Presidente da Faern, José Vieira: “Estado não age para reverter crise”

Faern realiza seminário “O que esperar do próximo governo” e cobra mais respeito do poder público com a agropecuária

Foto: José Aldenir
Foto: José Aldenir

Carolina Souza

acw.souza@gmail.com

A pequena capacidade de adaptação às instabilidades que a produção agropecuária do Rio Grande do Norte vem apresentando demonstra o baixo investimento do poder público em diversos segmentos de produção no Estado. Sem instrumentos que possam garantir segurança e proteção de riscos, os produtores rurais vêm sofrendo ao longo dos anos os impactos da falta de infraestrutura e logística para produção.

Para a Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), essas dificuldades mostram que Governo do Estado precisa conhecer os gargalos da atividade rural e elaborar projetos de médio e longo prazo para enfrentamento das instabilidades e desenvolvimento da produção agropecuária.

“Vivemos uma dificuldade muito grande de vaca desconhecer bezerro. Essa é a realidade do Rio Grande do Norte. O Estado não reconhece a crise e não age para reverter o problema”, afirmou José Álvares Vieira, presidente da Faern. “Nos últimos anos passamos por problemas naturais, como a seca, mas também tivemos uma grande dificuldade de gestão. A seca não explica tudo. São as ações de ‘amparo’ que não chegaram na velocidade e quantidade necessária aos produtores”.

Para discutir esse cenário e encontrar soluções para a atividade rural, a Faern reuniu empresários e produtores rurais de diversos segmentos durante o seminário ‘O Que Esperamos do Próximo Governo do RN’, realizado nesta terça-feira (29), no Hotel Praia Mar.

Desse seminário sairá um documento a ser entregue aos candidatos ao Governo do Estado em evento a ser realizado no dia 26 de agosto. “Através desse documento faremos sugestões aos candidatos, mostrando o caminho para voltarmos a ter uma economia forte, com produtores qualificados, renda, segurança no campo, assistência técnica e tecnológica, acesso ao crédito desburocratizado e licenciamento ambiental mais facilitado”, explicou.

A atividade agropecuária no RN tem enfrentado momentos de crise, perdendo participação na economia. Fatores como preços dos insumos, a tributação, taxas de juros, encargos trabalhistas e falta de infraestrutura, por exemplo, interferiram de forma importante no desempenho do setor agropecuário.

Em poucos anos o RN deixou de ser o maior produtor de camarão, sendo vencido na atividade pelos cearenses, os quais, atualmente, também estão na frente dos potiguares no que diz respeito à fruticultura irrigada, a produção da castanha e a produção do leite de cabra, por exemplo.

Um dos maiores gargalos para o desenvolvimento da atividade agrícola, segundo os produtores rurais, diz respeito à infraestrutura de transporte (responsável pelo aquecimento das exportações).

“Carecemos de infraestutura e logística eficientes. Temos dificuldades com o Porto, que impede o crescimento de nossa exportação, e o transporte nas estradas precisa ser facilitado. A predominância do sistema rodoviário, que tem o custo mais elevado e maior impacto ambiental, constata com a ausência do sistema ferroviário e hidroviário”, pontua José Álvares Vieira.

O engenheiro agrônomo e produtor rural, Guilherme Saldanha, presidente do Distrito de Irrigação do Baixo Açu, destacou que o Rio Grande do Norte, no ano de 2000, produzia e exportava o triplo de frutas frescas que o Ceará exportava. Atualmente, o Ceará produz o dobro do que é exportado pelo RN. “Essa diferença está aumentando cada vez mais”, disse.

Segundo considerou Guilherme, para reverter esse cenário, é preciso de mais infraestrutura. “Não podemos colocar a fruta em uma estrada ruim e ela chegar ao porto já danificada, antes de ser embarcada. Precisamos também de Porto eficiente. Um bom movimento de carga é ter um navio que movimenta pelo menos 500 a 600 contêineres por semana. Já imaginou colocar no trânsito de Natal mais de 200 carretas por dia? O trânsito, que já é infernal, para completamente. Precisamos tirar o porto daqui e colocar próximo às áreas produtivas”, afirmou.

Além da infraestrutura de transporte, Guilherme Saldanha considera a legislação ambiental ‘um grande dificultador’ da atividade agrícola. “Precisamos de uma revolução que seja compromisso de todos os governos. O Idema, hoje, é um órgão do governo que dificulta a vida dos empresários. Não podemos solicitar uma licença do Idema e esperar até dois anos para colocar o negócio para funcionar”, declarou.

Faltou projeto

O Seminário ‘O Que Esperamos do Próximo Governo do RN’ também foi realizado durante a última campanha para governador, com sugestões de ações a serem trabalhadas pelo Governo do Estado entre os anos de 2011 e 2014. De acordo com a Faern, faltou a aplicação de um projeto eficiente.

“Para ser mais exato, faltou um projeto eficiente e de médio-longo prazo. Não podemos ficar a todo momento apagando fogo. Sempre que vem um período de seca é o mesmo alvoroço do Governo. A gente sabe que a seca sempre virá. Temos três meses de incerteza de chuva e nove meses de certeza que não irá chover. Por isso precisamos de programas e projetos estruturantes, garantindo segurança hídrica e mantimento da atividade agropecuária”, avaliou Vieira.

Em vista à falta de investimento do atual governo, Vieira disse que os produtores rurais precisam de mais respeito do Governo do Estado. “Não estamos aqui pedindo esmola. Estamos trabalhando para voltar a movimentar a economia do Estado através da agropecuária, que sempre foi um dos maiores setores a gerar emprego e renda. Os produtores rurais merecem mais respeito”.

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