Projetos de saúde expandem atendimento até residências e presídios em Parnamirim

Iniciativas criadas na Secretaria de Saúde do município estão sendo reconhecidas nacionalmente

Parnamirim--JA--(2)

Marcelo Lima

Repórter

Simplicidade e inovação. Aparentemente essas duas palavras não têm sinergia. Mas essa dupla de vocábulos define muito bem dois projetos na Saúde Pública realizados em Parnamirim e reconhecidos nacionalmente na Mostra Brasil Aqui Tem SUS.

A fisioterapeuta Mariana Melo é a autora do projeto que vai ser exposto na roda de conversas da Mostra no próximo mês, no Espírito Santo. A profissional de saúde criou um DVD em que mostra alguns movimentos para que pessoas em reabilitação motora repitam, auxiliadas por seu cuidador, após intensa orientação do fisioterapeuta. “Esse projeto tem o intuito de melhorar a qualidade de vida do paciente portador de lesão medular, onde o tratamento foi feito no seu domicílio”, explicou.

O DVD na verdade é só uma etapa do projeto. A ideia dela foi aplicada durante o atendimento de um dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf) de Parnamirim. O primeiro a experimentar o tratamento desenvolvido por Mariana foi Gilson Felipe da Silva.

Em 20 de fevereiro de 2010, Gilson mergulhou numa piscina sem conhecer a profundidade. “Quando bati com os peitos, lesionou um pouco a medula. Da queda, eu sai e ainda fui para a rede. Da rede, fui pra um beliche. Na hora que fui lá pra cima, deu vontade de ir para o sanitário. Quando cheguei ao sanitário para urinar, fui caindo sem movimento nenhum mesmo. Era só a cabeça e nem muito”, rememorou o momento.

Com 38 anos, ele perdeu a mais básica autonomia corporal. Mas depois que começou a reabilitação feita dentro de sua própria casa, sua situação começou a mudar. “Logo quando aconteceu esse acidente, eu não mexia nada. Comia pelas mãos da minha família. Agora com esse trabalho, eu já tive uma evolução muito grande. Como com minhas mãos, peguei força nos braços, aconteceu muitas coisas boas na minha vida graças a Deus. Minha recuperação é um pouco lenta. Eu estava um pouco desgostoso, mas graças a deus me peguei com Deus. Minha evolução a cada dia já é uma vitória”, comentou.

O diagnóstico de Gilson mostrou que sua lesão tinha ocorrido nas vértebras C4 e C5. Em caso de lesões completas até a C7, como a dele, a recuperação de qualquer movimento voluntário do pescoço para baixo é improvável. “O médico disse que eu só ia mexer com a cabeça, mas o médico dos médicos disse ‘não, não é assim não’”, falou Gilson, com a voz revestida de fé.

Além de comer sem a necessidade de um adaptador e escovar os próprios dentes, ele também readquiriu rigidez no tronco, consegue conduzir a própria cadeira de rodas e já começa a ficar de pé. “Antes ele só apertava a mão, hoje ele já quer dar um abraço”, contou a fisioterapeuta Mariana, com a alegria de quem contribuiu para a independência de outra pessoa.

Criatividade, vontade e sonhos

Tanto o paciente como o cuidador e a fisioterapeuta usaram da criatividade para alcançar o sucesso neste projeto. “Após o tratamento de seis meses, o cuidador do paciente foi orientado por mim. Gravei um DVD e deixei com o cuidador e ele deu continuidade e expansão desse tratamento. E assim surtiu grandes resultados”, relatou a fisioterapeuta do Nasf.

O tratamento de Gilson, coordenado por Mariana, começou em 2011. No início, eram duas visitas à casa do paciente por semana. Depois que ele e o cuidador ganharam mais autonomia, as visitas da profissional passaram a ser uma vez por mês para o monitoramento da evolução.

Gilson também tentou fazer fisioterapia oferecida por uma instituição de ensino superior, mas não deu certo principalmente em razão do deslocamento. A constante mudança do responsável pela fisioterapia do paciente também contribui para o desinteresse dele nas sessões.

Num pilar da casa de Gilson, há desenhos de exercícios, exemplificando o passo a passo com setas que ensinam os movimentos. Com a evolução física, novas ideias foram surgindo da cabeça de Gilson e Geniere Carolino dos Santos, o cuidador. “Como ele teve a melhoria diante de tudo que foi feito com o DVD, ele sentiu a necessidade de se exercitar cada vez mais. Então, ele foi vendo as capacidades e, apesar dos limites, ele criou, juntamente com o cuidador, meios de fazer esse ganho de força através de objetos encontrados na própria residência. Ele fazia exercício para bíceps, para tríceps. Ele foi além do que a gente podia imaginar”, explicou Mariana Melo.

Desse modo, Geniere e Gilson desenvolveram pesos feitos a partir de frascos usados de esparadrapo preenchidos internamente com cimento. Esses pesos são encaixados num cabo de vassoura que serve como barra. Assim, Gilson consegue fazer exercícios para os músculos dos ombros e bíceps.

A dupla também bolou pesos feitos com garrafinhas de refrigerante cheias de areia. Elas fazem as vezes de halteres. “Isso tudo fora o que a gente pensa e não tem recurso para fazer”, completou Geniere dos Santos.

As séries de exercícios, quantidade de repetições e a correta execução ficaram por conta da orientação da fisioterapeuta. Mariana também os orientou a realizar o descanso dos grupos musculares por 48 horas. “Vale salientar que teve algumas restrições de movimentos que eram feitos apenas com profissionais de fisioterapia”, disse a autora do projeto.

Depois dessa jornada experimental de sucesso com Gilson, a palavra que define Mariana Melo é satisfação. “A minha satisfação é muito grande e principalmente vendo a satisfação familiar. Quando você faz algo com amor, você vê resultados”, declarou.

Agora ela deseja que o seu trabalho se difunda com a divulgação na Mostra Brasil Aqui Tem SUS. “O intuito é expandir para os municípios, incentivar outros profissionais também a aplicar esse tipo de inovação. Não necessariamente ao portador de lesão medular, mas podem ser portadores de outras patologias”, acentuou.

O maior sonho de Gilson agora é complementar o tratamento no Hospital Sarah Kubitschek, referência nacional em reabilitação motora, localizado na capital federal. “Ele pensa em ir pro Sarah Kubitschek como uma criança quer ir pra Disney”, brinca Geniere Santos.

Presídio ganha espaço de repouso para doentes

Não foi desde o início que Gilson Felipe dos Santos esteve determinado na sua recuperação. A coordenadora de Estratégia de Saúde da Família de Parnamirim, Mariah Nascimento, acompanhou todas as dificuldades e os avanços. Segundo ela, o paciente teve uma depressão severa em função da sua imobilidade, mas conseguiu superar inclusive com o auxílio de um psicólogo do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf).

Cada um desses núcleos conta com psicólogo, educador físico, assistente social, nutricionista, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta. De acordo com a coordenadora, são 33 profissionais em cinco núcleos. Para cada nove equipes de saúde, há um Nasf. Há também a realização de ações de educação em saúde junto a grupos de idosos, escolas e outras instituições do gênero.

O Nasf é um programa do governo federal ao qual o município de Parnamirim fez adesão em 2008. Um dos seus princípios é o projeto singular terapêutico no qual cada paciente deve receber um tratamento individualizado. Nenhuma fórmula padronizada serve para o atendimento dos núcleos. Dessa experiência, Mariah Nascimento conclui que é possível um serviço de saúde pública de qualidade. “O SUS é possível, entra na casa das pessoas e é para todos”, sentenciou.

No combate a tuberculose

O tratamento da tuberculose dura cerca de seis meses. Para pessoas com Aids, esse período se estende por um ano. Mas dentro de uma penitenciária os problemas com essa doença respiratória se agravam por dois motivos: o confinamento em ambiente fechado e a impossibilidade do livre acompanhamento do paciente.

Entretanto, essa situação não ocorre mais no Presídio Estadual de Parnamirim (PEP) desde o ano passado. A unidade prisional ganhou uma área de repouso para os pacientes com tuberculose por intermédio do projeto do enfermeiro Paulo Henrique Cardoso, integrante da equipe de saúde prisional da Saúde da Família.

“Quando a gente chegou lá, não era incomum devolverem o tratamento que jogaram no lixo, os medicamentos”, revelou Mariah Nascimento. O desinteresse das pessoas privadas de liberdade era completo. Também não havia quem monitorasse a continuidade das doses do remédio contra a tuberculose.

O fato de doentes dividirem o mesmo espaço com as demais pessoas privadas de liberdade piorava o quadro da saúde coletiva no presídio. “Tuberculose é uma doença de proporção grave quando tem confinamento. Você imagina uma pessoa que transmite só no respirar, dentro de uma cela, onde estão 20, 25 pessoas obrigados a ficar o dia todo juntos sem sair para canto nenhum”, destacou Mariah Nascimento, coordenadora da Estratégia de Saúde da Família de Parnamirim.

Foi dessa situação que Paulo Cardoso idealizou o espaço de repouso onde os pacientes tuberculosos em tratamento fiquem longe dos outros por um período de 30 dias. De acordo com a coordenadora, depois dos primeiros 15 dias de tratamento, o corpo do paciente não transmite mais a doença. “Para segurança deixava mais 15, esse apenado ficava 30 dias dentro desse espaço onde ele tomava a medicação correta e aí não transmitia para os outros”, disse.

A área de repouso foi construída de forma que a falta de circulação do ar não prejudicasse o tratamento. No espaço, o banho de sol é mais constante. Por outro lado, o tratamento agora não tem interrupções. “Implantamos o tratamento supervisionado, onde o próprio preso que fica lá dentro vai entregar a medicação e o outro toma”, disse a coordenadora, falando dos apenados com bom comportamento e que trabalham em troca da redução da pena.

Dos 34 pacientes atendidos no ano passado, 24 tiveram alta em decorrência da cura. “Índice muito bom para quem jogava medicação no lixo quando a gente chegou nesse cenário”, analisou. Outros quatro foram transferidos para outra unidade prisional. Mais quatro foram para o sistema semiaberto. Somente dois tiveram o retorno da doença.

Todos os anos vários trabalhos de cada Estado são selecionados pelos Conselhos Estaduais de Secretarias Municipais de Saúde para participar da Mostra Brasil Aqui Tem SUS. Os primeiros lugares de cada Estado sempre participam da roda de conversa. Foi o que aconteceu com o projeto do enfermeiro Paulo Henrique Cardoso (com o nome “Sim, é possível fazer mais. PEP aqui tem SUS”) no ano passado e este ano com o da fisioterapeuta Mariana Melo (“Nasf – Fator determinante com fisioterapia domiciliar ao portador de lesão medular. Projeto terapêutico singular e inovador”). Ambos com a coautoria da coordenadora Mariah Nascimento.

E ainda existe previsão de muito mais projetos inovadores do tipo. Há 15 dias, uma unidade móvel leva uma equipe de Saúde da Família para dentro dos condomínios do Minha Casa, Minha Vida. Visto que Parnamirim foi a cidade potiguar com o maior número de residências do programa habitacional, agora precisa que a assistência médica básica chegue também para essas pessoas. Mariah Nascimento revelou também que no próximo semestre terá uma equipe especializada para atender a comunidade quilombola Moita Verde. Além disso, no Outubro Rosa as mulheres terão a disposição uma unidade móvel de mamografia.

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