Presentes e ausentes – Rubens Lemos Filho

Nada que me é desejo é matéria luxuosa. É humanismo puro. O que quero, completados desde meia-noite meus 44 anos…

Nada que me é desejo é matéria luxuosa. É humanismo puro. O que quero, completados desde meia-noite meus 44 anos de vida é um neto. Sonho e planejamento de passagem de bastão. Não quero dinheiro além da conta , nem status, nem ostentação, um neto que me venha saudável e amigo, porque neto é perpetuação. No caso do meu, que venha melhor.

Quero um neto homem que seja um pouco o neto que fui do avô que conheci aos 10 anos de idade e depois sumiu, voltou a São Paulo onde morreu e fiquei sabendo quando estava aos 20, prestes a me casar. Quero um neto que saiba amar do jeito que amei a minha avó, a figura que mais me ensinou, me enternece e entristece. Meus avós paternos estavam mortos quando nasci.

Amarei meu neto da forma que ele for, mas quero um neto homem para contar sobre minhas peladas de rua e ensinar a ele exatamente como não se deve tratar uma bola. O clichê da chegada será o kit com a camisa dos meus times de coração – ABC e Vasco e a esperança de que ele viva um mundo melhor do que o meu.

Desejo nesta curva para desvios arriscados na saúde, que meu neto me dê tempo para contá-lo a vida do bisavô, para que possa mostra-lo, ainda novinho, as revistas, filmes e velhos livros sobre futebol que é a arte compartilhada se o destino me for amigo e camarada.

Não tenho pressa. Os meus filhos, muito menos. Que vivam e amadureçam. Sejam livres e maduros, antes da maior missão humana.

Tenho é vontade de sentir uma sensação diferente, a renovação de um sentimento de afeto e a perspectiva de que um dia, alguém diga, lá do longe dos tempos, que teve um avô chato, rabugento e coruja. O tempo cuidará da missão para mim. Enquanto ainda há tempo.

 

Convocação de Dunga

A presença virtuosa do menino ex-vascaíno Philippe Coutinho dá uma ensolarada no marasmo sombrio da convocação feita pelo técnico da CBF, Dunga. O Dunga que desrespeitou um timaço de estrelas ao rosnar que craque é apenas quem foi campeão do mundo.

Dunga então é craque. Falcão, que jogou na dele, não. Cerezo também não. Andrade do Flamengo, necas. Dequinha de Mossoró e da Copa de 1954, nunca. Danilo Alvim, tão nobre que chamado Príncipe, nem se fala.

Então craques foram companheiros obtusos do tetracampeonato erguido por Dunga em 1994 e conquistado, de fato, por um craque, um supercraque. O beque Ronaldão, Padrão Rúgbi, o atacante Paulo Sérgio, reserva do reserva do reserva de João Galego do ABC nos idos do Juvenal Lamartine, um ano antes de eu nascer, eram craques como craque foi Viola na Filosofia Dunguista.

Os mencionados obtusos são, na caolha referência, superiores a Oscar e Luís Pereira, só para citar dois zagueiros modelares dos meus cada vez mais distantes anos 1970, que desejo, a cada amanhecer, ter ficado por lá mesmo. Oscar e Luís Pereira, sem citar o chato Edinho, jogavam por 500 Ronaldões de Dunga.

Ontem já falei de outros que a Copa menosprezou para próprio arrependimento: Zico,Messi, Zizinho, Alex, Platini, Riquelme, Cruijff, Di Stéfano,Falcão, Puskas, Ademir da Guia, Dirceu Lopes, Kopa, Piantoni.

Me inspiro e acrescento, em homenagem a Paulo Sérgio, Van Basten e Kluivert da Holanda, Just Fontaine da França e Careca, Careconi do Brasil em 1986. Para Viola eu deixo apenas o retrato autografado por Neeskens, do Carrossel Holandês de 1974.

A lista de Dunga mantém alguns vexatórios do Mineirão. David Luiz se aguenta. Neymar é, hoje, unanimidade em terra de cego. Faltou Ganso, que do jeito que está, sobra.

Faltou Pato, melhor do que o viking Hulk. Pato, o pálido. Robinho não pedalou, reclamou. Entre ele e William, sei não, é duelo de banguelos de chuteiras.

Pior é a insistência com o limitado volante Luiz Gustavo, com Fernandinho, diminutivo no nome e no futebolzinho, com Ramires, o maratonista e Oscar, o clone de Zinho, a Enceradeira que ajudava Dunga a combater habilidosos na Copa Romário 1994.

Dunga, na nominata, mesclou, mas, no conjunto da obra, Felipou. Eles não admitem, mas compõem a suave silhueta do rinoceronte desagradável e assombroso dividido por dois.

 

Renato

O ABC de jeito nenhum. Quem merece os aplausos pela vitória histórica sobre o Ceará é o monstruoso jogador Renato, seguramente, dos melhores laterais que já passaram pelo clube. Marcou os dois gols, ocupou espaços, descobriu clarões pela sua própria visão de lince. Renato é diferente de todos os outros. Já havia mostrado. Ontem, carimbou.

Sábado

A vitória sobre o outrora invencível Ceará motiva a torcida para sábado, no Frasqueirão. E aí? O ABC vai continuar dependendo do talento de Renato ou se encontrará como um time, com 11 e um esquema tático de confiança? A Frasqueira merece estar segura.

Na pequena área

Está o defeito do goleiro Gilvan. No gol de empate do Ceará, que foi contra, de Marlon, quem errou mesmo foi Gilvan, ao sair com mãos moles, mãos de abanador, deixando a bola escapar. Marlon completou a presepada e empurrou para dentro.

Papelão

Do América ao desencantar uma torcida maravilhada por duas belas vitórias fora de casa. Uma delas, épica, eliminando o Fluminense na Copa do Brasil em pleno Ex-Maracanã. Depois, passeio no Icasa. Então, a Ponte escureceu o sorriso rubro.

Morais

Há certas decisões de técnicos que merecem Julgamento pelo antigo Tribunal de Nuremberg. Oliveira Canindé deixar Morais por 15 segundos que sejam fora do time quando ele tem condições parece pirraça do amigável técnico do América. Morais entrou e o América mudou. Tarde.

Jogo duro

O América passa a ser o que o ABC era. Um time buscando recuperação. E pega o Náutico no calor climático e ainda emocional que toma conta de Recife desde a tragédia que matou seu maior líder popular.

Eduardo em paz

Emocionantes, dolorosas, verdadeiras. Foram as imagens de desmoronar de Eduardo Campos no início do horário eleitoral. Bela homenagem a ele e aos companheiros mortos. Agora é deixá-los em paz. Em repouso. A biografia de Eduardo não merece servir de mote eleitoral para ninguém. Quem fizer, é abutre.

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