Prisão de Rivotril foi espetáculo tôsco do Estado para abater o fruto podre

Refuto a tese de que bandido bom é bandido morto. Acho a expressão um dos maiores sintomas de que a vaca brasileira está no brejo faz tempo

Isaac Heleno, o Rivotril. Foto: Divulgação
Isaac Heleno, o Rivotril. Foto: Divulgação

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

Tem um zelador aqui do prédio que mora em Mãe Luiza e é colega de infância de Isaac Heleno da Cruz, o Rivotril. Ele confirma o que dizem sobre o Billy, The Kid do morro, quanto a ser um sujeito tranquilo e, aparentemente, pacífico, antes de entrar no vício e fertilizar a faceta sombria de sua personalidade. Descia a ladeira para vir trabalhar, na hora em que ouviu o tiroteio que culminou com a prisão do bandido mais procurado de Natal, em uma operação cujo efetivo de dezesseis policiais, depois daquela Tempestade na Favela com helicóptero e tudo, cerca de um mês e meio atrás, diz muito sobre a penúria da segurança pública potiguar. Preso com um colete à prova de balas, cocaína e, claro, cartelas do tranquilizante mais amado do Brasil, ‘Rivotra’ foi transformado em celebridade.

Muito pela incapacidade de articular uma investigação inteligente para chegar até o homem de 28 anos que aterrorizava aquele arremedo de duna e Mata Atlântica ocupado por meros 25 mil habitantes, o que se viu foi um espetáculo grotesco do Estado contra um fruto podre da sociedade. Mãe Luiza tem duas avenidas e fica ao lado do bairro mais rico da capital, mas vive abandonado feito um vira-lata doente. Daí que os ‘barões do crime’ semianalfabetos, que matam rivais e roubam pequenos comerciantes para manter a doidera narcótica, são simulados na mídia e tratados pela polícia como responsáveis por todo o mal. É questão de tempo para surgir outro Rivotril – quem sabe um Diazepan? Teve até coletiva de imprensa para anunciar o sucesso no tiroteio das seis da matina de ontem.

Tudo bem perto do posto policial existente no bairro. “Ah, mas ele conhece a mata fechada como ninguém e a polícia não pode chegar arregaçando por causa dos diretos humanos”, dirá algum defensor da parafernália estatal usada na caçada. Certo, cara-pálida socialista, só que eu pergunto: O Governo Federal de vocês gosta de brigar ideológica e economicamente com os Estados Unidos, o Grande Império Opressor, não é? Pois eles cruzaram o planeta (mais de 11 mil km!) e foram pegar Osama Bin Laden numa caverna nos confins do Afeganistão, um país frio e montanhoso, infestado de terroristas armados até os dentes. Quer um exemplo mais próximo? A Colômbia, maior parceira do ‘Império’ na América do Sul. O negócio lá beirou à Guerra Civil, e foi resolvido com o Exército indo pro pau, sem peninha da Turma do Escobar.

Refuto a tese de que bandido bom é bandido morto. Acho a expressão um dos maiores sintomas de que a vaca brasileira está no brejo faz tempo. Mas um choque de contraviolência organizado por governos municipais, estaduais e Federal é mais do que necessário para impor alguma ordem na esculhambação vigente. Vejo os políticos locais do PT ativos nas redes sociais, cada um mais eloquente que o outro na hora de anunciar números, ações, projetos (nem sempre verdadeiros ou exequíveis). Por que não se pronunciam sobre o que todos comentam, reclamam, sofrem, choram e gastam dinheiro extra? A raivosa Fátima Bezerra, outrora uma das mais combativas mulheres potiguares, que apontava o dedo para tudo e para todos, virou Paz & Amor também?

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Se a PM é do Estado, as fronteiras são de responsabilidade de Dilma e Cia. É por ali que entra droga e os reais armamentos pesados (que Rivotril tanto queria para resistir por mais seis meses). Qualquer maconheiro sem vergonha fala em fumo ‘paraguaio’, por supuesto, antes de mirar a lombra para o polígono pernambucano. A governadora Rosalba Ciarlini, valha-me Nietzsche, conseguiu piorar o que já era péssimo (por isso o pesadelo está de volta no topo das pesquisas). Ela e sua equipe política veem a violência se alastrar feito uma metástase e botam a parte técnica para vender uma história surreal, digna de um manifesto de Salvador Dalí. “Nós vamos estar fazendo acontecer!”, é o tiro em nossa culatra lexical. E as execuções continuam em nossa porta. Cadê a horda pelos R$0,20 do buzão? Está como a maioria, dopada por um ansiolítico qualquer, passando o dedo na tela do iPhone e comendo junkie food.

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