Precisamos vencer de goleada – Marcos Aurélio de Sá

Em tempos de Copa do Mundo no Brasil, a coluna abre seu espaço hoje para o oportuno artigo do professor…

Em tempos de Copa do Mundo no Brasil, a coluna abre seu espaço hoje para o oportuno artigo do professor paulista Renato Janine Ribeiro (publicado originalmente na edição do último final de semana do jornal “Valor Econômico”), onde ele sugere que a sociedade brasileira se comporte como um time de futebol para superar os obstáculos que se colocam no caminho do nosso desenvolvimento social e econômico.

Renato Janine Ribeiro

Professor de Ética e Filosofia Política na USP

 

Um ignorante em futebol, como eu, não pode discutir táticas de jogo. Mas posso dizer qual imagem me vem, como espectador e torcedor de Copas do Mundo: a de uma tendência de nossas seleções e times a buscarem o placar estritamente necessário para vencer. Frequentemente, quando pedimos uma dose de bebida, ganhamos um “choro”, um adicional; mas não no futebol. Se o Brasil precisar de 1 a 0 para vencer a Croácia, não dará o sangue por um segundo gol; se um empate com o México não nos qualificar, derrotá-lo não será questão de vida ou morte. Com isso, perdem-se a arte, a festa. Lembremo-nos quanto se depreciou o futebol-arte, que dava beleza mas não vitória; no seu lugar, veio um pragmatismo imediato. Imediato, mas arriscado, porque se perde, também, a garantia da vitória. A vantagem obtida não é sustentável. Pode ir para o ralo se, no final do segundo tempo, o adversário empatar e depois virar o jogo.

Não é assim nossa política, nossa sociedade? Muitos procuram compreender o Brasil tendo o futebol como metáfora de nossa ação, ou inação. Aqui me concentro num ponto só: a satisfação apressada com um trabalho ainda não garantido. Uma certa preguiça de ir além, e de arrematar com fecho de ouro, definitivo, o esforço. Um contentamento com o mínimo. Uma desistência de dar o sangue. Uma indisposição de ir além do exigido. O que traz um risco sério e claríssimo, mas ao qual não prestamos a atenção devida: o de perdermos tudo o que fizemos. Como não completamos o necessário, como minimizamos as tarefas que devemos empreender, acabamos deixando tudo mal amarrado. Talvez o nojento comentário sobre aqueles que, se não sujam na entrada, sujam na saída, seja uma forma de atribuir aos mais vulneráveis dentre os brasileiros – aos mais nobres de nós, aos que com seu trabalho forçado construíram este país e foram mal pagos com séculos de preconceito – uma falha de caráter grave que, na verdade, é de quem poderia ir além, e não vai.

Dou um exemplo da mídia. Dois meses atrás, o jogador Daniel Alves inverteu o gesto racista de torcedores europeus que lançaram uma banana em sua direção e simplesmente a comeu. Desarmou o que era uma metáfora dirigida contra ele – como negro, seria macaco e deveria comer bananas. O genial de seu ato foi reduzir a banana metafórica ao que ela é na realidade, apenas um alimento. Transformou um símbolo hostil em coisa benéfica. O ato, como se diz, bombou. Foi até mesmo aproveitado por uma grife de roupas. Pois bem, uma revista afirmou que esse ato acabou com o racismo. Ora, é óbvio que não. O racismo continua presente em toda parte e, embora tenha sofrido um golpe com a banana de Daniel Alves, permanece forte e nocivo. Mas o comentário do órgão de imprensa exprime bem essa preguiça brasileira: se temos um problema sério, tentemos dizer que ele está resolvido. Não nos empenhemos em medir os danos que ele causa, que são altos, em avaliar as medidas requeridas para resolvê-lo, que são custosas, ou as compensações a pagar pelo histórico de prejuízos causados, que são elevadas. Uma solução apenas simbólica se torna muito adequada, porque nos responsabiliza a todos. Dizemos então que não há mais problema, que um único homem, por sua presença de espírito, nos dispensou a todos do trabalho de lutar contra essa praga que nossos antepassados criaram e que continua presente numa hierarquia social em que a maior parte dos negros tem pouco acesso aos escalões superiores da sociedade – uma das exceções sendo, justamente, os jogadores de futebol.

E não é isso o que acontece com a infraestrutura econômica? A região metropolitana de São Paulo está a um passo do colapso, por falta d’água. O sistema Cantareira mal aguenta um ano sem chuvas – mas perde 30 por cento da água em vazamentos nas tubulações da Sabesp. Faltou planejamento? Faltou ação do Poder Público, que nos fez reféns de São Pedro. A culpa não é do acaso pluvial, não é da natureza, mas do trabalho humano insuficiente, que nos deixou à mercê do calendário das chuvas. Ou vejamos o mais de que os empresários se queixam: falta de estrutura nas estradas, energia, educação da mão de obra; de que reclamam os movimentos sociais: falta de transporte público, educação pública, saúde pública decentes; e ainda muitos leitores deste jornal: falta de uma segurança pública suficiente.

Gosto de “Macunaíma”, de Mário de Andrade. No “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade vejo um país rico culturalmente, com grandes potencialidades devidas, justamente, a comer, digerir, alterar os insumos que recebe do resto do mundo. Temos uma civilização original, que não por acaso impressiona tantos estrangeiros. Mas uma de nossas falhas graves está nesta preguiça, neste contentamento com o pouco.

Devemos ir além da gambiarra, consertando ou mesmo refazendo tudo o que é preciso. E devemos fazer isso com técnica e arte. Ao contrário de 200 milhões de compatriotas, não sou técnico de futebol, mas – como a maior parte deles – aprecio o empenho, o esforço, a garra, a satisfação do trabalho bem feito. Goleadas são isso. Abastecimento de água e eletricidade suficientes, sistema viário que funcione também são isso. E no trabalho bem feito há arte. Culpa-se muito o impedimento – que a meu ver tem mais o espírito do cricket, esse incompreensível esporte inglês, do que do futebol – por não haver mais goleadas. Mas temos de criar goleadas na vida social, conseguindo que nossas políticas sociais e econômicas sejam tão garantidas, tão consolidadas – e tão belas – quanto uma vitória destas que nos enchem o coração.

130 mil viajantes utilizam o Aeroporto Aluízio Alves durante os jogos da Copa

– O consórcio Inframérica, operador do novo aeroporto metropolitano do RN, anuncia que desde o último dia 12 (data do primeiro jogo da Copa do Mundo em Natal) até o final da tarde de hoje, foram registrados quase 1.100 voos pousando e decolando no terminal de São Gonçalo do Amarante. Eles transportaram cerca de 130 mil passageiros, em sua maioria turistas adquirentes de ingressos para os jogos na Arena das Dunas.

– Somente no dia de hoje a previsão era de que utilizariam o Aeroporto Internacional Aluízio Alves nada menos de que 10,3 mil passageiros,embarcando ou desembarcando de 74 voos comerciais ou executivos.

– No feriado de Corpus Christi, quinta-feira passada, o grupo Inframérica registrou um movimento de mais de 56 mil passageiros, recorde que demorará a ser quebrado.

Emparn prevê chuvas no litoral Leste e em municípios do Agreste

– A Gerência de Meteorologia da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (Emparn) anuncia para hoje – e durante as próximas 48 horas – boas chuvas no litoral Leste e em municípios localizados na chamada Região Agreste do Estado.

– A causa das precipitações decorre do esquentamento além do normal das águas do mar ao longo da costa Leste nordestina, fenômeno que está associado à presença de Sistemas de Instabilidades de Origem Oceânica.

– Pela análise oferecida pelos técnicos da Emparn, as chuvas nesta parcela do território norte-rio-grandense deverão este ano ficar acima das médias históricas.

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