Prática da consolação

Existem profissionais desacostumados com a emoção. A rotina é o gatilho de sua frieza sem crueldade. É o hábito da…

Existem profissionais desacostumados com a emoção. A rotina é o gatilho de sua frieza sem crueldade. É o hábito da missão diária que torna cada um dos seus interlocutores invisíveis em raras exceções.

Preste atenção a um caixa de banco. Há gente como Mário, lá de onde trabalho. É um cara gentil e agradável. Mário tem o defeito de torcer pelo Flamengo, senão seria perfeito até pela rima com Romário. Os seus colegas, em geral, não são antipáticos, são impessoais, pois a tarefa exige. Eles não podem errar.

Você chega ao guichê, dá bom dia, ele ou ela responde com educação e trata imediatamente de cuidar da tarefa no automático. Em agilidade tática, resolve o pepino, lhe dispensa com um cumprimento leve e chama o próximo que passa pelo mesmo processo. O caixa faz assim com quem trata com milhões e com quem desconta 50 reais. É da natureza dele.

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Observe alguém do ramo de cobrança. De dívida comercial. Ele escuta os lamentos do devedor sem se impressionar, informa sobre os prazos para acertar as contas antes do envio das sanções para a esfera judicial. E ainda cumprimenta. Alguns desejam boa sorte, no automático. É da natureza da função.

Da mesma atmosfera, você pode se irritar a ponto de torcer pela vitória do ditador da Coréia do Norte sobre a Civilização, mas não consegue dobrar a persistência xiita das mocinhas e rapazes das operadoras de telemarketing de celular e cartão de crédito.

O único jeito de se livrar da lábia desse povo que parece ter ensinado rato a subir em garrafa de manteiga do sertão é desligar o telefone. Enganosa a saída. Eles ligam de novo com o visor aparecendo bloqueado.

Insistem com promoções mirabolantes, ofertas espetaculares, arrastam a conversa por descaminhos intermináveis como o Labirinto de Teseu, herói da mitologia grega que venceu o Minotauro, aplicam 171 sofisticado e no final, os ingênuos aceitam e acabam pagando juros, correção monetária e um tranquilizante. Tenho certeza que eles nos mandam pastar assim que desligam. É a natureza deles, é a prática da insistência pela enrolação.

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Sorriso de aeromoça. Viajei algumas vezes e depois do terceiro uísque, afoitos companheiros juravam que a aeromoça lhes daria o telefone celular para um encontro posterior e romântico à base de vinhos e caviar. Aeromoça é fetiche de muita gente.

Aeromoça é classe treinada. Esperta. Olha para centenas dentro de um avião e não demarca o contorno de um rosto. Ri o melhor sorriso japonês e se esquiva. Claro. É a natureza dela. Do treinamento dela.

É a forma dos práticos. Como os intensivistas. Eles não podem se emocionar. Devem manter a frieza e o domínio das crises e emergências para as quais foram cursados e habilitados. Por experiência própria, convivi dias e dias com gente dessa área quando lutei e sofri com a enfermidade de alguém muito, muito querido. Nos chamávamos (eu e o médico) pelo nome.
Meses depois, ainda abalado pelo desfecho da perda de minha avó, encontrei o cidadão numa mesa de restaurante, ensaiei um cumprimento e ele me olhou como se eu fosse terrorista da Al Qaeda. Claro, quantos não passam essa situação na vida dele, diariamente? Eu, no meu desespero, imaginei que fosse diferente. É dele, é da natureza dele.

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O tempo me amadureceu o mantra de não medir sentimento de ninguém. É o que sugiro a todo emocional. A cada ser humano que ainda sofre e chora quando leva uma bordoada como a morte de pessoas queridas. Não, não é da minha natureza a banalidade da consolação.

O abraço e o afago mecânicos são distintos da solidariedade. São fugidios.

A solidariedade é presença até no silêncio. É força na irmandade da dor. Daí não aguentar a natureza dos pregadores com palavras sempre iguais em despedidas que torturam familiares e amigos de quem morre, acidentalmente ou não.

Foi assim, agora, com meu primo Luis Felipe França Maia, 32 anos. Felipe que vi nascer em 1981 e era um rapaz reservado. Iria casar nos próximos dias. Estava fechando compras de enxoval com um amigo, o maior que ele tinha. Ele e Diego, com suas noivas, voltavam da Paraíba e morreram em acidente estúpido. Um seria padrinho do outro.

Mesas plásticas caíram de um caminhão na pista e o carro capotou. Foram enterrados juntos, a mãe de Felipe, minha prima-irmã, que ajudou a me criar, mortificada, durante citações vãs que serão repetidas nos velórios futuros.

Ontem, foi a vez de Natal perder a ginga e a pisada macia de Maurício Baíto, o Paulinho da Viola da amizade, craque de futebol de salão do passado e boêmio sereno. Baíto sofreu um bocado após um AVC. Haja ladainhas de consolação prática para ele. Que pertencia ao universo espontâneo do companheirismo.

 

1 milhão pela Azzurra
O ABC terá que gastar, segundo informações preliminares, R$ 1 milhão para adequar o Estádio Frasqueirão, às exigências da Itália para ser o seu Centro de Treinamento. A Azzurra é tetracampeã mundial e será seguida por um batalhão de jornalistas e fãs do mundo inteiro. Seu padrão é simplesmente VIP.

Time
O ABC deu como certa, ontem à noite, a contratação de Laionel, atacante do Guarani, conforme anunciou a assessoria de imprensa do jogador. Laionel rima com Lionel Ritchie, cantor americano de uma música chatíssima dos anos 1980: Hello.

Experiência vale
Claro que a vida é um processo de renovação, mas não se pode simplesmente ignorar os mais experientes dos caminhos do futebol. Gente com tarimba e conquistas pode ajudar. A maioria vai chegar na Terceira Idade e não gostará de ser discriminada.
 
Vergonha depois da vergonha
O Vasco vai tentar anular o jogo do rebaixamento. Coleção de trapalhadas.

O primeiro no Castelão
No dia 11 de dezembro de 1974, o América conquistava seu primeiro Campeonato Potiguar no Castelão (Machadão), empatando em 0×0 com o ABC e impedindo o pentacampeonato alvinegro. Público de 18.040 pagantes com arbitragem de Arnaldo César Coelho.

Times
América: Otávio; Ivã Silva, Scala, Djalma e Cosme; Edinho, Garcia e Hélcio Jacaré; Jangada (Bagadão), Santa Cruz (Washington) e Reinaldo. ABC: Renato 74; Sabará, Edson, Robertão e Roberto (Anchieta); Maranhão, Danilo Menezes e Zé Roberto; Libânio, Alberi e Morais (Valmir).

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