Primeira noite teve show morno de Simona Talma e virtuosismo de jazzistas

Homenagem a Ella Fitzgerald e Louis Armstrong deram tom ao evento

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

Eu avançava feito um cágado, na selva infestada de bestas-feras que virou o trânsito nas imediações das ruas Dep. Clóvis Motta e Raimundo Chaves, perto do que um dia foi pensado para ser um presépio de Oscar Niemeyer, em Candelária, quando o relógio marcava 18h40. Olhava para a fila estática e sabia que levaria mais uns vinte minutos para chegar em casa. Nenhum amarelinho por perto. Cada um por si. Motivo: o jogão entre ABC x Palmeira de Goianinha (sem o S mesmo), na nova Arena, pelo campeonato estadual. Estava preocupado com o horário de início do show de Simona Talma no 3º MPB Jazz – ainda ia tomar banho, jantar, me arrumar e enfrentar a Romualdo Galvão para chegar ao Midway Mall, sessenta minutos depois de começar a fazer tudo isso. Resultado: sentei na cadeira de estofado esverdeado já na segunda música do roteiro da participante da última edição do The Voice. Tudo bem. Tinham mais oito pela frente, além de uma galera de Nova Orleans.

 

Escrever sobre um artista local cria as opções abaixo. O xis deve ser riscado com calma.

1º- Despejar linhas maravilhosas, consistentes, que lhe trarão aplausos e respeito.

2º- Despejar linhas maravilhosas, nem sempre consistentes, que lhe trarão agradecimentos e simpatia generalizada do corporativismo reinante.

3º – Detonar o indivíduo em questão e virar persona non grata no meio.

 

Talvez as respostas sejam extremistas. Nem soberbos, nem esdrúxulos, por aqui tem muita gente boa, que merece linhas coloridas de quem se atreve a comentar o inexplicável- falar sobre música tem um pouco de achismo, sobretudo para quem passa longe de ser crítico especializado, como eu, pois ao contrário das outras artes, ela é invisível. Como descrever um som para o leitor comum sem abusar de analogias? Um vibrato, por exemplo, como soa? Na verdade, tenho pavor de resenhas academicizadas, mais preocupadas em exercitar a teoria do exposto do que a pura experiência, como se a música partisse do texto, e não o contrário. Portanto, sem o entorno, a ‘fruição estética’ vira tese.

Dito isto, confesso que nunca simpatizei com o trabalho de Simona Talma. Tinha visto alguns vídeos e ouvido faixas acompanhadas de comentários grandiloquentes de produtores e apreciadores nativos. Sempre apertava o player com o ouvido atento, disposto a perceber o talento juramentado por terceiros. E sempre colhia minutos de arranjos e composições esmeradas, porém sem Aquele arrebatamento a que somos levados após a fina sintonia entre nosso cerebelo e as notas entoadas. Foi com esse espírito que acompanhei o show de abertura da primeira noite do MPB Jazz 2014. Abro um parêntese para um dado. Das dez músicas executadas, sete têm a assinatura de Simona (a maioria em parceria com Luiz Gadelha). Isso por si só é um mérito tremendo. Pisar no palco de um festival bem divulgado e arrancar efusividade de um número considerável de presentes (cerca de 80% do recinto estava ocupado) com temas próprios é coisa de profissional. A mistura de rock, blues e MPB que ela faz funciona bem. Quanto a isso, há unanimidade.

O que me surpreendeu positivamente foi a qualidade da banda. Liderada pelo guitarrista Toni Gregório, o quinteto forjou uma sonoridade impactante, com pegada roqueira e blueseira na medida certa para emoldurar as letras melancólicas de Simona (uma espécie de Silvia Machete menos sorridente). A formação tem também contrabaixo acústico (Ramon Bezerra), bateria (Daniel Garça), piano, escaleta e teclado (Fábio Rocha) e gaita (Micael Martins), tocados por gente tarimbada em outras bandas da capital potiguar, como a Orquestra Boca Seca. Uma encenação com um voluntário vestido com uma camisa do Palmeiras (esse com o S no final) e um copo d’agua jogado no próprio rosto compõem o instante teatral da apresentação. A graça animou um gaiato, que pediu em voz alta uma oportunidade no vocal. “Vai ficar para depois, porque essa eu não entendi”, tascou Simona. Um dos melhores momentos veio na versão de Meu Mundo Caiu, de Maysa, com o riff elaborado por Gregório semelhante à Symptom Of The Universe, do Black Sabbath. O fim do show repentino foi uma bossa acertada.

No intervalo, a Bossa & Jazz Street Band, coordenada pelo maestro português Eugênio Garça, trouxe o clima de rua para a estrutura do Teatro com clássicos populares dos dois países representados – como When The Saints Go Marching In, de Louis Armstrong. Afinal é a proposta desta edição do MPB Jazz: fazer a articulação entre a capital da música norte-americana e a terra dos potiguares, como um intercâmbio entre povos que surgiram às margens do rio Mississipi e no Sertão Nordestino. Já nos camarins, a curadora e uma das organizadoras do evento, a cantora Valéria Oliveira, falou do período crucial que passou na Louisiana, em 2012, para estabelecer contato com os músicos convidados. “Nossas possibilidades de atrações eram enormes. Conheci gente maravilhosa no mês e meio que passei por lá. Como a receptividade do projeto no ano passado foi ótima, resolvemos ampliar este ano. Em Nova Orleans eles fazem um som mais genuíno e se divertem muito. Poder dividir isso com o público de Natal tem sido muito gratificante”.

O telão anunciava uma tentadora excursão à cidade americana supracitada, durante um dos inúmeros festivais que acontecem naquele caldeirão cultural que envolve traços franceses, espanhóis, ingleses e negros da região do Daomé, antigo reino na África Ocidental desmembrado em países, como Benin, Gana, Costa do Marfim e Senegal. Por R$2,5 mil o viajante pode passar seis dias no trecho dos Estados Unidos onde a música corre nas veias de cada cidadão – por incrível que pareça, na época em que Napoleão vendeu a Louisiana para os ianques, em 1803, o Haiti era a colônia mais próspera do Ultramar Francês e enviava mais riqueza à metrópole do que as treze americanas à Inglaterra, até a Independência delas, em 1776. Como os portugueses, que se esbaldaram com índias e escravas no Brasil, os franceses se engraçaram com as negras, para criar os mestiços creoles. De início, eles tiveram liberdade e formaram uma espécie de aristocracia alternativa, com educação europeia e forte incentivo musical. Só que no século XIX, veio a segregação, e os creoles foram jogados no mesmo balaio dos negros genuínos. Dessa miscelânea de mestiços europeizados com escravos, cuja música trazia o improviso e a funcionalidade em sua origem, surgiu o jazz.

 

Homenagem

Até que uma banda típica de jazzistas se posiciona no palco. Mitchel Player do contrabaixo agradece o convite de Valéria Oliveira e relembra o perrengue do dia anterior, com a nevasca que caiu em Nova Orleans. O atraso quase cancelou o voo, que deixou a organização em suspense, a ponto de o pior ser cogitado (o cancelamento da principal atração do dia inaugural). Ainda que Ella Fitzgerald fosse uma das homenageadas, foi na figura de Louis Armstrong que o porta voz da banda focou seus comentários introdutórios. Com razão. Se existisse uma prova em que uma das questões para responder a pergunta Quem é o músico emblemático do jazz?, acertaria quem apontasse a letra com o nome do sujeito bonachão, de sorriso caricato, que revolucionou um gênero ao criar o personagem do solista, com recursos cênicos, escancarando caretas, promovendo a perfeita integração física com o instrumento (trompete). A história registra um antes e um depois de Armstrong. E era para provar isso que Gerald French (impressionante baterista), Meghan Swartz (piano), Seva Venet (guitarra) e, principalmente, Leon ‘Kid Chocolate’ Brown soltaram calor emocional.

Homem simples, pouco articulado, um brejeiro que explorou raízes da cidade como ninguém, Armstrong era a voz de um povo no som do trompete. Mesmo saindo de Nova Orleans no começo da década de 1920, rumo a Chicago, tida como a segunda capital do jazz, no rico norte industrial, ele manteve as características que o transformaram em um fenômeno – o que motivou críticas ácidas da geração seguinte, a do bebop, que o acusam de ser um Pai Tomás submisso aos brancos; tudo por se manter afastado da política. Após o show, conversei com Chocolate Brown sobre o pós-Katrina, o furacão que reconfigurou a urbe e a cultura de Nova Orleans. “Muitos músicos foram embora e muitos vieram para New Orleans também. Um lado da moeda é que os que chegaram não conheciam a cultura local, se aproveitando dessa cultura sem conhecê-la, sem soar como música de Orleans. Eu aprecio o que está no coração”. O trompetista que já gravou com Harry Connick Jr. e Lenny Kravitz abriu a sessão.

O standard Cheek To Cheek (gravado por Frank Sinatra e meio mundo) iniciou o set com o duo de Chocolate Brown e Eileina Dennis. A cantora mostrou extensão e potência vocal para conduzir sozinha cinco temas interpretados por Ella Fitzgerald (In A Mellow Tone, On Green Dolphin Street, Blue Skies, Moon Light in Vermont, Them There Eyes). Além de simpatia, com gracejos em português (“Oi, meninas, tudo bem?”). Não sei se o romantismo sonoro foi tão intenso, mas um irrequieto casal de mulheres levantou algumas vezes, ao meu lado, para dançar coladinho. Uma delas, nos números mais alegres, sacolejava como se estivesse com uma mamãe sacode nas mãos. Todo mundo concentrado, de olho no palco, e ela mais energizada que dançarino de kuduro. “Fica quieta aê!”, tive vontade de dizer. Em respeito a Louis Armstrong, deixei para lá. Suas músicas fluiam uma a uma. They All Laughed, Shine, All of Me, Mack The Knife, I’ll be Glad When You’re Dead (you rascal you)

O Segundo parêntese aberto será para o baterista Gerald French. De onde eu estava, o cara lembrava o sambista Péricles, bem gordão, imenso. Boto a maior fé em batera com essa estampa. Pelo tamanho imponente, eles ocupam todo o espaço entre o bumbo, surdo, tom-tom, chimbau, caixa e os pratos. O que dá a impressão de que fazem menos esforço para tirar aqueles sons maravilhosos e rebuscados que uma banda de jazz necessita. Ele se impôs em meio aos feras que ainda tocaram cinco músicas, novamente com os dois cantores na dianteira (I’ve Got My Love To Keep Me Warm, Let’s Call The Whole Thing Off, I Won’t Dance, Our Love Is Here To Stay). Para retribuir a gratidão que sentiram por tocar no Deep South brasileiro, o último número surgiu meio que fora do combinado, pois as luzes do teatro tinham acendido, como um “levanta todo mundo que a noite acabou”. Deram uma carimbada no ingresso com precisão. Hoje à noite, tem mais. Duo Tauffic, Aurora Neadland (Nova Orleans) e a diva Orleans, Germaine Bazzlle, veterana do MPB Jazz. Ficar em casa nesta sexta-feira não é a melhor pedida.

MPB Jazz

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