Presidente da Ancoc acusa a governadora Rosalba Ciarlini de excluir criadores

Programa RN Sustentável não incluiu a caprinovinocultura nos projetos, mesmo sendo atividade viável em tempos de seca

Na última Festa do Boi, governadora Rosalba Ciarlini teve direito até a café da manhã com criadores, mas relação hoje está em crise. Foto: Heracles Dantas
Na última Festa do Boi, governadora Rosalba Ciarlini teve direito até a café da manhã com criadores, mas relação hoje está em crise. Foto: Heracles Dantas

Marcelo Hollanda

hollandajornalista@gmail.com

 

De nada adiantou o jantar oferecido à governadora Rosalba Ciarlini pela Associação Norte-rio-grandense dos Criadores de Caprinos e Ovinos do Rio Grande do Norte (Ancoc) ainda durante a última edição da Festa do Boi, em outubro de 2013.

Era uma noite de segunda-feira e estavam lá o então secretário adjunto da Agricultura, Tarcísio Bezerra, hoje titular da pasta; o secretário da Tributação, José Airton da Silva; o presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Norte, José Álvares Vieira, além de criadores de caprinos e ovinos do Estado, entre eles o presidente da Ancoc, Alexandre Confessor, que posou para fotos de braços dados com a governadora.

Ontem, a O JORNAL DE HOJE, o presidente da Ancoc deu a entender que se havia um clima de cordialidade com o governo, ele está estremecido. Surpreso por não ter sido convidado, na última sexta-feira (24) para uma reunião do RN Sustentável que debateria um projeto para a ovinocaprinocultura potiguar, Confessor pergunta os motivos pelos quais não foram chamados para o encontro a Emater, a Ancoc e a Câmara Setorial da Caprinovinocultura do RN.

Com o título “RN sustentável em que e pra que?”, o presidente da Ancoc diz que “um grande projeto para o setor da caprinovinocultura do nosso estado vem sendo conduzido e tocado sem ouvir os anseios e sugestões dos setores que fazem aos trancos e barrancos o bom andamento do nosso segmento”.

E emenda: “O projeto desta dimensão não pode ser tocado às escuras e longe dos segmentos que vem lutando para continuar com a bandeira erguida, uma vez que – acreditamos – a solução para o nosso semiárido nordestino só existe uma, que é a caprinovinocultura.”

Ouvido ontem à tarde a respeito pelo JH, o secretário de Agricultura, Tarcísio Bezerra, disse apenas que já existem técnicos da Emater envolvidos no projeto, mas sugeriu que o ex-secretário Simplício Holanda, a quem coube articular o encontro técnico, fosse ouvido.

Localizado pela reportagem, por telefone, Simplício Holanda, que atualmente gerencia a unidade de execução setorial da agropecuária do RN Sustentável, informou que o encontro foi um evento interno ligado ao programa e assim que as propostas estejam maturadas elas serão debatidos no âmbito na Câmara Setorial da Caprinovinocultura.

“É assim, com essa metodologia, que o RN Sustentável funciona, tanto em assuntos ligados ao campo, como da educação e outras tantas frentes dentro do governo”, afirmou.

Já o presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Norte (Faern), José Álvares Vieira, interpretou diferente a colisão entre Alexandre Confessor e o governo Rosalba. “Se esta administração estivesse conectada com os setores da economia e da sociedade esse tipo de mal entendido não apareceria na imprensa”, avaliou.

Vieira atribuiu a descontinuidade do diálogo com o governo Rosalba como a eterna fonte dos problemas na medida em que os setores do agronegócio se sentem alijados de qualquer debate ou projeto encaminhado pela administração estadual.

Com a seca que assola o Rio Grande do Norte desde 2012, setores como a caprinovinocultura foram mais uma vez lembrados como opção viável para o campo, já que caprinos e ovinos demandam menos manejo e são mais adequados ao clima do semiárido nordestino.

 

Mais vantajoso

Até antes da seca, o RN tinha 396 mil caprinos e 546 mil ovinos e com um rebanho de mais de 900 mil cabeças de bovinos. Já com os ovinos e caprinos, cujo controle não é tão rígido, ficará a certeza de um grande potencial econômico a se atingir quando finalmente caírem barreiras culturais que impedem a ovinocaprinocultura de ver seu real valor numa economia agrária de semiárido.

“No semiárido, quem deveria predominar é o pequeno animal e não o grande” costuma dizer Alexandre Confessor, presidente da Ancoc. Segundo ele, quando o criador precisa apurar R$ 1 mil ou R$ 2 mil em qualquer época do ano ele lança mão de suas cabras e ovelhas, cujos negócios são sempre feitos a dinheiro vivo. E lembra que a cada parida de uma vaca, ovelhas e cabras produzem duas crias, que acontecem a cada cinco meses. Cada boi demanda 10 hectares de terra por ano – um espaço mais do que suficiente para a criação de 10 a 12 ovelhas.

Alexandre Confessor diz, ainda, que na comercialização direta, o produtor tem sempre mais liquidez com os caprinos e ovinos do que com o bovino, no qual a venda é parcelada, com o primeiro pagamento em 30 dias. Já a cabra ou a ovelha com seis meses de vida pode render sem dificuldades de 18 a 22 kg de carne com preços hoje por volta de R$ 10,00 o quilo.

“É possível ver o dinheiro ouvindo a conversa quando a transação envolve caprinos e ovinos e é sempre bom voltar para a casa com um dinheirinho no bolso para pagar as compras ou financiar outras necessidades”, lembra Confessor.

O problema crônico nesse setor, é que não existia um programa de extensão rural exclusivamente voltado para as ovelhas e cabras. A exceção é o programa do leite no qual existe uma sistematização de ações e uma rotina. Fora disso, os casos são atendidos por demanda, pontualmente, quando há uma solicitação de produtores.

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