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Profissão repórter

Data: 05 março 2013 - Hora: 15:25 - Por: Conrado Carlos

Outro livro que poderia ser usado na bibliografia de várias disciplinas do curso de jornalismo é esse “Exclusiva”, da inglesa Annalena McCafee. Sem forçar a barra com ares doutrinários, a esposa do também escritor Ian McEwan (“Reparação”, “Amsterdan” e “Sábado”) usa o encontro entre duas mulheres para tratar da profissão que passa por grandes mudanças desde que a internet encurtou distâncias.

A partir do momento em que Tamara Sim, jovem, ambiciosa e despreparada repórter da revista Pssit!, suplemento de celebridades do jornal The Monitor, é enviada para entrevistar a ex-correspondente de guerra e icônica Honor Tait, uma série de tópicos sobre A Arte do Fato é aberta, com a ascensão do meio virtual e o esvaziamento dos impressos como pano de fundo.
A história é ambientada em 1997, segundo a autora, último ano para detratores da nova mídia que surgia enaltecerem a soberania dos jornais. Depois disso, foram reconfigurados escrita, edição, diagramação e conceitos sobre o fazer jornalístico.  O livro é a estreia de Annalena na ficção, mas, com a cabeça iluminada que divide os lençóis de tutor, parece uma veterana esperta nos temas vigentes.

Ela conheceu McEwan, com quem está casada há 15 anos, em uma entrevista para o Financial Times, em 1994. Trabalhava na editoria de cultura do Evening Standard quando leu uma famosa previsão de um popular colunista britânico que dizia ser a internet mais uma onda passageira. Foi daí que tirou argamassa para construir uma trama que envolve diferenças na qualificação, na ética e nos desejos dos jornalistas atuais e de antanho.

“As redações estão impregnadas de batom e salto alto”, esbraveja a narradora. Honor Tait é uma decana da informação que viveu em meio às estrelas de Hollywood, sentou à mesa com líderes mundiais e rodou o mundo para por os olhos em conflitos armados, tudo à base do charme pessoal, conhecimento variado e senso crítico depurado por frequentar as artes. Enquanto Tamara é esforçada, assídua, pau pra toda obra, mas inculta.

O primeiro encontro das duas, na casa de Honor, que, mesmo idosa, fez uma faxina na casa para esconder objetos que revelassem detalhes da personalidade (a cena é hilária), opõem tradição e modernidade das redações. A fraqueza intelectual da jovem guarda e as ambiguidades morais dos mais antigos estão no centro da relação. A mulher que conversava com Churchill amarga a percepção de que suas reportagens viraram pinturas rupestres. A especialista em besteirol almeja a Grande Reportagem.

Annalena McCafee superou o câncer duas vezes (aos 20 e aos 30 anos). Autora de oito livros infantis, ela chega ao universo literário pela porta da frente. Os jogos psicológicos entre as duas protagonistas, o desespero da imatura em emplacar em um veículo prestigioso, as críticas ao jornalismo em escala industrial (preciso, asséptico, pragmático, robótico) em detrimento de boas histórias, são bem alinhavadas por uma escritora com larga experiência.

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