Preconceito sincero

A semana até passava dormente em polêmicas. O aristocrata Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo, cuidou de esquentar o…

A semana até passava dormente em polêmicas. O aristocrata Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo, cuidou de esquentar o noticiário e de indignar os puros de alma do Brasil ao elogiar o meia-atacante Kaká, seu sonho de consumo no segundo mandato mandando no tricolor: “Tem a cara do São Paulo, é alfabetizado, fala bem português, tem todos os dentes na boca, é bonito, joga bem, faz gols”.

Preconceituosa é o mínimo que se pode dizer da frase de Aidar, que segundo as línguas afoitas, estaria tentando atingir os torcedores do rival Corinthians, representantes da massa de enorme maioria concentrada na pobreza da periferia e usando dentadura ou rindo e mostrando a gengiva.

O presidente do São Paulo só não pode ser acusado da hipocrisia que toma conta de muitos dos seus indignados críticos. Foi sincero. Disse o que pensa e pintou com perfeição de Picasso o retrato de Kaká, o jogador classe A que modela as categorias de base exclusivas aos ricos.

Aidar é de uma família tradicional e poderosa de São Paulo. Pouco afeita a contatos com plebeus. O pai foi presidente do São Paulo nos anos 1970 e teve estreitas afeições com o regime repressivo. Homem forte no Governo Laudo Natel, presidiu a Companhia Energética do Estado de São Paulo e chefiou a Casa Civil, a secretaria mais desejada e prestigiada em qualquer gestão.

A declaração de Aidar, o filho presidente, reflete a sua essência, a sua formação. Seu ato preconceituoso foi dito às gargalhadas, algo comum em roda de potentado quando alguém comenta a falência de outro.

A história também prova que Aidar foi presidente regional da Ordem dos Advogados do Brasil, entidade sempre ligada à defesa das liberdades individuais. Seu mandato não registra maiores feitos ou desfeitos. Passou.

Na primeira experiência de cartola tricolor , conseguiu cumprir uma gestão primorosa. Montou o timaço do São Paulo na segunda metade dos anos 1980, não exatamente formado por beldades. Jogavam Silas, Muller, Careca, Pita e o ponta Sídnei, um negro, no ataque.

Eram os Menudos de Cilinho, campeões paulistas em 1985 e brasileiros em 1986, já sob o comando de Pepe, ex-ponta do Santos de Pelé, outro possivelmente fora do time de belos de Aidar. Carlos Miguel Aidar poderia ter ficado calado, disse bobagem, mas falou alto o que muita gente diz sussurrando.

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O preconceito no futebol brasileiro vem dos tataravós. O Fluminense não aceitava que seus jogadores frequentassem a sede social e ganhou o apelido de pó de arroz, pois um jogador mulato usava o artifício para disfarçar a cor e ter vez no time. No Rio de Janeiro, o Vasco foi o primeiro clube a aceitar negros e no Rio Grande do Sul, o Internacional quebrou a barreira racista.

O Brasil fez sua primeira excursão oficial para a Europa(fora Copa do Mundo ) em 1956 e no relatório final, os cartolas acusaram a indisciplina de “jogadores negros” como o meia Walter Marciano e o ponta Sabará, ambos do Vasco da Gama, um por beber no hotel e o outro, por “aparecer de toalha diante do embaixador brasileiro na Itália”.

A tal viagem, comandada pelo técnico Flávio Costa, considerado dono absoluto do futebol brasileiro, serviu de base para a reformulação imposta por João Havelange, levando para a Copa da Suécia, profissionais como chefe de delegação, supervisor, dentista e psicólogo.

O presidente do São Paulo, Miguel Aidar, deve saber, porque é um homem lido e entendido, que um saco inteiro de dentes foi extraído de jogadores brancos, mulatos e crioulos, depois que os médicos descobriram focos dentários em contusões crônicas. Eu soube pelo livro Estrela Solitária, de Ruy Castro.

Livro que é a biografia de Garrincha. Garrincha, aliás, torto, feio, desligado do mundo dos mortais, reprovado no teste psicológico feito pelo Doutor Carvalhaes, que também observava a fragilidade emocional de negros como Djalma Santos, Didi, Moacir e Pelé.

Djalma Santos, Didi e Pelé estão no pôster do título. Moacir não está porque era reserva de Didi. Imagine aí se Doutor Carvalhaes fosse levado a sério em 1958. Não teríamos passado pela Áustria.

Falou besteira o cartola do São Paulo. Preconceito gratuito. Humor de velório. Nada diferente do que dizem os marginais de arquibancada quando chamam jogadores negros de macacos.

Nada diferente do que faz a Fifa, quando exclui os pobres da Copa do Mundo no Brasil construindo arenas onde só entram os ricos, bonitos, alfabetizados, “com todos os dentes na boca”, do jeito que Aidar gosta. A diferença é que pouca gente nota ou reclama.

Eu também erro

O técnico do América, Oliveira Canindé, ao criticar o rendimento do time na vitória contra o Boavista pela Copa do Brasil, acerta de novo. Seu estilo simples desmonta a boçalidade do “eu ganhei, nós empatamos e vocês perderam”, comum tanto em ABC quanto América nos últimos quatro anos.

Arthur Maia

Se Fabinho, um monstro tático, cumpriu sua parte, a ausência de Arthur Maia mostrou o quanto o América depende da habilidade do seu camisa 10, o único jogador de nível técnico inquestionável no futebol potiguar.

Mudar

Mais que um erro, será uma provocação à torcida do ABC se o técnico Zé Teodoro mantiver os volantes Smoller e Daniel Amora no time contra o Boa Esporte. Smoller até foi mais ou menos na estreia, mas Amora azedou de uma vez por todas.

Nova meiúca

Os novos volantes Liel e Renan Silva com Octávio recuado e João Henrique mais próximo do ataque é a formação adequada. Gilmar e Dênis Marques à frente.

Oito na Copa

Dos oito jogadores antecipados por Felipão para a Copa , dois são de arrepiar: o goleiro Júlio César, que deveria estar aposentado desde os dois frangos contra a Holanda em 2010. Que me desminta categoricamente. Outro é o atacante William, muito menos jogador que o lépido Bernard, ex-Atlético (MG).

Correria

Ao mencionar Júlio César, Thiago Silva, David Luiz, Ramires, Oscar, William, Paulinho e Fred, o técnico da CBF confirma a escolha da correria e da força, o que é coerente com ele.

Criatividade

A criatividade cabe apenas a Oscar. Paulinho entra pelo que fez na Copa das Confederações. Se Hernanes sobrar, vai ser duro de assistir.

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