na boyzada

C) Tá com cara de psicopata, vamos sair daqui!

Fingi que estava tudo bem e segui com as observações. O perfume forte e barato de ‘Thammy’ inundou meu raio de ação, como a senha de que uma circulada era o melhor a ser feito. Soube que um casal de médicos, donos de uma casa de esquina, se recusa a aceitar as histórias de sexo, drogas e rock and roll ocorridas na praça. Uma das calçadas fica bem próxima às janelas dos quartos, permitindo a invasão da nuvem canabinóica expelida às quartas-feiras, dia oficial do encontro dos jovens. Por desencargo de consciência, perguntei para um garoto magro, de olhar agateado e voz andrógina: “É limpeza fumar um por aqui?”. Sem espanto, ele garantiu que sim. Certo moralismo de minha parte? Talvez.

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Só que uma coisa é você fazer o que bem entende dentro de sua casa, na companhia de amigos, da mulher ou apenas de si mesmo. Outra, é reunir uma multidão em praça pública numa espécie de ‘point legalize’, como filhotes de um Woodstock retroativo que encontra no momento aberto ao debate sobre as drogas uma forma de afrontar o estabelecido – detalhe para você, ó liberal inconteste: algumas das disposições estéticas e morais ‘das antigas’ constituem até hoje o que de melhor e praticável o homem criou para brecar sua ânsia por conflito e matança. Tudo pode e deve ser permitido, desde que combinado com o vizinho. Voltando à praça, compro uma Brahma na única cigarreira do local.

O comércio parece aquela jaula aquática que Richard Dreyfuss usou para descer ao fundo do mar em Tubarão. Uma grade azul circunda um pequeno balcão, e uma improvisada geladeira doméstica refrigera água, Coca-Cola e cervejas. O dono confirma as informações que eu tinha: na quarta-feira obtém o maior lucro da semana. Sinto que a interlocução está truncada e volto a conversar com Aluízio. Há sete anos ele garante uma certa proteção aos moradores, como vigilante e ‘zelador’ da área, um aparelho público deteriorado, com material de poda, sacos e garrafas plásticas e de vidro espalhadas. “Drogas aqui não faltam, não. Chega gente de carro e de moto para vender aqui. Hoje até que não está tão movimentado. Uma vez eu vendi 35 litros [garrafas secas de vidro] que recolhi aqui na praça, depois de uma quarta”.

Vejo um casal de meninos em atitude suspeita, junto ao muro de uma grande casa de esquina. “Ou estão fumando abraçados, ou estão se abraçando sem fumo”. Parecia um sarro juvenil, como nas primeiras vezes em que trocamos contato físico romântico. O grupo de jovens é composto, em sua maioria, por estudantes universitários. Com idade entre 16 e 25 anos, eles, pela aparência e sexualidade, são discriminados em ambientes ‘normais’. Portanto, criar um reduto libertário para extravasar a volúpia juvenil, sempre disponível para ir além do ponto onde o padrão se estabelece, é compreensível. “Mas isso de libertário é papo de Gerald Thomas!”. Como uma ideia nova, para surtir efeito, refuta concorrência, eles querem que a vizinhança entenda que a proposta da turma é apenas se divertir.

O leitor deve concordar que a maioria das pessoas pensa que adolescente solto na rua, tarde da noite, fumando maconha, tomando ‘bala’ (ecstasy) e fazendo sexo ao ar livre é filho de pais desajustados, irresponsáveis, com graves vacilos no caráter. Vários oriundos do interior, onde a repressão à homossexualidade é turbinada pela religiosidade vigorosa, esses jovens encontram na capital o clima perfeito para superar qualquer bloqueio comportamental – quem conhece a Casa do Estudante, na Cidade Alta, sabe do que estou falando; a comuna estudantil possui uma dinâmica moral alternativa, em meio a imundície e a degradação do espaço físico. Entretanto, a praça Amaro de Souza Marinho fica em uma área residencial, circundada por famílias de classe média e alta. O choque seria inevitável.

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GERAÇÕES OPOSTAS

O estudante de engenharia civil Rêmulo Carlos Felippe, 25 anos, frequenta a praça desde 2011. Carioca radicado em Natal há cinco anos, ele diz ser dos pioneiros que queriam fazer do espaço um ponto de encontro dos roqueiros da região. “Antigamente não era o mesmo público. Era só o pessoal do rock que vinha para cá, porque aqui é perto de supermercado, shopping, paradas de ônibus. A maioria mora aqui perto, mas sempre vem gente de outros bairros”. Em sua opinião, mais que problemas relacionados à drogas, existe incomodo e preconceito com o fato de gays estarem em grande número. “Ali sempre teve drogado. Já ouvi isso de moradores. O que eles mais contestam é essa questão da sexualidade mesmo. A sociedade discrimina, solta piadinhas, brincadeiras de mau gosto, e ali os jovens se sentem com mais liberdade, andam de mãos dadas, se beijam, dentro de uma normalidade”.

Do lado oposto, feito comerciantes do estado americano de Oklahoma, que se recusam a atender homossexuais por preceitos religiosos, quem mora no entorno da praça questiona uma série de atitudes dos jovens. É o caso do advogado Gustavo Ezequiel Fonseca, de 43 anos. Ele confirma que nem todo vizinho é contrário (“inclusive tem um que empresta a tomada para eles ligarem o som”), mas que a bronca com a dificuldade de acesso às residências e com o barulho é generalizada. “Esse movimento desvaloriza os imóveis em volta da praça. Foi-se o tempo que morar em frente a uma praça tinha suas vantagens, como arborização, menos poluição sonora e lazer”. Com mais de uma década no endereço, Gustavo já flagrou sexo explícito tanto à noite, como de dia. “Eu escutei os gemidos e fui ver o que estava acontecendo”.

Conversei com os dois no dia seguinte, por telefone. Na quarta-feira, in loco, o que vi foi um lugar degradado, sem atrativos que justifiquem um passeio com uma criança. Casais homossexuais femininos e masculinos com comportamentos adequados, trocando carinhos como qualquer ser tem direito de fazer. Mas existem os arredios, os ‘apêndices’ de um corpo que queria apenas ocupar um espaço. Gritos com palavras de baixo calão e uma sexualidade exacerbada nos faz acreditar no que dizem os moradores. A questão vai além do que é permitido ou não, do que é aceito ou não. Eles estão ali e a conversa está apenas começando. Como disse o Rêmulo Felippe, “o papel do Estado é propor bem estar para os cidadãos, criar leis que combatam a violência, a desordem, mas também o preconceito”.

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    • Genesio Cabral

      Parabéns pela matéria! Retratou a realidade atual da praça onde cresci e que hoje tenho receio em parar em frente por alguns minutos que seja.

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